Joyce se auto define como “um socialista de alguma
espécie” e sua obra expressa o homem na tentativa de descrever o mundo, de
fugir da sensação de inutilidade a que o capitalismo e a modernidade o
sujeitam. Na realidade, antes de qualquer fundamento ideológico Joyce é um
revoltado, revolta que surge do medo e da perplexidade e que se expressa
através da causticidade de sua ironia ímpar.
Ele empreende o resgate da consciência de sua “raça
irlandesa” a partir de da condição de “exilado”. Exilado da Pátria que ama e
odeia simultaneamente, mas que traz permanentemente consigo em seu refúgio em
Trieste, na Itália.
“Um retrato do artista quando jovem” é uma obra
semiautobiográfica, o “retrato” onde o autor escolheu fixar as impressões da
infância, da adolescência e da juventude.
Stephen Dedalus, o narrador, “alter ego” de James Joyce,
carrega no coração todos os heróis pátrios destroçados pela violência política
e pelo moralismo opressor como o líder separatista Charles Parnell. Assim
também o ódio ao opressor inglês e aos preconceitos de uma aristocracia
protestante formalizada, minoritária e colaboracionista. Um ódio que provoca o
escárnio e a ironia, voltados àqueles que cultuam a injustiça social e promovem
o massacre dos pobres, através da violência, da prepotência e da ignorância,
com que os dominados são mantidos sob suas rédeas. Ao mesmo tempo, dedica
imenso ódio à hipocrisia do clero católico, e o denuncia como conivente com os
exploradores do povo e dos dominadores ingleses.
Desde a infância Stephan Dedalus incorpora sentimentos de
culpa, condicionados pela ortodoxia religiosa, transmitida inicialmente pelos
próprios pais. Quando completa dez anos de idade, sua educação será colocada
nas mãos dos jesuítas em regime de internato. Os padres serão, na imagem que é
recordada, os disseminadores não da paz e da harmonia religiosas, mas do
terror. E a religião será o instrumental que o apequenará, buscando
transformá-lo em dócil cordeiro. E quando a fé e os dogmas já não bastarem para
tal não faltarão os castigos físicos, como as palmatórias e, mesmo, as ameaças
de expulsão do seminário.
Esse ensaio cobrirá exclusivamente a etapa de vida de
Stephan colocado interno numa escola dirigida por jesuítas, na qual participará
de um primeiro “retiro espiritual”, onde os padres “tratarão” dos jovens
educandos transmitindo-lhes as quatro chaves essenciais da fé católica. Aliás,
um discurso que nos dias de hoje é permanentemente parodiado nos cultos das
Assembleias de Deus e suas correntes afins.
Um Retiro Religioso.
Assim falou o padre superior aos adolescentes reunidos na
capela do seminário: “Qual é o significado da palavra retiro espiritual? Um
afastamento momentâneo dos cuidados da nossa vida, dos cuidados desse prosaico
mundo, de modo a examinarmos a nossa consciência, a refletirmos nos mistérios
de nossa santa religião e compreendermos melhor porque estamos nesse mundo.
Fomos enviados ao mundo para cumprirmos a vontade de Deus e salvarmos nossas
almas imortais. Existem as quatro verdades derradeiras: morte, julgamento,
inferno e paraíso.”
A morte e o primeiro
julgamento.
No primeiro dia o pregador trouxe a morte e o julgamento
para dentro da alma de Stephan, despertando-a lentamente para o desespero. A
débil claridade do medo se transformou em terror do espírito, quando o pregador
derramou o terror. Sentiu o frio de a morte lhe tocar as extremidades e subir
até o seu coração; a faixa da morte velando-lhe os olhos, os claros centros do
cérebro extinguindo-se um a um como lâmpadas, o último suor fluindo-lhe da pele
e o coração batendo cada vez mais debilmente, falhando, tudo o mais já vencido,
a respiração, pobre respiração, o pobre sopro humano sem auxílio, suspirando e
soluçando, estertorando. Nenhum auxílio, nenhum socorro!
Aquele corpo, que tudo dera por ele, estava morrendo. Para
a tumba com ele! Fechemo-lo este cadáver dentro de uma caixa de madeira e
empurremo-lo para longe das vistas dos homens, dentro de um buraco bem fundo,
no chão, para ser pasto dos seus próprios vermes, para ser devorado por ratos gordos
e pelas baratas e formigas sempre tão ativas e apressadas.
