“Realmente
estou tranquilo”, diz o jurista, um dos artífices da Constituição
Escrito
por Isaías Dalle
“Aqui
eu moro na roça”, diz Dalmo Dallari, ao nos receber em sua casa com jeito de
morada no campo, encravada num bairro totalmente urbano na capital de São
Paulo. Árvores frutíferas, pássaros, gatos e um lago artificial compõem o
cenário bucólico, vez ou outra contrastado com o barulho dos jatos que passam a
baixa altitude.
Não
bastasse seu ar sereno, ele faz questão de afirmar: “Eu estou absolutamente
tranquilo quanto à manutenção da ordem brasileira”. O jurista e professor, que
entre 1986 e 1988 percorreu o Brasil articulando a participação popular na
feitura da Constituição, continua com os pés e os olhos nas ruas e diz que
Dilma seguirá em seu mandato até o final.
Sua
segurança é tanta que sugere retirar a palavra impeachment da pauta.
Saiba
o porquê lendo os principais trechos da entrevista:
Professor,
como o senhor tem visto a conjuntura política: sequências como o comportamento
do presidente da Câmara e essa mensagem constante na imprensa sobre a tese do
impeachment, da derrubada iminente da presidenta? Qual sua avaliação? O sr. vê
possibilidade de ruptura, de quebra do Estado de Direito?
Nesse
ponto eu estou tranquilo. Não vejo possibilidade de ruptura, de quebra da ordem
constitucional, entre outras coisas porque os que hoje atuam mais fortemente na
política brasileira não têm o mínimo respeito pela Constituição. Então, para
eles, ter ou não a Constituição, mudar as regras, isso não tem a mínima
importância. Eles fazem pequenos ajustes, só para dar uma aparência de
constitucionalidade, de legalidade, mas, esse é o ponto essencial, os que hoje
fazem o jogo político, que dele tiram vantagem, não têm necessidade de
suspensão da Constituição.
Esse
é um paradoxo, uma contradição, mas ao mesmo tempo, um ponto tranquilizador.
Como eles não respeitam a Constituição, eles não têm interesse em revogar a
Constituição. Revogá-la daria muito trabalho, é muito arriscado, poderia gerar
reações violentas, então não interessa.
A
minha conclusão é que não existe risco porque não há interesse. Não há uma só
força, uma corrente, interessada na suspensão da ordem constitucional formal.
Eles na verdade desrespeitam, e o Eduardo Cunha é um exemplo evidente disso,
como dias atrás, repetindo votações, isso é absolutamente inconstitucional.
É
como tenho escrito no único espaço que me restou na imprensa, que é a versão
eletrônica do JB, nós não temos parlamentares, temos “paralamentares”. E tanto
a Câmara quanto o Senado têm dado demonstrações disso: são absolutamente
lamentáveis. Não há nenhuma grande liderança, não há nenhum partido coeso, com
posições definidas, e com fidelidade à programação partidária. Isso realmente
desapareceu.
Mas
esse é o grande paradoxo: isso tira o risco de um golpe. Porque ninguém tem
interesse no golpe.
O
sr. falava de desrespeito sistemático à Constituição. Para o sr. que foi um
especialista e um militante que atuou intensamente na elaboração da atual
Constituição, como se sente ao ver esse desrespeito ?
Na
verdade é profundamente lamentável. De qualquer maneira eu fico feliz de que a
Constituição continue em vigor, com conteúdo absolutamente humanista,
democrático, e isso é uma conquista do povo brasileiro. Então é muito
importante que ela seja preservada. Eu quero lembrar que participei
efetivamente da Constituição, discursei em plenário, mas como um constituinte
cidadão. Sem mandato. Porque eu fui convidado para participar formalmente, mas
para isso eu teria de ter filiação partidária, e eu não queria. Não fui e não
sou filiado a partido algum existente no Brasil. Isso para mim é fundamental,
pois eu sou um jurista e um professor, então é muito importante a minha
independência e autonomia, e quero que meus alunos acreditem nisso. Eu estou
falando por convicção, meus valores têm como base a dignidade da pessoa humana.
Em termos didáticos, em termos de ação política, os grandes valores são a
Justiça e o Direito. É isso que me direciona. Quando faço análise, avaliação do
comportamento do político, eu parto desses pressupostos: o quanto eles estão
coerentes com a Justiça e o Direito.
Agora
o sr. vê uma situação melhor ou pior que em outros momentos do período
pós-redemocratização?
Nós
já tivemos momentos muito ruins, muito negativos, por causa justamente desses
desvios partidários, desses desvios políticos. Pode ser que hoje isso tenha
adquirido uma visibilidade maior. Acho que há inclusive uma grande
responsabilidade da imprensa. A imprensa valoriza demais os pormenores de
corrupção e de desvio. Há uma evidente obsessão anti-Lula, anti-PT, que
contribui bastante para esse desvirtuamento.
