“É
muito fundo o poço do passado. Não deveríamos antes dizer que é sem fundo esse
poço? Sim, sem fundo se o passado a que nos referimos é meramente o passado da
espécie humana, essa essência enigmática da qual nossas existências normalmente
insatisfeitas e muito anormalmente míseras formam uma parte; o mistério dessa
essência enigmática inclui por certo o nosso próprio mistério e é o alfa e o
ômega de todas as nossas questões, emprestando um imediatismo candente a tudo o
que dizemos e um significado a todo o nosso esforço. Pois quanto mais fundo
sondamos o mundo inferior do passado, tanto mais comprovamos que as bases mais
remotas da humanidade, sua história e cultura revelam-se inescrutáveis” (Thomas
Mann, “José e seus irmãos”).
Os
relatos bíblicos são histórias e mitos; cada autor que versa sobre eles
empresta-lhes a cor e o calor literário que lhe é próprio. De todas as
maneiras, trabalhar com mitos é inerente à aceitabilidade de seu retorno, da
sua atemporalidade e de sua onipresença, o que sem dúvida veremos serem
reproduzidos nos conceitos de direita e esquerda, que possuem origem bíblica e
se expandem nos tempos modernos a partir da revolução francesa de 1789, e no
pós-modernismo.
Dentro
dessa perspectiva, debruçamo-nos em alguns autores, principalmente naqueles que
realizaram sua busca no poço profundo da história e desde lá realizaram, com
urdidura própria, a tessitura de duas das principais antípodas que marcam a
História da humanidade:
Direita,
representada pela estirpe dos Eleitos, daqueles que detêm o poder político e
econômico real, e
Esquerda,
outra estirpe, aquela que traz em si a marca de Caim, da exclusão, da revolta e
do poder dionisíaco da cor vermelha, a cor da alegria e de revolta.
Herman Hesse é um dos autores que refletem sobre a
oposição mítico-histórica entre as duas espécimes antagônicas. Em “Demian”, ele
narra a história de um jovem, Sinclair, criado por pais religiosos e ortodoxos
que, de repente, se vê num mundo muito diferente daquele pregado pelos mesmos.
Atormentado pela falta de respostas às perguntas que se faz, procura-as na
introspecção.
Acontece
que a introspecção pode ser uma senda perigosa para o conservadorismo e ela o
conduz até um colega de classe precoce e envolvente, Demian, que para Sinclair
encarnará a árvore do saber, do bem e do mal. Com ele o personagem provará do
crime, da amizade e das incertezas. Irá também se rebelar contra as convenções
sociais e, na revolta, Sinclair descobrirá não apenas o doce sabor da
independência, mas também o poder que cada um de nós possui de praticar ou bem
ou o mal.
Demian,
então, recruta Sinclair para sua própria estirpe, a amaldiçoada pela Divindade:
a de Caim, composta por pessoas que possuem a capacidade de exercer e
diferenciar o bem do mal.
Do
outro lado permanecerão os piedosos, tanto os pais do jovem Demian, quanto os
de Sinclair. Eles incorporam o protótipo do outro extremo bíblico, simbolizando
Abel, o Eleito, o sedentário, o abatedor de ovelhas, o cumpridor dos deveres
exigidos pelo Altíssimo.
Demian
e Sinclair, Caim e o Vermelho são errantes e pela vida seguirão descuidados e
desobrigados de obrigações religiosas, mas obrigados e centrados na
fraternidade que os une.
Voltando
ao “Livro dos Livros”, a Bíblia, não nos esqueçamos de que foi Deus quem
desencadeou no irmão desgraçado o aguilhão da inveja. Ao assassinar Abel, Caim
foi amaldiçoado pela divindade e condenado à peregrinação sem quartel, sem
Pátria e sem lar. Ao inocular-lhe na testa um sinal, Deus o marcou e aos seus
descendentes como a estirpe bastarda, que, sempre que puder, tratará de
“prejudicar a raça eleita” por Ele, o Deus de Moisés, como a única legítima.
