Dentre
os momentos mais marcantes da história da humanidade estão aqueles em que
surgem as Religiões. A ideia que brota quase sempre de um único cérebro,
transborda atingindo centenas, milhares e milhões. É precisamente esse o caso
de um enorme conjunto de seitas religiosas, denominadas genericamente de
“Religiões Neopentecostais”, que se desenvolveram nos Estados Unidos da América
a partir da última década do século XIX e empolgam, no século XXI, parcelas
crescentes da humanidade em quase todos os continentes.
Os
neopentecostais abrangem mais de dezenove mil denominações e congregam mais de
trezentos milhões de seguidores. Possuem mídia televisiva e forte presença em
todos os outros canais próprios de divulgação de massa. Influenciam a vida
política das nações, compondo bancadas parlamentares cada vez mais influentes.
Inicialmente seus alvos foram o parlamento, posteriormente prefeituras e
estados Por vezes seu alvo é o Poder Central da República!
:
Estima-se
que as seitas no geral movimentem mais de trinta bilhões de dólares anuais, boa
parte dos quais com isenção de impostos e à margem de controles formais.
Encontraremos
nessas crenças religiosas muitos pilares que lhes são comuns, tais quais a
“doutrina da prosperidade” e a da “confissão positiva”; empregam conceitos
comuns “a pobreza e a doença derivam de maldições, de fracassos, das vidas em
pecado ou da falta de fé religiosa” e, em decorrência desses preceitos, um
“verdadeiro cristão” deve ter a marca da plena fé, ser bem-sucedido
financeiramente, possuir saúde física, emocional e espiritual.
Outro
pilar comum na maior parte das seitas é a permanente batalha espiritual entre
os componentes da “Santíssima Trindade” e o Diabo, trazendo um renascer de
conceitos medievais, tais como o confronto direto entre o homem e os demônios,
as ditas maldições hereditárias, a posse dos crentes pelas forças “magnéticas”
do mal. Não pocas vezes aqueles “pastores” ou “médiuns” operam “curas
milagrosas” para doenças psíquicas ou físicas, chegando mesmo ao ponto de
negação da materialidade dos males que afligem os homens.
Desenvolveram
ainda formas arcaicas de encarar a fé religiosa, tendo por foco a busca de
revelações diretamente feitas por Deus ou pelo Espírito Santo a seus
“pastores”, “bispos” ou “apóstolos”, em relações de privilégios nas quais o
rebanho é conclamado a inserir-se.
A
unirem as mais variadas seitas, estão aspectos socialmente reacionários como os
preconceitos claros ou encobertos contra a homossexualidade e sobre a
possibilidade da mulher decidir sobre seu próprio corpo.
Muitas
das seitas, numa busca que é quase sempre totalitária, anseiam pela exclusão do
Estado laico, atrelando, por exemplo, a educação a formas do criacionismo
bíblico. O contraponto dessas filosofias que negam a realidade e a evolução,
que mistifica o conceito do divino, é o seu mais cru materialismo assentado
numa estreitíssima aliança do espiritual com o dinheiro e os créditos
bancários.
Elas
substituem o ensinamento de Cristo “dai a César o que é de César e a Deus o que
é de Deus”, por um avatar que não lhes é exclusivo, mas que em nenhuma religião
é tão explícito: uma moeda onde o lado “cara” tem a figura de Cristo, e o lado
“coroa” a imagem do dinheiro, preferencialmente o dólar.
Na
origem dos “Neo-Pentecostais”, as sementes que germinaram
A
seta da história aponta para a “Ciência de Cristo”, como a inspiradora de todas
as religiões neopentecostais subsequentes. Essa seita, fundada em 1886 por Mary
Baker-Eddy, possui ainda hoje, um século após a morte de sua fundadora e
“imperadora”, quase mil e novecentas igrejas, estando presente em setenta e
seis países. A “bíblia” desse movimento, escrita pela fundadora denomina-se “Ciência e Saúde com a Chave das Escrituras”,
um best-seller por décadas. Em 1995, “Mother Mary” foi incluída no Hall da Fama
de Hollywood e, em 2002, uma Biblioteca com seu nome e totalmente dedicada aos
seus escritos foi franqueada ao público.
A
“Grande Basílica” da seita, inaugurada em 1906, com a qual o Templo de Salomão
do “Bispo” Edir Macedo tem a pretensão de concorrer, possui capacidade interna de recepção de vinte mil
crentes.
