Estranho
tempo este em que nos encontramos diante do avanço das forças do
conservadorismo e do fascismo, representadas por um candidato de extrema
direita e pela devoção e fúria cega dos seus seguidores, que apresentam
semelhança com a tensão obscura das milícias nazistas na década de 1930, na
preparação dos holocaustos, das torturas e das guerras. Nas carreatas, os
“milicianos-bolsonaristas” apontam armas e/ou fazem das próprias mãos armas, em
gesto portador de ameaças claras dirigidas aos seus opositores. Mãos que
poderiam afagar e construir transformam-se em símbolos da ameaça de morte e da
intolerância. Gritam palavras de ódio contra mulheres, negros, índios e gays.
Triste
e obscuro tempo, onde muitos médicos, advogados, engenheiros e outros
profissionais liberais, não obstante seus cursos universitários, perfilam ao
lado da irracionalidade, ao apoiar a extrema direita e seus slogans e “vivas” à
tortura e à morte. Os homens da lei rasgam a Constituição e manipulam decisões,
em conformidade com suas ideologias conservadoras e os interesses das classes
dominantes e do mercado. Alguns empresários judeus, em traição à memória das
vítimas dos totalitarismos, apoiam a ideologia despótica e racista. O mercado
tem tremores e os empresários fascistas gozam. A Globo e a velha imprensa
manipulam corações e mentes. Muitos pastores, com suas contas bancárias
abarrotadas de dinheiro arrancados dos fiéis apavorados, invocam Deus para as
novas cruzadas do ódio, subvertendo as pregações de Cristo em prol do amor e da
justa dignidade do homem. Está escancarado o fracasso de uma civilização feita
de destroços, de ruínas, da reedição de ódios e de violências, de retrocessos.
O grande reino do egoísmo e da exploração do homem pelo homem se fortalece. As engrenagens
perversas do capitalismo devoram o que de humano resta no homem.
Assim
como os indivíduos, as nações também adoecem e são capazes de suicídios
históricos. A opção autoritária e de extrema direita parece-me isso: um
mergulho nas trevas do ódio e da irracionalidade. Um suicídio coletivo que
parece ser indicativo do fracasso das nossas principais instituições. A maioria
das nossas escolas não forma seres humanos para a solidariedade e para a
liberdade, mas apenas para a competição, o lucro, o preconceito, a pulsão da
morte e a hegemonia das sombras. Acredito que quem transforma o seu voto em
instrumento do ódio não está apenas tentando destruir o outro, mas está
destruindo a si mesmo, enquanto projeto de humanidade. Afinal, ser humano é uma
construção, a mais difícil e demorada de todas as construções.
No site Outras Palavras

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