Mas
a estirpe de Caim sempre aumentará. Nela se engajará Ismael, o filho renegado
de Abraão, fruto que fora do sexo praticado com a escrava egípcia Agar. O
Eleito será Isaac, o filho da esposa preferida, de boa raça, aquele que Javé
substituirá por um cordeiro na hora da imolação.
Isaac,
o Eleito, por sua vez, terá dois filhos com Rebeca. Esaú, o primeiro a nascer e
que deveria herdar a primogenia e a bênção, e Jacob, o segundo. Mas Jacob com o
engodo preparado por ele e pela própria mãe, irá se sobrepujar ao irmão, o
peludo, o Vermelho Esaú e será abençoado em seu lugar, o que significa herdar a
herança paterna e a identidade do mesmo para com a Divindade.
Depois
do grande feito, Jacob, acossado por Esaú em fúria, fugirá com muito medo, pois
a Direita, mão a mão é covarde, para as terras de Labão. E na fuga Jacob, em
sonho, lutará com um anjo. Ele, intitulando-se vencedor se tornara cocho e
passará a ser chamado de Israel, que em hebraico significa “o guerreiro do
Senhor”. Receberá, então, de Javé a responsabilidade de fundar a partir de seus
filhos, a raça dos israelitas.
Labão,
o “demônio vermelho”, o tio de Jacob, é quem permitirá que ele se esconda pelo
tempo necessário para a fúria do seu irmão Esaú abrandar, permitindo que o
Eleito, Jacob, crie fortuna própria através do engano e do roubo ao próprio
sogro.
Sob
o teto do tio Labão ele trabalhará por duas vezes sete anos e dele receberá
duas esposas: primeiro Lia, a loira de olhos remelentos, depois, sua irmã,
destinada a ser a esposa de eleição de Jacob: Raquel, a favorita.
Lia
será a mãe de seis dos filhos de Jacob, os israelitas de olhos também
inflamados que, no futuro, deverão se curvar ante o Eleito, José, filho de
Raquel.
De
todo modo, a estirpe de Caim será para todo o sempre uma autêntica sombra da
Estirpe Eleita, às vezes existindo tão somente para configurar legalidade
àquela, como um negativo que contenha a inversão dos traços especiais dos
Eleitos, tornando possível sua própria existência.
Essa
origem mítico-bíblica do dualismo da direita e da esquerda é narrada com
precisão por Thomas Mann em “José e
seus Irmãos”. Um dualismo que atravessa toda a obra, sendo mesmo o seu
“leitmotiv”, refletindo a dualidade em que o próprio Mann se encontrava num
momento de transição ideológica.
O
mito bíblico fala de uma dualidade direcional, de dois caminhos e
comportamentos a assumir perante a vida, por onde descendem parentescos e
filiação de almas. No fundo são duas árvores que se entrecruzam e que para o
observador desatento podem se confundir com apenas um único nascedouro. Mesmo
assim, vistas através do “poço insondável que é o passado da humanidade”, a
eternidade humana nos conduz à própria criação das árvores do bem e do mal, em
que o ser, o nada, a verdade, a mentira, a justiça, a injustiça, formam um só
tronco, uma só raiz.
Mas
quando vistas de perto, olhadas através de lentes humanas, elas se bifurcam na
justa medida do que é duplo: árvore e caminho da direita; árvore e caminho da
esquerda! Isso não exclui que se entrelacem, que se permutem, e que ocorra a
dialética: aquilo que ontem tenha sido esquerda, hoje se transforme em direita
(possuidora do poder) e vice-versa.
Em
Mann pululam existências que remontam à estirpe sombria e reprovada pela ordem
reinante, aquela que carrega a marca da esquerda imposta pela Divindade. Seus
personagens saltam aos olhos, pois a cor que deles emana é vibrante, alegre,
vermelha, que também é a expressão do contestador, o símbolo dionisíaco.