Sentia-se, na fala do pregador, já em sua veste a
mortuária e enquanto os amigos ainda estavam lá a velá-lo, em lágrimas, a alma
do pecador já estava sendo julgada. E naquele derradeiro momento de
consciência, toda a vida terrena passa como um filme pelas vistas da alma, sem
tempo de reflexão, apenas de julgamento!
Deus, tanto tempo misericordioso, agora seria justo! Ele
que tanta paciência tivera argumentando e concedendo tempo para que a alma
pecadora se arrependesse, poupando-a. Mas esse tempo findara. Tempo houve para
gozar e pecar; para zombar de Deus e dos preceitos de sua Igreja, para desafiar
os mandamentos e preceitos de sua Majestade, para tapar os olhos dos homens
seus companheiros, cometendo pecado após pecado, e escondendo sua corrupção aos
próprios olhos dos homens. Agora chegara a vez de Deus. E ele não poderia ser
enganado e nem ter os olhos fechados.
Todos os pecados sairiam de seus esconderijos, até mesmo
os mais degradantes mesmo para a nossa pobre natureza corrupta. O que adiantava
ter sido um grande na terra? Todos eram iguais diante da grande mesa do
julgador. Ele recompensaria os justos e puniria os culpados. E nada mais que
uma fração infinitesimal de segundos bastaria para o julgamento da alma de um
homem.
Num instante após a morte, a alma era pesada na balança,
ao final do qual ou ela passaria para a morada da felicidade ou para a prisão
do purgatório ou, então, arremessada, rugindo no inferno.
O Juízo Final
Não bastava o julgamento imediato “post-mortem”. O grande
julgamento necessitaria de publicidade e deveria ser exemplar! A justiça divina
tinha que se vingar aos olhos dos homens, de todos os homens: após o julgamento
particular viria o geral. Para tanto haveria um Dia D, o dia do Juízo Final que
chegaria ao final dos tempos!
As estrelas dos céus cairiam como meteoros candentes. O
sol tinha-se tornado um saco murcho de cabelos amarelos. A lua ganhara a cor do
sangue. O firmamento era um papel enrolado. O arcanjo Miguel, príncipe da corte
celestial, gendarme pretoriano imbatível e feroz, aparecia glorioso e terrível
contra o firmamento. Com um pé no mar e outro na terra fazia ecoar sua brônzea
trombeta, despertando os mortos e extinguindo os tempos, os que foram e os que
são, mas que jamais serão.
Foram três toques, não mais; ao último as almas de toda a
humanidade se apinham no vale de Josafat, ricos e pobres, cultos e ignorantes,
bons e culpados. São as almas de todos os seres humanos que um dia existiram,
todos os filhos e filhas de Adão, que se reúnem para esse dia supremo.
E eis que chega o grande Momento; surge aquele que um dia
apareceu aos homens como o Bom Pastor, o manso Cordeiro de Deus, o humilde
Jesus de Nazaré. Mas Ele se transfigurou! Já nada possui de humilde, de humano.
Os homens logram vê-lo no alto, acima das nuvens, em todo seu poder e
majestade, rodeado por coros de anjos e arcanjos, tronos e dominações,
potestades, querubins e serafins, como um Deus Onipotente, Eterno.
Quando Ele fala sua voz é ouvida nos mais longínquos
recantos da Terra, mesmo nos abismos sem fundo das catacumbas! Juiz Supremo,
sua sentença não admite nenhuma apelação ou postergação! Ela chama os justos
para sua Direita, ordenando-lhes que entrem para o reino beatífico da
felicidade eterna, para eles preparado. Aos injustos enxotará, com Ira, de sua
presença: “Afastai-vos de mim, oh malditos, ide para o fogo eterno preparado
pelo demônio e seus anjos”.
A agonia dos pecadores a ninguém arrancará uma só lágrima.
O amigo será suprimido dos que o acompanham, os filhos serão tirados de seus
pais, os maridos de suas esposas. Os pobres pecadores estendem seus braços para
os que lhes eram caros, para os que os aconselhava a seguir a trilha correta
quando em vida. Mas já é tarde, muito tarde! Os justos voltam para o lado seus
rostos, a visão das almas danadas, que transparece em toda sua horrível feiura,
causa-lhes repugnância.
