Segundo a Anvisa, o consumo
brasileiro do princípio ativo do Rivotril, o clonazepam, em 2007 era de 29 mil
caixas por ano. Em 2015, este número atingiu os 23 milhões, de acordo com a IMS
Health. O crescimento significativo em pouco tempo desperta as suspeitas de uso
excessivo e desnecessário por parte de especialistas.
Com a promessa de aliviar as
pressões e as ansiedades cotidianas, psiquiatras e médicos em geral receitam o
remédio tarja preta, ou seja, que pode causar dependência física e psíquica,
mesmo que o paciente não apresente um caso clínico de ansiedade.
Agravando a situação, o
medicamento tem um valor relativamente baixo. A reportagem de CartaCapital
chegou a encontrar caixas a R$ 4. As mais caras são vendidas por cerca de R$
20.
A reportagem é de Ingrid
Matuoka, publicada por CartaCapital, 04-11-2015.
O clonazepam, princípio
ativo do medicamento Rivotril, do laboratório farmacêutico Roche, pertence à
classe farmacológica das benzodiazepinas, que agem diretamente sobre o sistema
nervoso central, afetando a mente e o humor.
Os ansiolíticos à base de
clonazepam são as substâncias mais consumidas no Brasil entre os 166 princípios
ativos de remédios tarja preta segundo o Boletim do Sistema Nacional de
Gerenciamento de Produtos Controlados da Anvisa, entre 2007 e 2010.
A Rivotril tem entre seus
usos o controle de distúrbios epilépticos e casos graves de transtornos de
ansiedade, como a Síndrome do Pânico. Sempre em situações pontuais e pelo menor
tempo possível.
“O Rivotril, de modo geral,
é uma medicação segura e eficaz para o que se propõe, e pode ser de grande
benefício quando bem receitado”, explica o médico psiquiatra Plinio Luiz
Kouznetz Montagna, ex-presidente da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São
Paulo e ex-professor da Universidade de São Paulo, com passagem pelo Instituto
de Psiquiatria da Universidade de Londres.
No entanto, segundo
Montagna, seu uso tem sido banalizado. O psiquiatra explica que usar o Rivotril
para apaziguar sintomas sem dar atenção às origens dos mesmos pode mascarar
quadros mais graves, porque a ansiedade pode ser primária ou derivar de outras
condições, como depressão e psicoses, que exigem outros tipos de tratamento.
Montagna esclarece que as
manifestações da ansiedade podem ocorrer tanto na esfera psíquica (sentimento
opressor, antecipação de perigo etc) como no corpo (dispneia, insônia,
taquicardia). Já as causas da ansiedade podem derivar de elementos biológicos,
psicológicos, socioculturais e do desenvolvimento individual em um contexto
familiar determinado.
O psiquiatra considera a
ansiedade como fundamental para sinalizar um perigo e necessária para a saúde
psíquica. “Costumo comparar com o funcionamento de um violão. É preciso um
nível de tensão das cordas adequado para que a música aconteça. Se as cordas
estiverem frouxas, não sai música. Se demasiadamente estiradas, podem até a
romper. Assim é a ansiedade em relação ao funcionamento mental humano”.
No entanto, quando a reação
a um estímulo passa a ser desproporcional é que há um transtorno de ansiedade,
como explica o conselheiro do Cremesp Mauro Gomes Aranha de Lima. “Viver em
grandes centros urbanos gera, naturalmente, um sentimento de ansiedade por
deixar as pessoas estejam constantemente em alerta, estressadas. E isso não é
necessariamente um transtorno de ansiedade. Mas esses fatores podem desencadear
um transtorno em quem já tem certa tendência a isso”.
Como exemplo de reação além
da necessária a um estímulo, Lima descreve a situação em que alguém vê uma faca
ou está em um elevador apertado e isso desencadeia uma crise de pânico. Ou
quando, ao cumprimentar alguém e sentir um pouco de suor, ter que lavar as mãos
excessivamente depois.
Em relação à vida urbana de
que Lima fala, Montagna lembra o epidemiologista inglês Richard Wilkinson,
cujos trabalhos são utilizados pela ONU e a OMS: “o binômio inclusão - exclusão
a grupos, pequenos ou grandes, está em questão. Os estudos de Wilkinson
observam que o fator que importa em termos de ansiedade e saúde mental, consumo
de drogas, criminalidade, e diversos outros índices de bem estar social é a
diferença de renda entre os mais ricos e os mais pobres. Quanto mais equitativa
a sociedade, menor a prevalência de ansiedade transtornos mentais”.
Montagna pondera que, se
essa é a situação em países do primeiro mundo, a questão deve tornar-se muito
mais aguda e possivelmente mais dramática em países como o Brasil, com uma
grande desigualdade social. “Com a desigualdade, nos índices de saúde, saúde
mental e social, o prejuízo, o sofrimento não é só dos pobres, mas também dos
ricos. O prejuízo da desigualdade é de todos”.
