Tradução
Pedro Silva
Angela
Davis se tornou mundialmente famosa aos 20 anos, quando o FBI a colocou na
lista das pessoas mais procurados. Desde que garantiu sua liberdade, ela
trabalhou durante meio século para revelar como funciona a repressão em Estados
"democráticos" como os EUA.
Aos
vinte e seis anos, Angela Davis se tornou uma das prisioneiras políticas mais
famosas do mundo e um ícone revolucionário, sendo a sua imagem tão reconhecível
quanto a de Mao Zedong ou Che Guevara. As circunstâncias que levaram à sua
prisão foram complexas e parcialmente forjadas.
Em
agosto de 1970, várias armas registradas em nome de Davis foram utilizadas em
uma tentativa de libertar três homens negros encarcerados em um tribunal no
Condado de Marin, Califórnia. Depois que os guardas da prisão de San Quentin
abriram fogo, quatro pessoas foram mortas, incluindo um juiz distrital. Davis
não tinha conhecimento prévio dos eventos, mas ela foi implicada por conta das
armas.
Mais
significativamente, ela era um membro conhecido do Partido Comunista dos EUA
(CPUSA) e uma ativista negra em ascensão: o Estado a queria morta ou presa. Foi
emitido um mandado de prisão sob acusações de conspiração, sequestro e
assassinato, que acarretavam pena de morte, e Davis foi colocada na lista dos
mais procurados do FBI.
Davis
afirma que a campanha de pressão internacional travada pelo CPUSA e pelo
National United Committee to Free Angela Davis (NUCFAD) salvou sua vida. Entre
1970 e 1972, ela passou dezessete meses na prisão antes de ser libertada sob
fiança e finalmente absolvida de todas as acusações. Durante esse período,
cartas de solidariedade de lugares como Cuba, França, Alemanha Oriental e União
Soviética inundaram a prisão e o tribunal de San Jose, onde ela seria julgada.
Para seu público global, não era Davis julgada ali, mas o próprio sistema de
justiça criminal dos Estados Unidos: uma mulher negra comunista que era tão
obviamente inocente poderia ser absolvida?
O
que torna o exemplo de Davis notável é que ela nunca parou de pagar a dívida
que sente que tem com a esquerda internacional para garantir sua liberdade — e
sua vida. Do movimento de boicote contra o apartheid sul-africano ao Occupy e à
rebelião de George Floyd, ela apareceu em quase todas as mobilizações em massa
no último meio século. Em meio à crescente repressão e censura, ela tem sido
firme em seu apoio à luta de libertação palestina. Mais significativamente, ela
forneceu à esquerda uma das críticas mais incisivas ao profundo envolvimento do
Estado de segurança dos EUA na exploração e opressão, identificando o nexo de
obstáculos à organização revolucionária no presente.
A Joanesburgo do Sul
Davis
nasceu em 1944 sob um sistema de apartheid racial em Birmingham, Alabama. Seu
pai administrava um posto de gasolina; sua mãe era ativa no Southern Negro
Youth Congress [Congresso Sulista da Juventude Negra], uma organização de
direitos civis de esquerda com uma forte filiação comunista.
Em
Birmingham, conhecida como a “Joanesburgo do Sul”, a ameaça de violência branca
era constante. A família Davis vivia em um bairro que era chamado de “Dynamite
Hill” por causa dos frequentes atentados a bomba sofridos por proprietários
negros. Eles perderam vizinhos e amigos para ataques racistas, incluindo o
atentado a bomba da Ku Klux Klan em 1963 na 16th Street Baptist Church, que
moldou a consciência política de Davis de forma contundente.
“Em Birmingham, Alabama,
conhecida como a ‘Joanesburgo do Sul’, a ameaça de violência branca era
constante.”
Davis
frequentou escolas segregadas até os quatorze anos, quando foi aceita por um
programa Quaker que colocava alunos negros do Sul em escolas integradas no
Norte. Ela escolheu a Elisabeth Irwin High School de Nova York por sua
reputação progressista.
