Era
uma serena terça feira de outono, 2 de junho da semana passada, em Campo Bom
(RS), uma manhã de quarentena calma, como tinham sido tantos outros dias de
pandemia. Minha família cumpria protocolos conforme a “cor da bandeira” que
instituímos para nós. Era “amarela”, porque no nosso clã não havia indício de
que o coronavírus estivesse nas cercanias do lar, nem de nossa protegida casa.
Nela, o casal, nossos dois filhos e a serviçal.
Meu
marido, fisioterapeuta; eu, advogada com um dos endereços profissionais, de
“Anália Goreti da Silva - Sociedade Individual de Advocacia”, ocupando parte da
casa, pois sou transplantada, então formalizei o endereço para que os clientes
aqui atendidos estivessem num escritório oficial ou seja, em ambiente protegido
como endereço profissional de advocacia.
Ledo
engano: a casa não estava protegida; o escritório não estava inviolável e nosso
lar só esteve seguro até as 11 horas, daquele 2 de junho. De repente, toda a
estrutura foi abalroada por um grupo de dez pessoas que surgiram gritando:
“Polícia, Polícia”.
Fortemente
armados com um aparato instrumental. Víamos armas com altura em torno de um
metro. Hoje amigos - vendo as imagens - nos dizem tratar-se de fuzís,
metralhadoras e afins. Alguns portavam também revólveres, sabe-se lá de que
calibres.
Quebraram
aos chutes portas de dormitórios e banheiros ocupados, expondo nossa
intimidade. Usaram algemas, colocando um de nós em decúbito ventral no pátio da
casa, sob a ameaça daquilo que pensamos ser uma metralhadora. Pensamos tratar-se
de um assalto, pois os uniformes de policiais civis não certificavam a
idoneidade.
Pedimos
a exibição de mandado Judicial e a identificação funcional - mas nada nos foi
exibido! Apenas diziam: “Somos polícia!”
Bloquearam
a comunicação, ao reterem celulares e documentos, confiscando conversas. E aos
brados, duvidaram que tivéssemos s senha única, o que foi um agravante para as
ofensas e praticaram vários abusos e brutalidade que nunca tínhamos vivenciado,
muito menos no nosso santuário sagrado - a moradia.
Temos
pele preta e somos muito respeitados e amados no meio em que vivemos, mas não
podemos olvidar da sensação que tivemos de que este dado da cor aprimorou o
convencimento deles - afinal pessoas pretas sofrem com o estigma de vínculo ao
crime, conceito alimentado por algumas pessoas preconceituosas. Infelizmente.
Nem
todos os policiais usavam máscaras, o que destruiu todo cuidado e assepsia
devidos à pandemia, e pelo meu recente transplante.
Informei
ser advogada, com escritório anexo ao endereço residencial. Invoquei a
prerrogativa da necessidade presencial de um membro da OAB para acompanhar a
ação. O retruque foi imediato: “Fique quieta, sentada e não complique”.
Reviraram
a casa, abriram gavetas, revistaram móveis e veículos, invadiram sótão e porão,
imitando animais famintos à procura de uma presa. A tortura durou cerca de duas
horas e durante quase todo o tempo esperávamos que anunciassem um assalto, pois
vorazmente procuravam drogas que não existiam.
Fim
da tortura, pedi novamente a exibição do mandado judicial. Lido, constava
claramente que, se não aberta a porta, que então a arrombassem. (Proc. nº
022/2.20.0004307-3 - 2ª. Vara Criminal da Comarca de Pelotas). Em flagrante
afronta ao artigo 245/CPP, isso foi descumprido. Um dos invasores se
identificou como Rafael Lopes, da Polícia de Pelotas (RS).
Disse
que o motivo do ataque foi a geo-localização do telefone de um preso que
indicava a casa como ponto de referência para ponto de drogas, mas que diante
do engano, “poderíamos processar o Estado”...
Sentimos
ser engano da sociedade pensar que residências estão protegidas: a Polícia
Civil de Pelotas (RS) provou que viola qualquer intimidade e que a Constituição
pode ser rasgada pela força de um fuzil.
Hoje
juntando os caquinhos, suportamos olhares curiosos de desconhecidos, nesta casa
que perdeu o anonimato, assolados pelo medo de qualquer ruído que soe nos
arredores.
O
delegado Rafael Lopes e equipe - agindo a 308 km de distância de sua base, em
Pelotas - trouxeram a violência do mundo para um santuário sagrado, nossa casa
e destruíram a proteção domiciliar. Mas não ceifaram o lar, o ninho, nossa
família, que está unida como sempre.

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