Deve-se
assinalar que o jornal publicado pela “Ciência de Cristo”, “O Monitor”, ganhou
ao longo de décadas sete prêmios Politzer, assumindo, inclusive, em
determinados momentos históricos, posições progressistas e respeitáveis em
defesa dos direitos humanos, após mais de cincoenta anos da morte de sua
fundadora. De uma maneira geral pode-se dizer que essa crença, tendo sido a
grande precursora das seitas neopentecostais, no decorrer dos anos perdeu sua
belicosidade inicial e aproximou-se daquelas correntes evangélicas mais
tradicionais, tornando-se menos autoritária e excludente.
Mas
suas sementes originais de intolerância e ganância gerariam milhares de outras
seitas. A “Ciência e Saúde com a Chave das Escrituras” influenciará de modo
direto, na primeira década do século XX, homens como E. W. Kenyor, o inspirador
da “Teologia da Prosperidade” e K. Hagin o fundador da primeira “Assembleia de
Deus”, que ele inaugura após um propalado batismo pelo “Espírito Santo”, em
1937.
Da
mesma maneira, a “Ciência de Cristo” inspirará o tele evangelismo, que desde a
década dos anos oitenta frequenta diversos canais da televisão aberta, a bordo
do qual embarcam prestigiadores como o já citado “bispo” Edir Macedo. Ele, em
nosso país é paradigmático: antigo pesquisador do IBGE na década de 1970,
católico desde nascença, teve sua “revelação” em 1976 e fundou, em 1977, a
“Igreja Universal do Reino de Deus”.
Mas
voltemos a Mary Baker. Ela nasce em uma família pobre, no ano de 1821. A
menina, fisicamente frágil, tem dificuldade em acompanhar os estudos escolares
e os abandonará prematuramente, antes da conclusão do primeiro grau.
Transforma-se em uma adolescente indolente que prima por chamar a atenção de
seus familiares sobre si, num ar incontido de presunção e superioridade. A cada
vez que é contrariada pelos parentes, desenvolve “ataque dos nervos” os quais
adotará por toda a vida, como seu método pessoal de tiranizar as pessoas. De
todos os modos, a mocinha chegará à idade adulta sem jamais haver trabalhado,
nem mesmo nos afazeres domésticos.
Para
alívio de seus pais e irmãos, Mary casa-se aos vinte e dois anos com um jovem
chamado Glover; viajam para o oeste e estabelecem seu lar. Mas, por um desses
infortúnios da vida, após apenas um ano e meio de casada e estando grávida,
morre-lhe o esposo. Ela regressa à casa dos pais e volta a sofrer de “ ataques
nervosos”. Nascido seu filho, ela descobre que a maternidade é um “serviço” que
tão pouco lhe atrai e decide desfazer-se
da criança.
Novamente
repetem-se as cenas da adolescência em que ninguém se atreve a contradizê-la
para evitar os conhecidos achaques. Ela seguirá levando uma vida parasitária
até os cincoenta anos de idade, tendo sido sustentada primeiro pelo pai, depois
pela irmã e finalmente pela caridade alheia. Mas, ainda estamos longe dessa
época. Por enquanto, ela descobre poder-se acalmar em um sofá de balanço, e aos
trinta anos de idade esta genial atriz de um mundo patológico, representando a
paródia de o eterno sofrer, permanecerá deitada quase todos os dias e noites.
Enquanto
tudo isso ocorre, na distante Portland chega certo discípulo do alemão Messmer
e traz para a América a novidade do hipnotismo, uma alternativa para a “cura”
dos males do espírito. Um relojoeiro de nome Quimby interessa-se pelo método e
começa uma espécie de pesquisa em que anota todos os efeitos da hipnose sobre
os “médiuns” e os enfermos. Na sua simplicidade, Quimby percebe que pode
auxiliar pessoas doentes, mesmo dispensando o recurso do hipnotismo, e, também
que pode viver de suas “curas”. Então,“Dr. Quimby” desenvolve um método
próprio, que ele denomina “Cura pela Mente”, como “Jesus Cristo fizera antes
dele dezoito séculos atrás”.
Mary
Baker ouve falar dos resultados desses tratamentos e ela decide que quer se
curar. Em 1862, consegue arrancar dinheiro dos familiares e viaja até Portland,
submetendo-se de corpo e alma a Quimby. Ora ela possuía uma predisposição para
o “milagre” do Dr. Quimby; além disso, arranca de si mesma a “vontade de
possuir saúde”, afinal, aquela era a sua última cartada para que um “prodígio”,
fazendo-a “crescer acima de todos” pudesse ocorrer. Se voltasse no mesmo estado
de enferma para a sua cidade seria desprezada e, se curada, ela seria o próprio
prodígio!