Na
Elisabeth Irwin, Davis leu o Manifesto Comunista, que a atingiu “como um raio”,
como lembrou mais tarde. Ela começou a conceber a libertação negra como parte
de uma luta mais ampla dos trabalhadores. Ela se juntou à Advance, uma
organização socialista juvenil fundada por vários de seus colegas “red diaper”,
filhos de membros do CPUSA. Eles incluíam Eugene Dennis Jr, filho do líder
comunista de mesmo nome; Bettina Aptheker, filha do historiador comunista
Herbert Aptheker; e Mary Lou Patterson, cujo pai, o advogado comunista William
L. Patterson, havia entregue a famosa petição “We Charge Genocide” [Acusamos
Genocídio] às Nações Unidas em protesto contra os linchamentos de negros no
sul dos Estados Unidos.
O
grupo de jovens organizou manifestações contra os testes nucleares e fez
piquetes na Woolworth’s por causa de seus balcões de almoço segregados. Eles se
reuniram no porão dos Apthekers entre os papéis de WEB Du Bois, que Herbert
Aptheker estava guardando na época.
Muito
mais tarde, Davis retornaria à noção de “democracia abolicionista” de Du Bois
para conceituar o que a transformação social radical implicaria na ausência da
derrubada do Estado. Mas aos dezessete anos, a revolução ainda parecia
distintamente no horizonte para ela.
A frente estrangeira
Em
1961, Davis matriculou-se na Brandeis University. Ela era uma das três alunas
negras em sua turma de calouros. Sua atenção logo foi atraída para o principal
intelectual de esquerda do campus, Herbert Marcuse.
Marcuse
pertencia a um grupo de intelectuais marxistas judeus alemães conhecido como
Escola de Frankfurt. Forçados ao exílio nos EUA na década de 1930, eles
começaram a reinterpretar categorias marxistas clássicas como classe e
exploração para dar conta de sua experiência histórica de antissemitismo
eliminacionista. Na década de 1950, eles acumularam um extenso catálogo de
impedimentos materiais e psíquicos à revolta coletiva. Em sua leitura, a
violência racializada funcionava como uma manifestação externa das tendências
de crise do capitalismo e um componente-chave no arsenal do estado para
interromper as lutas de libertação dos trabalhadores.
“A
interpretação do marxismo da Escola de Frankfurt foi uma escolha natural para
Davis, já atenta aos interesses compartilhados, embora muitas vezes frustrados,
do comunismo e da libertação negra.”
A
interpretação do marxismo da Escola de Frankfurt era um ajuste natural para
Davis, já alerta aos interesses compartilhados, embora frequentemente
frustrados, do comunismo e da libertação negra. Por sua vez, sua ânsia
intelectual e notável propensão para lidar com as contradições da filosofia
idealista alemã — a estrutura analítica preferida da Escola de Frankfurt —
impressionaram Marcuse, que se tornou um mentor ao longo da vida.
Por
meio da conexão com Marcuse, Davis mudou-se para Frankfurt em 1965 para fazer
pós-graduação em filosofia com Theodor Adorno. Rapidamente se integrou ao
núcleo duro da filial de Frankfurt da União Socialista de Estudantes Alemães
(SDS). Ela se mudou para um prédio de fábrica dilapidado com vários membros da
SDS, incluindo o líder estudantil Hans-Jürgen Krahl.
De
dia, eles frequentavam aulas na universidade com Adorno, Max Horkheimer e
Jürgen Habermas. De noite, transcreviam e mimeografavam obras fora de catálogo
de teoria crítica, criando edições piratas que vendiam em eventos do SDS para
financiar suas atividades políticas.
Entre
1965 e 1967, as atividades políticas do SDS alemão centraram-se em lutas de
libertação anticoloniais, mais agudamente no Vietnã. Os estudantes estavam
convencidos de que a descolonização romperia o continuum capitalista global, e
estavam determinados a obstruir as maquinações neocoloniais dos Estados Unidos,
para as quais a Alemanha Ocidental serviu como um crucial posto militar
avançado. Eles exigiram a dissolução da OTAN, construíram formas
organizacionais extraparlamentares, contestaram a desinformação da mídia e
lutaram contra a polícia.
A
militância deles impressionou Davis, que mais tarde se lembraria da seriedade
com que seus camaradas do SDS buscaram desenvolver “formas de resistência
prática” capazes de romper a apatia de sua própria sociedade e transpor
divisões globais. A experiência ressaltou as possibilidades de construção de
coalizões interclasses, multirraciais e internacionais, que Davis defenderia
pelo resto de sua vida.
Teoria crítica e prática
revolucionária
Em
1967, Davis decidiu voltar para casa para se juntar à luta de libertação negra.