E esse dia há de vir, chegará, tem de vir: o dia da morte
e do julgamento! Se a morte é certa, o tempo e a maneira em que se dará, são
incertos. E após a morte, o julgamento! Morte e julgamento trazidos ao mundo
devido o pecado de nossos primeiros pais. Negros são os pórticos que se fecham
à nossa existência terrena; a porta através das quais cada alma deve passar
sozinha, sem ajuda, apenas com suas ações e intensões.
“O Inferno alargou a sua garganta e abriu a sua boca”, do
livro de Isaías, disse o pregador. Adão e Eva foram criados por Deus para que
preenchessem os lugares vagos deixados nos céus por Lúcifer e seus seguidores.
Lúcifer era um filho da luz, da manhã, um anjo radiante , mas que caiu, caiu
por sua revolta e foi arremessado com todos os seus acólitos nos infernos. Seu
pecado, os teólogos dizem, foi o orgulho, aquele pensamento do que não deseja
servir. O instante em que pensou o perdeu! Ofendeu a Potestade Divina pelo
pensar dum instante. E Deus o condenou pela eternidade pelo sopro de um pensar!
Mas Adão e Eva também caíram! Postos pelo Divino Amor no
Éden, na planície de Damasco, só lhes era negado comer do fruto da árvore
proibida. O demônio, aquele que fora filho da luz, tinha-lhes inveja. Resolveu
tentá-los, pois não poderia conceber que o homem, feito de barro, deveria
herdar aquilo que de direito ele possuíra, antes da queda. E a mulher, o vaso
mais frágil, foi quem ouviu da serpente a blasfêmia: “Se eles comessem do fruto
proibido se tornariam deuses, maiores mesmo que o próprio Deus”. Ela e Adão
comeram da árvore do saber e caíram, como caíram! Ouviu-se a voz irada de Deus
e Miguel, o arcanjo pretoriano, espada fálica flamejante em riste, expulsou-os
do Éden, atirando-os no mundo de maldades, de corrupção, de dureza, para
ganharem o pão com o suor de seus rostos.
Mas quão grande é a misericórdia divina! Tomou-se de
piedade por nossos pobres pais e prometeu que na plenitude do tempo deveria
enviar Alguém que os redimiria, fazendo-os novamente filhos de Deus e herdeiros
dos céus. E Cristo veio. Nascido de uma virgem pura, que deu à luz numa pobre
estrebaria, viveu como um humilde carpinteiro até que sua hora chegasse. E
então, repleto de amor pelos homens desceu até nós trazendo o seu evangelho.
Os homens ouviram-no? Escutaram-no, mas não o ouviram. Ele
foi agarrado e conduzido ao suplício ao lado de dois ladrões. Crucificado teve
seu corpo perfurado por lança e, mesmo nesse instante de suprema dor, o
Redentor teve pena da humanidade: do topo do Calvário fundou a Santa Igreja
Católica, contra a qual prometeu que as portas do inferno não prevaleceriam.
Mas que, após tudo o que havia feito pelos homens se eles ainda persistissem em
sua maldade, restaria para os mesmos uma eternidade de sofrimento: o inferno!
Pobre alma a de Stefan Dédalus! Mergulhou num crepúsculo ameaçador,
contemplando tudo com os olhos sombrios, sentindo falta de socorro, perturbado
e humano, sendo visto em atos e pensamentos por um deus de olhos bovinos que o
encarava dia e noite. Sentia-se regredir, sufocava-o o sentimento de terror que
experimentara na infância. Mas o pregador prosseguiria!
O Inferno, a tortura
física.
Tentemos compreender a natureza da morada dos danados, que
a justiça do Deus ofendido criou para a eterna punição dos pecadores. O inferno
é uma estreita, negra, sórdida prisão fétida, cheia de fogo e fumaça. É uma
prisão feita por Deus para aqueles que se recusaram a seguir as suas Leis.
Nas prisões terrenas os cativos têm, no mínimo, alguma
liberdade de movimento entre as quatro paredes de sua cela e no tenebroso pátio
da prisão. No inferno não é assim. Lá, devido à superpopulação, os prisioneiros
estão atirados uns aos outros, extremamente apertados e desamparados,
incapacitados até de retirar um verme de seu próprio olho.