Ao
final de uma semana de tratamento, a inválida encontra-se completamente curada;
rejuvenesce e faz brotar em si mesma uma energia que a fará, em breve, subjugar
e fazer-se sentir por milhões de pessoas. Faz com que Quimby empreste-lhe todas
suas anotações, as tais “Perguntas e Respostas” de suas pesquisas, que ela, à
noite, copia. É a primeira vez na vida que ela demonstra uma verdadeira paixão
por algo.
Ao
retornar à casa da irmã, Mary Baker é, no seu próprio dizer, uma pessoa que
“ressuscitou como Lázaro” e faz de Quimby “um continuador de Cristo”. Sobre
esses fenômenos profere palestras, promove demonstrações, enfim, pratica um
ensaio geral sobre o que fará apenas dez anos após. Parte de New-Hampshire onde nada e ninguém mais a
amparará e viaja com sua pequena maleta para a vizinha cidade de Lynn.
Ainda
faltam anos para que ela se transforme na mulher mais bem sucedida do princípio
do século XX. Por enquanto, andará de casa em casa como uma parasita. Pessoas
simples a acolhem como a uma peregrina, a “profetiza” que fala de curas
maravilhosas. Nenhuma de suas estadas durará muito, Mary Baker não possui o
mais tênue sentimento de gratidão para quem a ajude ou sustente. Sempre tentará
subjugar e usar a todos os que lhe deem guarida. Seu caráter dominador,
tirânico, suscita sempre conflitos e desavenças com as pessoas, inevitáveis
consequências de uma presunção incontida.
Tem
consciência de que seu temperamento instável e irritadiço é incapaz de “curar
pela mente”. Para tanto seriam necessários empatia, calma, ouvidos, domínio e a
paciência de um Quimby. Logo, ela precisa de um mediador. Para tanto publica
anúncios em jornais, buscando aquele que “deseje aprender a curar enfermos”. O
seu primeiro discípulo aparecerá em 1870, um jovem operário de nome Kennedy.
Ela, mediante um contrato escrito em que cada um ficará com metade dos
proventos, irá treina-lo em sua “ciência”. Unem-se, então, o Cristo e o dólar.
Mas ainda falta-lhe o poder!
A
dupla arrenda uma sobreloja, onde também residirá, ele praticando sua
“medicina” (a árvore em frente ganha uma tabuleta: “Dr. Kennedy- Ciência de
Cristo”) e ela escrevendo e a tudo controlando. O êxito é tão grande que em
três meses alugam também a loja abaixo. O plágio de Quimby é absoluto. Kennedy
decora e repete: “Que o homem é divino, que Deus não quer o mal e, portanto, a
dor, o mal e a enfermidade não existem. Os males não são senão imaginações, um
erro de que a gente deva se livrar”.
Em
determinado momento Mary Baker decide que Kennedy já não lhe basta. Quer reunir
mais apóstolos que levem ao mundo a não existência das doenças. A mestra de a
“Ciência de Cristo” começa a formar seus “médicos” em cursos de seis semanas de
duração. O êxito de Kennedy, que chega a faturar doze mil dólares por mês,
atrai dezenas de operários e pequenos comerciantes para os cursos. Ela a
princípio cobra-lhes cem dólares e, posteriormente, trezentos pelo curso e, por
contrato, 10% de todos os ganhos futuros.
Mary
Baker sente o fumo do sucesso e desde esse primeiro momento tenta patentear
“suas descobertas” e convertê-las em dólares. Na sua crença não existe a
matéria, só o espírito, no entanto, as notas bancárias são mais que reais para
essa mulher.
Após
dois anos de parceria Mary Baker deseja, afinal, livrar-se do pacífico Kennedy.
Do dia para a noite ela suprime a prática de se tocar no paciente, na qual
Kennedy fora treinado e a qual praticava. Era a primeira de muitas excomunhões
que faria: de seus lábios convulsos brotaram todas as monstruosidades
imaginárias. Atribui a Kennedy um tal de “influxo diabólico”, que é a
própria necromancia medieval renascida.
Com esse processo a sua “Ciência de Cristo” criará mais um pilar de
sustentação: “o magnetismo animal malicioso”.
Mary
Baker se auto promove em “a enviada de Deus para guiar seu rebanho na Terra”.
Todos os domingos ela reunirá seus discípulos para a prédica dominical,
acompanhada por música coral e piano. Ela ascende de professora a sacerdotisa,
transformando sua terapêutica em sacerdócio.