Marcuse havia se mudado para a recém-criada University of California, San Diego
(UCSD), então ela se matriculou no programa de pós-graduação em filosofia e
começou a explorar o rico cenário de organizações políticas radicais no sul da
Califórnia.
Nos
dois anos seguintes, Davis organizou com o Student Nonviolent Coordinating
Committee (SNCC), o Black Panther Party for Self-Defense (BPP) e o Che-Lumumba
Club, uma seção totalmente negra do CPUSA onde conheceu alguns de seus
camaradas mais próximos, incluindo o casal Franklin e Kendra Alexander e os
irmãos Charlene e Deacon Mitchell. Todo o trabalho político de Davis se
concentrou na violência policial racista e na conscientização pública. No
entanto, as organizações nas quais ela era ativa tinham visões diferentes sobre
o caminho estratégico e o conteúdo da libertação negra, e às vezes elas se
desentendiam.
“Todo o trabalho
político de Davis se concentrou na violência policial racista e na
conscientização pública.”
Em
1969, Davis foi contratada como professora assistente de filosofia pela
Universidade da Califórnia, Los Angeles (UCLA), tendo oficialmente avançado
para candidatura na UCSD com um tópico de dissertação sobre o problema da
força, ou violência, na filosofia de Immanuel Kant. Seu trabalho preliminar
indicou que a noção ampla de liberdade moral de Kant sancionou logicamente um
direito individual de resistência e até mesmo revolução, que de outra forma era
negado em sua filosofia política protoburguesa. Fiel à sua formação marxista,
Davis argumentou que essa contradição teórica, que encontrou seu corolário
contemporâneo em debates em torno da legalidade do ativismo, só poderia ser
resolvida na prática, por meio da transformação total do Estado constitucional
burguês.
Antes
que o semestre de outono na UCLA pudesse começar, no entanto, um informante do
FBI revelou publicamente que Davis era membra do Partido Comunista, e ela foi
demitida pelo Conselho de Regentes da Universidade da Califórnia. Da noite para
o dia, se tornou um para-raios para ataques anticomunistas, racistas,
misóginos, anti-intelectuais e ameaças de morte.
Davis
contestou com sucesso sua demissão no tribunal, citando seus direitos da
Primeira Emenda à liberdade de expressão e reunião e seu direito como
professora à liberdade acadêmica. Mas ela encontrou um inimigo determinado no
governador de direita da Califórnia, Ronald Reagan, que tramou para que ela
fosse demitida novamente no final do ano acadêmico.
Enquanto
isso, Davis usou sua nova publicidade para destacar o trabalho do Soledad
Brothers Defense Committee, ao qual ela se juntou em fevereiro de 1970. George
Jackson, Fleeta Drumgo e John Clutchette eram três homens negros encarcerados
na Prisão de Soledad que foram acusados do assassinato de um guarda prisional
branco. O comitê de defesa sustentou que eles estavam sendo alvos por sua
agitação política na prisão e buscaram angariar apoio público para o caso.
Foi
por meio de seu trabalho no comitê de defesa que Davis fez amizade com o irmão
mais novo de George Jackson, Jonathan, que acabaria liderando a tentativa
fracassada de libertar três outros homens negros — James McClain, William
Christmas e Ruchell Magee — no tribunal do Condado de Marin em agosto de 1970.
Os Soledad Brothers foram finalmente absolvidos em março de 1972, embora George
Jackson já estivesse morto naquela época, tendo sido assassinado por um guarda
da prisão durante outra tentativa de fuga em agosto de 1971.
Uma luta constante
Em
novembro de 1970, Marcuse escreveu a Davis, então encarcerada em Nova York,
contando que ele havia feito uma importante descoberta filosófica ao reler seus
escritos acadêmicos: “A liberdade não é apenas o objetivo da libertação, ela
começa com a libertação; ela está lá para ser ‘praticada’. Isso, eu confesso,
aprendi com você!” Davis ainda segue essa crença, como é evidente em seu mantra
mais conhecido, “A liberdade é uma luta constante”.
Liberdade,
ela insiste, não é uma propriedade fixa. Ela não pode ser concedida a uma
pessoa, muito menos por um Estado. Da mesma forma, ela não pode ser reduzida à
demonstração negativa de que somos livres porque há outros que não são livres —
os outros que o Estado trancou. Para ser digna do conceito, a liberdade deve
ter seu próprio conteúdo material positivo, que, por ainda não existir, deve
primeiro ser promulgado.