Jazem nas trevas exteriores, da que o fogo do inferno é de
um tipo especial, que não emite luz, mas arde eternamente em trevas, em meio a
uma tempestade, que nunca termina, feita de negras chamas e de fumaça do
enxofre a arder.
Logo, todo horror dessa estreita e negra prisão é
aumentado por seu tremendo cheiro ativo. O enxofre enche o inferno com seu
intolerável fedor. E os corpos aos milhões e milhões, na putrefação dos danados
a arder e emitir densos e horrendos fumos de nauseante decomposição criam uma
tão grande pestilência que, um só desses corpos seria capaz de infectar todo o
mundo!
Mas tal horrível fedentina, ainda não é o maior tormento
físico. O tormento pelo fogo tem sido o maior suplício ao qual os tiranos têm
sujeitado as criaturas. Colocai o dedo sobre o fogo e sentireis a dor; mas, não
se esqueçam de que esta é a dor de um fogo benéfico, criado por Deus para o bem
do homem. O fogo do inferno, aquele que arde nas trevas é de outra qualidade,
pois Deus o fez para torturar e punir o pecador sem arrependimento. Ele não se
extingue como o fogo benéfico. O fogo do inferno nunca se extingue, arde sempre
e ininterruptamente com indizível fúria. Ele preserva aquilo que ele queima
para que a tortura seja eternal.
E mais. O fogo terrível não aflige os danados apenas por
fora, pois cada alma perdida se transforma em um inferno dentro si mesma, um
fogo que se insufla em sua própria essência. Enfim, o fogo que procede da ira
divina tortura tanto o corpo quanto a alma, soprado numa perene e crescente
fúria pela Divindade.
Acontece que no inferno todos os sentimentos têm sinal
trocado. Assim, não há pensamentos de família, amizade, Pátria, relações. O
danado se esgoela e grita com os outros, sua tortura e ódio se intensificam
pela própria presença de outros torturados.
Agora já não há
tempo para redenção, para o arrependimento!
Por último, prossegue o jesuíta, considerai o tormento das
almas torturadas na companhia dos demônios. Não podemos ter ideia de quão
terríveis eles possam ser. Tais demônios, que já foram anjos virtuosos,
tornaram-se repelentes, asquerosos. Aqueles, quando pecaram, fizeram-no por
meios que eram compatíveis com sua natureza angelical: foi uma rebelião do
intelecto. Eles mesmos, anjos decaídos enojam-se das almas dos danados que
cometeram pecados que indizíveis por ultrajarem o Espírito Santo.
O padre concluiu o sermão do dia: “Meus irmãos, queira
Deus que nenhum de nós ouça jamais soar em seus ouvidos a divina sentença de
repulsa: Afastai-vos de mim, vós, oh amaldiçoados, ide para o fogo eterno que
foi preparado pelo demônio e seus anjos!”
Stephen, desamparado, desceu a nave da capela com as
pernas tremendo e o couro cabeludo arrepiado em sua cabeça, como se mãos de
fantasmas estivessem tocando-a. E a cada passo tinha medo de já haver morrido,
de que sua alma já tivesse sido arrancada do estojo do corpo, que estivesse
mergulhando de cabeça no espaço.
O Inferno, a tortura
psicológica.
No dia seguinte, o jesuíta ainda prosseguia a sua fala
sobre o que aguarda as almas condenadas:
“O pecado é uma dupla enormidade. É um vil consentimento à
nossa natureza corrupta em seus mais baixos instintos, naquilo que é grosseiro
e bestial; e é, também, um afastamento do conselho de nossa natureza mais alta,
daquilo que é puro e sagrado, do próprio Deus Santo. Por tal razão o pecado
mortal é punido no inferno com duas diferentes formas de castigo, o físico e o
espiritual”.
A maior dentre todas as penas espirituais é a perdição; de
fato, é um tormento tão grande que chega a ser maior que todos os outros. Nós
nessa vida não temos consciência muito clara do que tal perda possa ser, mas os
danados no inferno, para seu maior tormento, têm uma compreensão total daquilo
que perderam e compreendem que o se foi para sempre.