Surgimento e abstinência
O surgimento dos atuais
tranquilizantes é atribuído a Leo Sternbach, que trabalhava para Hoffmann - La
Roche e patenteou mais de 241 inovações químicas, tornando a Roche uma das
maiores indústrias farmacêuticas do mundo. Ele foi responsável por desenvolver
os primeiros tranquilizantes à base de benzodiazepínicos, substituindo os
barbitúricos desenvolvidos no começo do século passado (como o Gardenal)
perigosos por terem a dosagem fatal próxima à dosagem para o tratamento. Em
1960, Sternbach lançou o Librium e, três anos depois, o Valium, mais simples e
mais potente.
“Mães precisam de alguma
coisa hoje para acalmá-las. E mesmo que ela não esteja realmente doente, há uma
pequena pílula amarela”, diz a música dos Rolling Stones lançada em 1966 em
referência ao Valium, quando os tranquilizantes já estavam popularizados nos
Estados Unidos.
Hoje, Medley, Sanofi,
Pfizer, Aché e Farmasa são alguns dos laboratórios que produzem ao menos um
medicamento à base de benzodiazepinas no Brasil, além das versões genéricas dos
princípios ativos. O Rivotril, da Roche, contudo, é um dos mais conhecidos.
Dados obtidos pela
reportagem da Folha de S. Paulo em 2011 e 2012 mostram que, dentre todos os
medicamentos, tarja preta ou não, o Rivotril foi o sexto mais vendido no
Brasil. Na época, o Rivotril era responsável por 77% das vendas de ansiolíticos
-- 14 milhões de caixas por ano. O levantamento foi feito a pedido do jornal
pela IMS Healt, a empresa que audita o mercado farmacêutico no país. Procurado
pela reportagem de CartaCapital, contudo, a IMS Health afirmou que este tipo de
levantamento não está mais disponível para a imprensa.
Em 2007 foram consumidas 29
mil caixas de medicamentos à base de Clonazepam (princípio ativo do Rivotril)
no Brasil. Três anos depois, em 2010, esse número superou os 10 milhões, de
acordo com a Anvisa. Já entre setembro de 2014 e agosto de 2015, o consumo de
todos os medicamentos à base de Clonazepam subiu para mais de 23 milhões, de
novo de acordo com os dados da IMS Health.
“No fim do século passado
prescrevia-se Dienpax a todo o momento. Hoje isso ocorre com o Rivotril”,
analisa Montagna. Lima acredita que o uso acima das necessidades reais desse
tipo de medicação acontece porque não há a necessidade de que um especialista o
receite. “É uma forma de melhorar rapidamente a ansiedade e, de alguma forma, o
paciente institui aquele remédio como uma constante – esse é o cuidado que
devemos ter, para não usar cronicamente. E vale lembrar: jamais em proximidade
com bebidas alcoólicas, porque potencializa o efeito sedativo”.
O psiquiatra também alerta
para a perda do efeito ao longo do uso crônico, uma tendência das
benzodiazepinas. “Para obter o mesmo efeito é preciso aumentar progressivamente
as doses. A questão é que a retirada dos benzodiazepinas quando é usado por
longo tempo, deve ser gradual, porque pode gerar síndrome de abstinência”.
Como combater o uso
excessivo?
Para contornar a situação,
Montagna ressalta a necessidade de trabalhar mais, na educação médica, a
relação médico-paciente e a valorização de aspectos humanos da Medicina. Ele
afirma que percebe que muitos médicos não têm ferramentas para lidar com o
paciente a não ser através da medicação. “Mas de todo modo não se perca de
vista que o Rivotril tem suas qualidades em quadros de ansiedade, eventualmente
como coadjuvante de antidepressivos e para a epilepsia”.
Lima, como conselheiro do
Cremesp, afirma que eles procuram fazer uma educação médica continuada, levando
aos médicos não psiquiatras os melhores meios de utilizar essas medicações.
“Existem maneiras de a vigilância sanitária mapear prescritores muito
exagerados de tranquilizantes e, por vezes, a gente chama esse médico no
Conselho e alertamos sobre esse uso indiscriminado. Mas é a qualidade da
formação médica que evidentemente precisa melhorar no nosso país”.
Lima observa que alguns
tratamentos de ansiedade precisam de um ou dois anos de medicação, mas que não
devem ser usados os benzodiazepinas e, sim, outro grupo de medicações mais
adequado para tratamentos de longa duração. No entanto, nem eles são capazes de
curar o transtorno de ansiedade definitivamente. “São muito importantes no
tratamento da ansiedade todos os métodos psicoterápicos. E cada tipo de
ansiedade existe terapias adequadas. Então a psicoterapia é o tratamento mais
que tem resultados mais sustentados e deve ser feito concomitantemente ao
tratamento farmacológico, sempre objetivando interromper a medicação depois de
algum tempo”.
A indústria farmacêutica
Roche, fabricante do Rivotril, foi procurada por CartaCapital e, até a
publicação desta reportagem, não se manifestou.
Fonte. Carta Capital
http://www.ihu.unisinos.br/noticias/548608-rivotril-a-droga-da-paz-quimica

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