Nega,
desde sempre, todo o seu passado e apaga qualquer referência que um dia fizera
a Quimby, “a quem jamais conhecera”. Sendo necessário criar uma “Legenda Áurea”
sobre si mesma, toda a infância da sacerdotisa é agora recontada, incluindo
entrevistas com anjos e Joana D’Arc. Ela própria define como sendo em 1866 o
momento de “sua graça” (após a morte de Quimby, naturalmente), quando o Senhor
apareceu-lhe diretamente e inspirou-lhe a “Ciência de Cristo” e as leis divinas
da vida.
Mary
Baker e sua metafísica entram para o reino do absurdo e nesse movimento lança
as pedras fundamentais de todas as futuras seitas neopentecostais dos séculos
XX e XXI.
Ela
tornará a casar-se e seu terceiro marido será um dos discípulos, agora
apóstolos, Gilbert Eddy, em 1887.
Apesar
de enriquecida, Mary Baker-Eddy sabe que todas as religiões em seus estágios
embrionários não podem se permitir cismas, que possuem a possibilidade de
destruir todo seu edifício. Contra todos aqueles que buscam caminhos
independentes do seu, ela, além da excomunhão, move-lhes processos na justiça
dos homens. Chegará mesmo ao ponto de processar um ex-apóstolo por bruxaria,
isso quase no século XX. O juiz encarregado do caso sorri na face daquela
mulher magra e grisalha, colérica e que mal se contém de ódio, aquela que se
diz “enviada pelo Espírito Santo”. O juiz declara-se incapaz de julgamentos
cabalísticos e encerra uma de suas dezenas de processos.
A
imprensa começa a indagar sobre as origens de tal sacerdócio e o prestígio de
Mary Baker-Eddy ameaça desmoronar na pequena Lynn. Ela toma uma das grandes
decisões de sua vida. Buscará nova cidade, grande o bastante para seus
projetos. Com todo o dinheiro acumulado irá mudar-se para Boston, carregando
consigo apenas seu marido Gilbert, cuja saúde não resistirá. A viúva declarará
que a morte do marido ocorrera devido ao “arsênico metafísico”, um veneno
mental emitido pelos demônios excomungados por sua fé.
Em
Boston, ela adquire uma residência de três andares, na Avenida Colombo, a via
mais elegante da cidade. Decora cada ambiente com esmero, quadros e tapetes.
Seus alunos serão pessoas “refinadas” e não mais os pobres de Lynn. Sua nova
escola é nomeada de: “Universidade Metafísica de Massachusetts”, com uma autorização
de funcionamento comprada dos agentes do Estado de Massachusetts.
Todo
domingo Mary Baker-Eddy sobe ao púlpito e o público que superlota a sua
Universidade-Igreja retém a respiração perante sua ardente oratória. Desde
então sua figura somente será vista em momentos especiais, criando ao redor de
si uma auréola de mistério e encantamento. Para evitar os tropeços do passado
ela erguerá anteparos que a distanciem de quem foi e de quem é: serão
secretários, atendentes, advogados.
Ela
também conhece muito bem a América de 1890 e sabe que aquele que deseje
conquistá-la deverá primeiro ganhar a consciência das massas, com o
ensurdecedor ribombar da propaganda. Sabe também, como saberão todos os futuros
líderes das seitas neopentecostais que qualquer produto deve buscar atender
seus consumidores, identificar suas necessidades e criar novas. Assim, Mary
Baker-Eddy usará e abusará da publicidade.
Cria
o primeiro serviço de atendimento telefônico-religioso; em seguida, funda o
“Jornal da Ciência de Cristo”, que com asas de mercúrio chegará a todos os
recantos de Norte-América, trazendo a boa nova das curas de Boston, um novo
método de “medicina universal”.
Desde
Nova York, Filadélfia e New Jersey chegam enfermos, muitos dos quais se
tornarão apóstolos da nova doutrina. E cada novo “doutor” trabalhará para
aumentar as assinaturas do jornal. E, desde então, novos alunos sempre
acorrerão a Boston.
A
engrenagem funciona a todo vapor. Deste modo, entre 1890 e 1900 teremos trinta
e três “Academias para doutorado” na “Ciência de Cristo”, distribuídas por
quase todo o território americano. A bíblia “Ciência e Saúde” alcança a
espantosa cifra de trezentos mil exemplares vendidos.
Todo
o dinheiro das doações recolhidas pela Universidade e percentagem das Academias
irá para a conta bancária de “Mother Mary”; dezenas de milhões de dólares que
serão aplicados na construção de Templos e em esplêndidas mansões de retiro.
