sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

TEREZA DE BENGUELA: LÍDER QUILOMBOLA E SÍMBOLO DE RESISTÊNCIA

Poucos conhecem essa mulher que foi considerada a rainha de um dos quilombos mais importantes do Brasil colonial
Por: Penelope Nogueira
 
O abolicionismo no Brasil foi um processo longo, violento e profundamente desigual. Diferentemente de outras regiões das Américas, onde a escravidão foi abolida em meio a guerras civis ou rupturas políticas radicais, o Brasil manteve o regime escravista até 1888, sendo o último país do Ocidente a fazê-lo. Durante séculos, milhões de pessoas negras resistiram à escravidão de múltiplas formas: fugindo, sabotando, organizando revoltas, formando comunidades autônomas e preservando culturas interditadas. Embora nomes como Joaquim Nabuco, José do Patrocínio, Luís Gama e Luiza Mahin ocupem lugar central na memória nacional, muitos protagonistas da luta contra a escravidão só agora começam a ser resgatados pela historiografia. Entre eles está Tereza de Benguela, uma das figuras mais impressionantes da resistência negra no Brasil colonial.
 
Com apenas dois registros documentais diretos preservados em arquivos coloniais, Tereza foi, ainda assim, uma das personagens centrais da luta contra o sistema escravista no interior do território brasileiro no século XVIII. Sua trajetória revela que a abolição não foi apenas resultado de debates parlamentares tardios, mas o desfecho de séculos de enfrentamento direto ao regime da escravidão, conduzido principalmente por pessoas negras.
 
A vida de Tereza
 
Tereza de Benguela viveu na segunda metade do século XVIII, na região que hoje corresponde ao estado do Mato Grosso. Sua origem exata permanece desconhecida, mas os indícios apontam que era uma mulher negra, possivelmente africana ou descendente direta de africanos escravizados. Tornou-se líder do Quilombo do Quariterê, também conhecido como Quilombo do Piolho, após a morte de seu companheiro, José Piolho, que havia sido o primeiro chefe da comunidade.
 
Assumir a liderança de um quilombo em pleno período colonial não era um feito comum — e menos ainda para uma mulher negra. Ainda assim, Tereza consolidou-se como dirigente política, militar e administrativa de uma comunidade que reunia negros libertos, escravizados fugidos e indígenas. Sob seu comando, o quilombo transformou-se em uma experiência complexa de organização social autônoma.
 
O Quilombo do Quariterê não era um simples refúgio improvisado. Relatos coloniais indicam que a comunidade possuía estruturas de defesa, produção agrícola organizada, comércio com vilas próximas e até formas próprias de governo. Havia plantios regulares, criação de animais, fabricação de tecidos e armas, além de uma rede de vigilância contra expedições militares.
 
Tereza de Benguela exercia autoridade reconhecida internamente e temida externamente. Documentos coloniais referem-se a ela como “rainha”, evidenciando tanto o respeito que inspirava quanto o incômodo que causava às autoridades. Seu governo demonstrava, na prática, que pessoas negras eram plenamente capazes de organizar sociedades estáveis, produtivas e independentes — uma negação direta da ideologia que sustentava a escravidão.
 
O quilombo sob sua liderança oferecia um modelo alternativo de vida social, fora da lógica colonial. Cada pessoa que escapava para Quariterê representava uma perda econômica para os senhores e também uma fissura simbólica no sistema escravista.
 
O movimento abolicionista para além do parlamento
 
A narrativa tradicional sobre a abolição costuma concentrar-se no século XIX e nas elites políticas. No entanto, quilombos como o de Tereza de Benguela mostram que o abolicionismo brasileiro começou muito antes, nos gestos cotidianos de resistência: na fuga, na rebelião, na construção de territórios livres.
 
Essas comunidades minavam economicamente o sistema escravista, desafiavam sua legitimidade e impunham custos militares à Coroa portuguesa. Cada expedição contra um quilombo exigia homens, armas, dinheiro e tempo. O medo permanente de levantes e fugas fazia parte da engrenagem da colônia. Assim, a abolição não pode ser compreendida como um ato benevolente do Estado, mas como o resultado final de um processo histórico marcado por lutas contínuas.
 
Tereza de Benguela personifica essa dimensão profunda do abolicionismo.
 
Morte e legado
 
Em 1770, após décadas de resistência, o Quilombo do Quariterê foi atacado por forças coloniais. A comunidade foi desmantelada e Tereza capturada. As versões sobre sua morte divergem: alguns registros indicam que ela teria cometido suicídio para não retornar à condição de escravizada; outros sugerem que morreu em decorrência das condições de prisão. Em qualquer hipótese, seu fim revela a violência estrutural do regime colonial diante de lideranças negras que ousavam desafiar sua ordem.
 
Por muito tempo, seu nome permaneceu praticamente ausente dos livros escolares e da memória pública. Apenas nas últimas décadas historiadores, educadores e movimentos sociais passaram a resgatar sua trajetória como símbolo de liderança feminina, resistência negra e autonomia política. Em 2014, o dia 25 de julho foi oficialmente instituído no Brasil como o Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra.
 
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