A
própria experiência de Davis atrás das grades foi formativa para sua
compreensão crítica não apenas da negação material da liberdade que a prisão
constitui, mas também da prática dinâmica da liberdade. Por sua vez, o projeto
abolicionista que ela começou a imaginar da prisão de San Jose transformou a
compreensão da esquerda sobre o cenário político contemporâneo.
“O projeto abolicionista
que Davis começou a imaginar na prisão de San Jose transformou a compreensão da
esquerda sobre o cenário político contemporâneo.”
Enquanto
estava presa em 1971, Davis escreveu com sua camarada e amiga comunista Bettina
Aptheker que o recurso do Estado à repressão violenta indicava que suas
instituições, incluindo a prisão, eram “impermeáveis a reformas
significativas” e “devem ser transformadas no sentido revolucionário”. Uma
página depois, elas exigiam “a abolição” do sistema prisional como tal.
O
chamado abolicionista de Davis e Aptheker partiu do foco ortodoxo na
organização do chão de fábrica industrial intencionalmente. Nos Estados Unidos,
o emprego de colarinho azul estava em declínio desde a década de 1950, e
aqueles trabalhadores que historicamente foram os últimos a entrar na relação
salarial industrial — negros e outras minorias — foram os primeiros a serem
excluídos dela, reduzidos ao status de uma subclasse definida pelas portas
giratórias da precariedade salarial e o que Davis então chamou de “aparelho
policial-judicial-penal”.
Ao
reorientar seu foco na polícia e nos obstáculos carcerários à luta de classes,
Davis buscou aproveitar o que ela acreditava ser o maior impulso oposicionista
daqueles proletários que eram mais vulneráveis à redundância econômica e à
violência do Estado. Ela também pretendia combater diretamente a capacidade do
Estado de continuar coagindo-os à submissão muito depois que a ordem
capitalista racial havia cessado de fornecer os salários necessários para a
auto-reprodução da classe trabalhadora. A abolição foi uma estratégia revolucionária,
em outras palavras, sintonizada com as contradições do capitalismo tardio.
Mas
a abolição, como ficaria claro, também era uma estratégia revolucionária
condizente com uma era de retração da esquerda. A esperança da New Left [Nova
Esquerda] por uma ruptura revolucionária não deu certo, principalmente por
causa da enorme capacidade de repressão do Estado. Podemos debater as
deficiências e os pontos cegos da estratégia da Nova Esquerda, mas seu
“fracasso” teve mais a ver com programas governamentais como o COINTELPRO do
que com hippies e horizontalismo.
Após
sua derrota, os objetivos de fechar prisões, reescrever leis de sentença,
bloquear a construção de novas cadeias e prisões e institucionalizar
alternativas restaurativas ao encarceramento tornaram-se formas difusas e
fragmentadas de estender a visão de transformação social radical, ao mesmo
tempo em que corroem a capacidade contrarrevolucionária do Estado. O
significado estratégico desse trabalho só se tornou mais claro à medida que os
ativistas do Stop Cop City enfrentam acusações do RICO, enquanto os ativistas
pró-Palestina são submetidos à violência policial e de vigilantes, à censura e
à perda de emprego.
Agora
que ela tem oitenta anos, o apoio contínuo de Davis aos protestos em massa está
começando a se assemelhar ao de seu antigo mentor. Na década de 1960, Marcuse
adquiriu o título honorífico de “avô da Nova Esquerda”, e jovens ativistas até
mesmo alteraram seu slogan para: “Não confie em ninguém com mais de 30 anos —
exceto Herbert Marcuse.”
Embora
estivesse lisonjeado, Marcuse insistiu que não era a causa das revoltas. Em vez
disso, o que ele tentou fazer foi identificar as fissuras materiais e psíquicas
dentro da sociedade que estavam maduras para a ruptura, e então consolidar
teoricamente os grupos incipientes que emergiram dessas fissuras em uma
coalizão revolucionária. Davis fez algo semelhante, e ainda podemos aprender
com seu exemplo.
Cecilia Sebastian
é professora visitante e pesquisadora na Universidade de Konstanz, em Baden-Württemberg, Alemanha.
https://jacobin.com.br/2024/11/angela-davis-deu-sua-vida-para-expor-a-repressao-do-estado/
é professora visitante e pesquisadora na Universidade de Konstanz, em Baden-Württemberg, Alemanha.





