Certa
vez, o Barão de Itararé publicou este pensamento genial:
“Houve
um tempo em que os animais falavam. Hoje, no Brasil, eles até escrevem”
Notem
o quanto o Barão era profético. Pois na presidência do Brasil, no começo do ano
um asno, ou no começo do asno um ano escreveu:
“Você
lembra como eram os livros p/ nossos filhos em governos anteriores? Carregados
de ideologias, ofendiam as famílias, atentavam contra a inocência das crianças.
Isso mudou. Estamos ensinando o correto, aquilo que os pais sempre desejaram
para seus filhos”
Então
é por estas linhas tortas que lembro o imortal Hans Christian Andersen, o
escritor máximo de todas as infâncias.
O
mundo civilizado comemorou no último 2 de abril o nascimento do escritor
Andersen. Ele é um caso raro do escritor
que ao escrever para crianças com mais gosto é lido por adultos.
Olhem,
por exemplo, o maravilhoso conto A pequena vendedora de fósforos. Aquela
trajetória da pequena menina que sai a vender fósforos em uma véspera de Ano
Bom, nas ruas geladas de uma cidade, que vislumbra pelo vidro da janela a ceia
posta na casa burguesa, e com profunda fome fica encantada e nos encanta, seria
uma coisa que nas mãos de um falso artista daria uma cena piegas. Mas não nas
de Andersen. A fome e o lar, doce lar, vemos, nas suas linhas. Ah os perus
rosados, pingues, da noite de Ano, ah as tortas fresquinhas, deliciosas, da
calma e pacífica e confortável vida burguesa dos lares que se fecham egoístas à
dor em volta, toda essa felicidade, esse calor da lareira que vemos pelos
olhinhos da menina, nos chegam como uma repulsa, como um cancro, como um fel,
dos lares que rejeitamos com todas nossas forças.
Então
Andersen vai mais longe e nos fere mais dentro do coração. Se o artista é o
criador de imagens que são o próprio domínio do divino, Andersen é um destes.
Ele faz então a menina virar uma estrela – que coisa sublime!, uma estrela no
céu escuro, em que se torna, ao cair morta de fome. Enregelada, a pequena
vendedora sobe “em um halo de luz e de alegria, mais alto, e mais alto, e mais
longe… longe da Terra, para um lugar, lá em cima, onde não há mais frio, nem
fome, nem sede, nem dor, nem medo”. Esse é um conto que por várias vezes tentei
ler em voz alta em aulas de português para adolescentes pobres, e por mais de
uma vez não consegui. A voz não me saía, embargava, quando chegava ao trecho da
menininha sem vida que vira estrela. Eu não conseguia vencer o conflito entre
chorar e lhes gritar: “Se não mudarmos este mundo, nada mais tem sentido. Vamos
ser assaltantes, vamos roubar e matar”. Mas, covarde, para não me mostrar o
fraco que sou, e para não ser incurso no Código Penal, apenas lhes dizia:
–
Mudemos de página.
E
me virava para o quadro. Mas a menina havia virado uma estrela, eu sabia, e por
isso o branco da lousa estava embaciado, ainda que não fosse de vidro como a
janela por onde olhava a pequena vendedora de fósforos.
Este
é o Andersen do qual não conseguimos falar sem paixão. O criador de imagens
extraordinárias, delicado até a sutileza, até o perfume da poesia rara. Uma
crônica bem escrita sobre ele iria do Soldadinho de Chumbo ao Patinho Feio. Da
Pequena Sereia à Roupa Nova do Imperador. Ele é o outro nome com que chamamos
um homem de revolta mais que moderna, porque eterna. Um criador de humanidade,
porque da humanidade. O filho mais ilustre da Dinamarca, porque um dos irmãos
mais ilustres de todos os povos. O homem a quem a sociedade hipócrita deixa na
segura estante dos autores infantis. Mas que, à maneira de sorrir, de falar da
fantasia, dos animais, dos seres inanimados, dos lugares distantes, nos fere
como os melhores autores adultos. Não tanto por ser um autor agressivo. Mas
porque nos fere e nos morde pela verdade que conta.
Se
usássemos do mesmo tom que se usa em discursos de homenagem, diríamos: Hans Christian Andersen, como se
fosse insuficiente a tua humanidade de amor pelos rejeitados, de dar voz e
afeto a qualquer objeto físico, tu nos deixas a luz da existência da dor no
mundo da fantasia. E de passagem, no teu halo de face triste, como se fosse um
brilho inocente, a lição de que a criança não é um homem bobo. Ela é um homem
em permanente descoberta, um ser que escuta o preconceito, antes de ela própria
ser atingida pelo preconceito, tu nos contas, em palavras de narração viva. Não
fosses o escritor que és, com muita felicidade serias um educador de meninos de
todas as idades, deveríamos dizer.
E
num acréscimo: enquanto houver pequenas vendedoras de fósforos que viram
estrelas no céu escuro; enquanto houver soldadinhos de chumbo que amam
dançarinas de papelão; enquanto houver figurinhas de porcelana que se apaixonam
e vivem até o dia em que se desfazem em cacos; enquanto houver bonequinhos que
ardem abraçados no fogo da lareira, tu és, Andersen, o patinho feio mais
bonito, até mesmo nestas horas do Brasil.

Nenhum comentário:
Postar um comentário