Pelo
menos é esse o modo como a Ordem, a Direita, os Eleitos enxergam a
questionadora e sempre espoliada, a Esquerda.
Quando
em disputa, é a Direita quem vence e acaba por apossar-se do poder, da bênção e
das heranças, empregando a astúcia e o engano, quando não a violência.
Jacob
que em sonhos luta com um anjo (ou seria um demônio?) e como fruto da luta
onírica se afigurará coxo e dará a si mesmo o título de Israel, o guerreiro de
Deus. Raquel, a beleza frágil, mas que gera José, o décimo primeiro varão do
patriarca. Varão que será o Eleito pelo pai como seu primogênito. Ora, o ódio
dos irmãos preteridos desembocará em ódio contra José, que será vendido aos
medianitas do deserto, aqueles da estirpe dos vermelhos.
Judá,
o quarto filho de Jacob, uma vez José dado como morto ganhará os direitos de
primogenitude e de integrar-se à Estirpe dos Eleitos graças às artimanhas de
moça Tamar. Ela inicialmente se insinua junto ao velho Jacob até que o
patriarca lhe conceda o casamento com os dois filhos de Judá. O primeiro não
resiste ao acasalamento e morre; o outro, Onan, é punido por Deus por negar-se
a depositar seu sêmen no interior do sexo da mulher. Tamar, então, age como
prostituta, e por meio desse engodo, logra desposar Judá e garantir-lhe o
status de Eleito por Jacob e, por decorrência, junto ao Deus de seus
ancestrais.
Assim
agem os da estirpe dos Eleitos. E assim atuam, por trazerem em si a
inteligência das coisas Divinas que advêm de sua condição de eleição, não
ocultando sua forte inclinação pela sabedoria mundana. Desta forma, os Eleitos
não se privam de nada, nem mesmo de relacionarem-se com os Vermelhos, desde que
isso lhes traga benefícios.
Simone de Beauvoir dizia que a Direita “agia”, enquanto a
Esquerda era a portadora da “inteligência”. A origem mítico-bíblica de ambas
prova exatamente o contrário. Os Vermelhos trabalham, são espoliados,
enganados. A Direita é inteligente, ambiciona e consegue o poder e vive a
“meditar” em como conservá-lo, custe o que custar.
Para
Mann, a Direita, os Eleitos como Isaac, Jacob e José, é sempre mais inteligente
que os Vermelhos, os descendentes de Caim. Entretanto, ao mesmo tempo, ela é
mais canalha, sua espiritualidade tem a sagacidade daquele que traz em si a
maldade, a maldade de quem não se importa com os demais, pois já se sabe
absolvido pelo seu Deus!
Para
concluir nosso ensaio, visitemos José
Saramago que em seu “Caim”. Ele descreve o momento de espanto em que o
Vermelho, o amaldiçoado, mal podia crer no que seus olhos insistiam em lhe
revelar. Trata-se do povo de Israel quando de sua fuga da escravidão do Egito,
sob o comando de Moisés:
“Não
bastavam Sodoma e Gomorra arrasadas pelo fogo, pois justamente ali, no sopé do
monte Sinai, ficara patente a maldade do Senhor”. Sob o comando de Josué (a mão
armada de Moisés) os homens da tribo de Levi, os Eleitos, haviam matado homens
mulheres e crianças a ponta de espada, “três mil mortos só porque o Senhor
havia ficado irritado com a invenção de um suposto rival na figura de um
bezerro”.
Pela
boca de um Caim redivivo, Saramago conclui a respeito do Deus de Abraão e de
Moisés: “Não há dúvida de que esse Senhor um dia irá chamar-se o Deus dos
Exércitos dos Eleitos, aliás, não lhe vejo outra utilidade”.
O
passado é terrível e o presente é poderoso só por estar aí diante de todos.
“Maior, porém, mais santo, é o futuro, grande e consolador para o coração
oprimido”.
E
assim é, foi e será tanto no mito quanto na História!

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