Nesta
semana, foi concluído o processo iniciado quando o juiz de primeira instância
Sérgio Moro sentenciou o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva a nove anos e
seis meses de prisão – além de impedir que ele ocupe qualquer cargo público
pelos próximos 19 anos. O motivo: ter (supostamente) recebido um apartamento de
três andares e pouco mais de 200 metros quadrados, no decadente balneário do
Guarujá, como propina em troca de contratos na Petrobras.
A
sentença já era esperada. No fim das contas, desde o início da chamada
“Operação Lava Jato” está mais que clara a obsessão fundamentalista deste juiz
de provinciano contra o ex-presidente mais popular do último meio século no
Brasil e principal figura política do país nos nossos tempos.
Provas
de que o apartamento foi realmente adquirido por Lula? Nenhuma. Para começar, o
imóvel em questão teve sua propriedade repassada ao banco estatal Caixa
Econômica Federal, como parte de um acordo de suspensão de pagamentos e
recuperação judicial da empreiteira OAS. Mas há outros elementos: não existe um
só registro de propriedade do imóvel no nome de Lula, e isso por uma simples
razão: nunca pertenceu a ele.
A
história do apartamento triplex é bastante conhecida no Brasil, e devidamente
omitida pelos meios de comunicação hegemônicos, que foram um dos pilares do
golpe institucional que destituiu a presidenta Dilma Rousseff, mas cujo
objetivo claríssimo sempre foi o de liquidar a figura política de Lula da
Silva.
Efetivamente,
há mais de uma década, a falecida esposa de Lula, dona Marisa Leticia, adquiriu
uma quota de um apartamento, em um edifício que seria construído no Guarujá. De
acordo com as leis e costumes do Brasil, é possível comprar uma quota de uma
construção e, quando ela esteja terminada, escolher determinado apartamento e
pagar a eventual diferença. Foi o que ocorreu: quando o edifício ficou pronto,
dona Marisa foi visitá-lo, e desistiu do negócio, inclusive pedindo o
ressarcimento da quota. A empreiteira, que obteve gordos contratos com a
Petrobras durante os mandatos de Lula, entendeu o óbvio: ter o ex-presidente
entre os proprietários do edifício seria um atrativo insuperável. Mandou
reformar todo o imóvel, e até incluiu um elevador privado, e chamou Lula para
vê-lo já com as remodelações. Quando o analisou, Lula – em sua única visita ao apartamento
– deu o não definitivo da família ao negócio.
Não
há uma só prova de que, em algum minuto, de qualquer dia, o ex-presidente tenha
recebido o apartamento. Sobram provas, contudo, de que a empreiteira OAS
continua sendo sua verdadeira e a única proprietária. Então, por qual motivo
Lula foi condenado?
Por
uma única e verdadeira razão: porque liquidá-lo era o objetivo final do golpe
iniciado com a destituição de Dilma Rousseff.
A
frustrada presidenta era uma pedra no caminho do grupo que armou o golpe: o
atual senador Aécio Neves, derrotado por ela nas eleições de 2014 e que liderou
a campanha de sabotagem legislativa do seu segundo mantado, entre 2015 e 2016,
com o pleno aval do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso; os meios
hegemônicos de comunicação; os partidos políticos que negociam seu apoio nos bastidores
de Brasília; o grande capital nacional e (claro) os interesses das
multinacionais que pretendem se beneficiar da nova situação. Para que o plano
pudesse se completar, era necessário liquidar Lula e seu partido, o Partido dos
Trabalhadores (PT).
A
chegada de Michel Temer e seus capangas ao governo teve como objetivo
primordial o de impor “reformas” que, na verdade, significaram desmantelar tudo
o que se construiu em termos de direitos sociais, não só durante os governos de
Lula e Dilma como nos últimos 50 anos – e, no caso dos direitos trabalhistas,
em mais de 70 anos. Agora, quando se vê quem são os verdadeiros bucaneiros, os
personagens deixam de ser necessários. Temer é um presidente que, além de
ilegítimo, está moribundo.
Lula
da Silva se transformou no primeiro ex-presidente condenado por corrupção,
graças à atuação de um juiz provinciano cujo autoritarismo e parcialidade são
mais que evidentes, e não somente segundo os juristas como também para cada vez
mais numerosas parcelas da opinião pública, que não se deixaram idiotizar pelos
meios de comunicação hegemônicos, encabeçados pela Rede Globo.
Sempre
é bom repetir: não há sequer uma mísera prova contra Lula no caso do
apartamento do Guarujá, ao mesmo tempo em que abundam as provas do massacre que
o ex-presidente sofre, de forma incessante, da imprensa cartelizada, que
considera sua popularidade como uma ameaça. Para esses meios, Lula é um pássaro
perigoso, que deve ser abatido antes que volte a sobrevoar o país.
Para
defender interesses desse tipo, a direita mais retrógrada encontrou um jovem
juiz do interior, obcecado pela fama e pelo troféu que significa prender alguém
como Lula, e se esse mesmo magistrado ainda conta com a ajuda de promotores
fanáticos, tudo isso amparado pelos meios de comunicação e a omissão cúmplice
das instâncias superiores da Justiça, quer dizer que o roteiro do filme já está
concluído.
Agora,
é preciso ver como o público vai reagir. Se com a devida indignação, ou com a
miserável resignação.
*
Publicado originalmente no jornal argentino Pagina/12.
https://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Politica/O-objetivo-de-Moro-foi-alcancado/4/41712

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