A segunda pena que afligirá as almas danadas é o castigo
da consciência. Nas almas dos perdidos se ergue um remorso perpétuo provindo da
putrefação do pecado, que age como um aguilhão que aferroa a consciência. A
primeira ferroada descarregada por esse verme cruel é a lembrança dos prazeres
passados. E que terrível recordação será essa! Lá no lago das chamas que o
devora, o rei se recordará das pompas da corte; o sábio pecador dos maus livros
que leu; o amante dos prazeres artísticos de seus quadros, dos mármores; o
glutão dos prazeres da mesa e do vinho especial; o impuro e adúltero os
prazeres imundos e inenarráveis com que se comprazia. Ah, eles se arrependerão
dos pecados cometidos, terão nojo de si mesmos e este é a segunda ferroada do
verme da consciência: uma tardia e infrutífera angústia pelos pecados
cometidos.
Finalmente ainda irão deplorar as boas ocasiões que haviam
tido para o arrependimento, e esta será a terceira ferroada do verme. A
consciência dirá: tivestes tempo e oportunidade para o arrependimento, não
quisestes. “Tivestes o Ministro de Deus para a santa confissão, desprezastes.
Deus apelava que voltasses para ele, para Sua Lei. Mas não. Não quisestes.
Imploras agora um momento de vida terrena para o arrependimento? É vão, pois
esse tempo já se foi”.
A pena seguinte é a da extensão. O homem na vida terrestre
embora seja capaz de muitos malefícios, não é capaz deles todos ao mesmo tempo.
No inferno, entretanto, um tormento ao invés de substituir outro, cede-lhe
ainda uma força que o amplifica, enquanto as faculdades internas são mais
perfeitas que os sentidos exteriores, sendo mais aptas ao sofrer. Assim, cada
sentido é atingido por um tormento que lhe é peculiar: a imaginação com as mais
horríveis imagens, o espírito e a compreensão com uma treva mais terrível que
as trevas da prisão.
Coexistindo com a pena da extensão temos a da intensidade.
Na nossa vida, as aflições jamais são grandes ou longas demais, porque a
natureza ou as ultrapassa pelo hábito ou lhes põe certo fim. Mas no inferno os
tormentos não podem ser vencidos pelo hábito, pois sendo de terrível
intensidade também o são de inimaginável variedade. E nem pode a natureza
escapar dessas torturas sucumbindo mercê delas, pois a alma é sustentada no mal
de modo a que seu sofrimento pode ser sempre maior.
Finalmente chegamos a última tortura, que coroa todas as
outras: a Eternidade! Oh terrível e medonha palavra, Eternidade! Prestem bem
atenção para a eternidade das penas. O que não será suportar as mil formas de
tortura infernal para todo o sempre? Que horroroso castigo! Uma eternidade de
agonia sem fim, de tormento corporal e espiritual sem fim, sem um raio de
esperança, sem um segundo de trégua! Tal é o terrível castigo para os que
morrem em pecado mortal e decretado por um Deus todo poderoso e justo!
Os homens muitas vezes não compreendem a hedionda malícia
do pecado mortal e sua gravidade. E não compreendem que por um único pecado
possa a justiça divina condenar o homem a uma punição eterna, num sofrer
infinito. Isto porque eles não estão aptos a compreender toda a malícia do
pecado mortal. Mas Deus, em sua suprema bondade, não poderia permitir que um
pecado qualquer permanecesse sem o castigo, pois seria uma transgressão à Sua
Lei e Deus não seria Deus se não punisse.
E assim encerrou a sua prédica sobre a morte, o julgamento
e o inferno, dado que sobre o Paraíso pouco explanou: “Ele vos chama a Si. Sois
Dele. Ele vos fez do nada. Ele vos ama como só um Deus pode amar. Os Seus
braços estão abertos para receber-vos, mesmo que tenhais pecado contra Ele.
Vinde a Ele, pobres pecadores. Agora é o Tempo aceitável! Esta é a hora”.
Mas Stephan Dédalus- Joyce se revoltará e o “O retrato do
artista quando jovem” refletirá, na revolta, o anseio por liberdade. E ao se
libertar, Stephan realizará uma verdadeira viagem íntima por descobertas, na
incessante busca de uma consciência própria, independente dos preconceitos e
dogmas religiosos que ele abomina. Nessa viagem, que é uma epifania, ele
perderá a fé católica e no Deus criador, terrível e onipotente. Ganhará na
liberdade o direito de perder-se por sua conta e risco.

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