Quando a imprensa percebe ou suspeita que alguma acusação pode atingir o
Lula, isso vira manchete. Isso está inclusive na base da supervalorização,
excessiva valorização, da delação premiada. A delação premiada acabou tornando
delinquentes, criminosos confessos, em grandes personagens. Porque eles fazem
delações que poderão atingir o Lula, o PT, as esquerdas.
A
delação, em tese, o sr. vê como um instrumento legítimo, mas supervalorizado
neste momento, ou não, a deleção não é um bom instrumento?
A
delação, da maneira como foi constituída, é mais negativa que positiva. Ela, de
certo modo, é a aplicação de uma criação italiana. Quando a Itália estava num
momento difícil, combatendo a Máfia, foi criada a figura do arrependido. Era o
mafioso que, sendo preso, aceitava fazer denúncias para ser beneficiado no
processo, às vezes até perdoado. Isso
fez surgir a figura do delator premiado, que na verdade não é um arrependido, é
alguém que está negociando para sair melhor de uma acusação ou de um processo.
Mas é altamente duvidosa a espontaneidade desse indivíduo, pois o delator ou
está sofrendo ameaça ou está sofrendo uma oferta muito conveniente para ele.
Então, isso também é uma forma de coação. Não há coação física, mas há coação
psicológica. Por essa razão, tenho sérias restrições à delação premiada.
A delação premiada acabou tornando
delinquentes, criminosos confessos, em grandes personagens. Porque as delações
podem atingir o Lula, o PT, as esquerdas
Delação
premiada nos remete de pronto à Operação Lava Jato. Economistas e mesmo
dirigentes sindicais relatam que há setores de atividade que estão
desacelerando, em virtude das investigações.
O sr. acredita que um processo como esse de investigação possa conviver
com o funcionamento normal da economia? Já houve algum processo semelhante, em
outro país, que não tenha paralisado a economia?
Lembro
que há outros países que passaram por momentos de maior investigação. O que
acontece que nós estamos colocando isso na linha de frente, há uma
teatralização, estamos explorando o espetáculo. Existe, sim, uma consequência
econômica, pois muitos investimentos eram feitos graças ao recebimento de
dinheiro público, ou de instituições como a Petrobrás. Esses investimentos
deixaram de ser feitos, mas as empresas continuam existindo. Eu tenho amizade e
conhecimento com muitos empresários, e não conheço nenhum caso em que um deles
tenha ficado pobre. Na verdade há uma choradeira porque houve redução de ganho.
Mas isso está longe de significar que essa classe socialmente privilegiada está
em dificuldades. Por isso não acredito no risco de graves e gravíssimas consequências
econômicas. Há sim, um período de diminuição dos investimentos, inclusive
porque eles têm recebido menos dinheiro público. Mas eles têm interesse na
manutenção dos negócios. Então, haverá uma diminuição do ritmo, mas depois de
um tempo deve se ajustar e passar, não tenho dúvida nenhuma.
No
início de nossa conversa, o senhor dizia que não vê risco de uma ruptura
institucional. Eu gostaria de perguntar sobre aquela modalidade de golpe
conhecida como golpe paraguaio, em referência à derrubada do presidente
Fernando Lugo. Derruba-se um mandatário, sem necessariamente ter provas. O sr. acredita nessa possibilidade aqui no
Brasil?
Eu
não vejo essa possibilidade pois nenhum partido, seja de direita ou de
esquerda, situacionista ou oposicionista, nenhum deles tem unidade. Todos estão
bastante divididos. Os partidos estão muito fracos. Então não existe a
possibilidade de formação de uma força política coesa, uniforme, que tomasse
uma posição desse tipo, a de destituir a presidente. Eu não vejo nenhuma possibilidade
de isso ocorrer no Brasil. Realmente, estou tranquilo.
Muitos
estão preocupados com a manifestação anti-Dilma convocada para o próximo dia 16
de agosto. O sr. acredita que esse tipo de manifestação possa crescer e
frutificar?
Eu
acredito que não. O que aconteceu em 2013 acabou nos revelando o verdadeiro
alcance dessas mobilizações. Elas são momentâneas, e todas, sem exceção,
recebem infiltrações, não têm uma unidade, e por isso elas não têm grande
força. Sempre existem o falso protestador e o falso manifestante. Aqueles que
apenas querem tirar algum proveito ou aquele que só quer participar do
espetáculo. Em 2013, ficou no subterrâneo, ninguém revelou quem financiava os
grandes grupos manifestantes. Grupos que se mobilizavam, viajavam de outras cidades
para São Paulo, e não vinham a pé, e todos bem vestidos e bem alimentados. É
porque eram pagos, em grande parte. Então, elas não têm autenticidade, elas são
só uma aparência, um espetáculo. E o que se está anunciando agora é só a
repetição do espetáculo. Não passará disso. Por isso, eu estou absolutamente
tranquilo quanto à manutenção da ordem brasileira.
