A
pergunta recorrente nas esquerdas é esta: como o Estado que elegeu Collares e
Olívio para o governo está cada vez mais sob a ameaça de uma duradoura
hegemonia da direita?
A
resposta não é a perplexidade. O Estado que elegeu Alceu Collares e Olívio
Dutra não existe mais. Collares foi eleito em 1990. Olívio, em 1998.
Uma
criança com 10 anos, quando os gaúchos elegeram seu primeiro governador negro,
é hoje um homem com 38 anos. Um adolescente, quando o PT chegou ao poder,
também é agora quase quarentão.
Os
filhos e os netos dos eleitores de Collares e Olívio podem não ter nenhuma
conexão política com seus pais e avós. Em muitas famílias, são seus opostos.
Assim
como a classe média que deu lastro ao PT talvez não exista mais. Existem os
sobreviventes, mas a classe média que ergueu as trincheiras da distribuição de
renda, do ambientalismo, dos direitos humanos e das grandes questões da
esquerda não se renova com a mesma potência e as mesmas ambições.
A
nova classe média jovem é a das lutas identitárias (questões de ‘raça’, gênero,
costumes etc) e aí, sabe-se, misturam-se centros, esquerdas e direitas. Tanto
que muitos jovens, e não são poucos, que defendem a liberação da maconha votam
em Bolsonaro.
Foram-se
para o ralo o debate e as ações envolvendo classes e utopias. A esquerda se
fragmentou, e os partidos perderam expressão.
Mas
a direita ainda faz política do jeito antigo. É nesse contexto que se fortalece
o discurso da república do relho. Regredimos ao século 19.
Como
esperar uma reversão nesse ambiente de direitismos que também estimulam
fascismos?
Eu
torço apenas para que os jovens voltem a pensar e agir como jovens, que os
pobres não pensem como os ricos e que as mulheres não votem em quem as deprecia
e humilha. Mas não é tão simples assim.

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