A
cobiça de Mary Baker-Eddy não encontra limites e por isso a “Ciência de Cristo”
será organizada dentro das melhores bases comerciais e contará com
profissionais em áreas-chave. Logo surgirão souvenirs, imagens, fotos
autografadas da fundadora, mais e mais livros, folhetos, até mesmo utensílios
domésticos.
O
prestígio de Mary Baker-Eddy aumenta dia a dia. A cada aparição sua um público
de dez, quinze mil pessoas aglomera-se para ouvi-la falar. Em Chicago ela
organizará sua primeira “Festa do Espírito”, em 1888, consagrando-se de vez.
Mary assume-se com “A Profetiza” e decide construir o “Templo da Profetiza de
Cristo”. É sua santificação!
Ao
abrirem-se as janelas do século XX, a igreja de Mary Baker-Eddy estará entre as
quarenta maiores empresas norte-americanas, e uma das dez mais lucrativas. É
chegada a hora do profissionalismo. Mary Baker define uma organização
absolutamente piramidal de poder e de lucros. Cria um “Board of Directors”, do
qual será a Presidente, e todas as centenas de igrejas implantadas terão de
manter uma obediência irrestrita à “Santa Madre Igreja”. Instruções específicas
garantem percentagens de repartição dos lucros, métodos de contabilização dos
resultados e impedem qualquer tipo de heresia doutrinária. Alguém tem dúvida a
respeito do mestre que realmente inspirou um tipo como Edir Macedo?
Assim
como o juiz de Lynn desnudara-lhe a hipocrisia e a paranoia pecuniária, agora
surgiria a voz do jornalista, humorista e intelectual, Mark Twain,
desmascarando-a: Como Mary Baker dizia que o livro “Ciência e Saúde” lhe havia
sido ditado por Deus, por que ela cobrava direitos autorais sobre algo que só à
divindade seria devido?
Mark
Twain jamais a abandonaria em suas críticas enquanto ela vivesse. Ele denuncia
na imprensa como sendo uma patranha a religião que somente se ocupa em acumular
dinheiro para si mesma e para seus próprios membros, sem jamais preocupar-se em
praticar a caridade ou em possuir um mínimo de altruísmo. E interroga-se:
quando ela se aventuraria pela política?
As
respostas de Mary Baker-Eddy a quaisquer questionamentos sempre foram de um
total cinismo, quando não de cólera. Por exemplo, diz que “Deus ordenara-lhe a
cobrança para cada graça requerida, pois o cordeiro, para obter a graça, teria
que sacrificar-se antes, pagando”. Hoje
não ouvimos essa mesma frase reverberar nos templos neopentecostais?
Apenas
e tão somente a vida será capaz de desmistificar aquela grande charlatã: ela
envelhece, perde seus dentes, os membros se entorpecem, surge a dificuldade de
fala e já não escuta o que lhe dizem; os cabelos escasseiam e as rugas se
aprofundam. Não é a sua religião que afirmava que a doença e a velhice não
existiam?
Mas
as proporções de seus negócios haviam se tornado colossais. Quando a fundadora
completa oitenta anos, a sua igreja contava com mais de cem mil discípulos
praticantes; os seus templos de pedra e mármore se disseminavam pela América;
de toda a Europa surgiam mais e mais adesões e a fortuna pessoal da “Mother”
era estimada em mais de dez milhões de dólares, aos valores da época.
Aos
oitenta e dois anos, Mary Baker-Eddy encara um novo desafio, lançado pelo já
fundado Templo de Nova York: erguer uma Basílica muito maior que o templo
novaiorquino, para a Congregação das
Igrejas. Essa Basílica, que constitui ainda hoje um dos mais belos edifícios
de Boston, foi construída com doações que chegaram a dois milhões de dólares,
contendo acomodações para vinte mil crentes. Foi inaugurada em 1906 ao som do
hino: “Pastor, indica-me o caminho”. Hino modificado, mas sempre repetido pelas
novas seitas nos últimos cem anos.
A
multi-milionária Mary Baker-Eddy morre no auge de sua fama, dona de imenso
poder não somente sobre sua religião mas, também, sobre grande parcela dos
Congressistas americanos, aos oitenta e nove anos de idade, no ano de 1910.
A
senda por Mary Baker-Eddy aberta é disputada nos dias de hoje, por quase
dezenove mil seitas, algumas de grande sucesso, utilizando as mesmas bases
metafísicas que ela introduziu há mais de um século e que podem ser resumidas
na união maquiavélica e perniciosa da religiosidade com o dólar, na exploração
da crendice popular e na busca pelo poder terreno!
Publicado em 31 agosto 2014
por Carlos Russo Jr
http://proust.net.br/blog/?p=568

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