Alguma
ideia sobre quem seriam os financiadores?
Evidentemente
só pode financiar quem tem dinheiro. São empresários, setores econômicos
envolvidos nisso. São setores que têm interesse nesse clima de temor para obter
maior proveito. Então, redução da tributação. Isso já tem sido referido muito
ostensivamente, descaradamente: eles serão a favor do governo se os impostos
diminuírem. Então, qual a verdadeira intenção, o verdadeiro interesse? O
interesse não é do povo, é dos empresários.
Voltando
um pouco. O sr. falava, no início, que vivemos um momento de sistemático
desrespeito à Constituição. Como saímos desse estado de esgarçamento e voltamos
– se é que já estivemos um dia – a um momento de respeito, implementação e desenvolvimento da
Constituição?
Não
há dúvida alguma que a Constituição de 88 foi responsável pela correção de
muitas injustiças sociais no Brasil. No caso do Nordeste, por exemplo, a prática
do coronelismo perdeu muita força. Ainda existem casos, como o do Collor e do
Renan Calheiros, mas com muito menos força que antes. Eu viajo o Brasil inteiro
e sei que houve muitas melhorias, e isso em grande parte graças à Constituição
de 88. Há um longo caminho ainda a ser percorrido. O que é necessário é
reacender, é redespertar a consciência do povo. Eu falo isso porque fui uma espécie de caixeiro viajante da
Constituinte, percorri o País apresentando propostas, debatendo, e recebendo
contribuições. Grupos pequenos, de lugares distantes dos grandes centros,
elaboravam ideias e encaminhavam para a Constituinte. Houve sim uma grande
participação popular. O que temos é que reacordar a consciência do povo.
E
como podemos fazer isso?
É
falando, escrevendo, pregando. Insistindo nesse ponto: deixar as intrigas, as
diferenças, parar de falar que estamos correndo risco de golpe – isso só
alimenta o temor, a espetacularização. O que temos é, por meio de todos os
instrumentos possíveis, na imprensa, na escola, nas reuniões, onde for
possível, dar o grito de alerta: “Acorda povo”. É dizer que esses corruptos,
esses que estão nas manchetes fazendo papel de moralistas, e que todos sabem
que são corruptos, todos eles foram eleitos pelo povo. E o povo elege e reelege.
Há casos mais do que conhecidos. Apenas para ficar num exemplo, eu citaria
Paulo Maluf em São Paulo. Paulo Maluf é notoriamente corrupto, confessadamente
corrupto, e é um homem que levanta um milhão de votos com facilidade. Então,
onde estão esses eleitores? Por isso eu tenho usado a expressão eleitor ficha
limpa. Então, o grande tema que deveria estar sendo debatido pela imprensa,
pelos movimentos sociais, é a conscientização do povo.
No
seio dos movimentos sociais, existe uma preocupação que se houver
desmobilização, pode vir o golpe. Mas o sr. diz que falar em golpe é alimentar
o temor. O sr. sugere que se tire esse tema da pauta?
Exatamente.
Retirar o tema da pauta. Assim, por exemplo, nunca mencionar a palavra
impeachment. Porque isso é uma farsa. Não existe nenhuma possibilidade legal,
jurídica e constitucional de impeachment da Dilma. De vez em quando volta,
alguém fala nisso, o Aécio Neves fala, e o tema volta. E isso é uma farsa. Não
há a mínima possibilidade. Então, não se mencione mais isso. Porque isso serve
para alimentar o temor dos mal informados. Então, eu penso isso, a pauta tem de
ser repensada. Não se deve dar espaço para essa onda de temor. Hoje mesmo
pensei nisso, ao ver uma manchete de jornal mencionando o Lula. O jornalista, o
editorialista desse veículo deve ser muito ignorante. Porque esqueceu um velho
brocado que diz “fale bem mas fale de mim”. Então, sempre que falarem do Lula,
ele estará na linha de frente. Do ponto de vista estratégico deles, é uma
burrice monumental.
Ao
final do ano passado, acreditava-se na possibilidade de uma reforma do sistema
político por intermédio de uma assembleia constituinte. O sr. ainda acha isso
possível, apesar dos recentes acontecimentos?
Primeiro,
eu acho que precisamos sim de uma reforma do sistema político. Precisamos
repensar o financiamento dos partidos, rediscutir o sistema representativo. Mas
não há nenhuma necessidade, assim como não há possibilidade, de convocar uma
constituinte para isso. Tudo deve ser feito a partir da Constituição, pois ela
mesma dá os caminhos, apontando possibilidade de mudança na legislação. A
Constituição prevê a elaboração de emendas pela população, o povo como
legislador. Isso já existe, mas só acontece com mobilização popular. Isso é até
um caminho para a ação política.
Fonte:
http://cut.org.br/noticias/dalmo-dallari-nao-vai-haver-golpe-nem-impeachment-6e15/

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