Há
75 anos, no dia 3 de fevereiro de 1943, era formalizada a rendição alemã em
Stalingrado. Esta foi a maior derrota militar que as tropas nazistas haviam
sofrido até então. Naquela batalha homérica, os soviéticos destruíram um
exército invasor composto por cerca de trezentos e trinta mil homens e fizeram
mais de noventa mil prisioneiros, entre eles vinte e quatro generais e um
marechal de campo. O mundo inteiro tomava consciência, pela primeira vez, de
que a Alemanha de Hitler não era invencível. No final de tudo, afirmou o poeta
comunista Aragon, "não foi Stalingrado que caiu, como pretendiam os
reacionários, mas a própria dominação hitlerista."
Depois
da batalha...
"União
Soviética, se juntássemos
todo
o sangue derramado em tua luta,
tudo
o que deste como mãe ao mundo
para
que a liberdade agonizante vivesse,
teríamos
um novo oceano,
grande
como nenhum outro,
profundo
como nenhum outro,
vivente
como todos os rios,
ativo
como o fogo dos vulcões araucanos."
(Pablo
Neruda, Canto Geral)
No
dia 22 de junho de 1941, a Alemanha nazista iniciou a invasão do território
soviético. Hitler violava, assim, um pacto de não agressão assinado em 1939. A
operação militar denominada de Barbarossa visava a uma rápida conquista da
antiga URSS. Naquele momento dramático, os exércitos alemães já ocupavam quase
toda a Europa continental, incluindo a França. Todos os países atacados caíram
rapidamente diante da poderosa máquina de guerra germânica.
Parecia
que os objetivos nazistas logo se concretizariam. Em novembro já estavam nas
vizinhanças da capital soviética, Moscou. O império alemão parecia
indestrutível e os dias do único país socialista contados. Os reacionários de
todo o mundo – inclusive alguns liberais ocidentais – torciam por isso. Stalin
permaneceu na cidade ameaçada e de lá comandou as comemorações do aniversário
da Revolução Russa. Um ato revestido de grande simbologia – que animou os
soldados e a população.
Mas,
no início de dezembro, o Exército Vermelho iniciou uma contraofensiva que levou
os alemães a recuarem centenas de quilômetros, afastando o risco de uma queda
imediata de Moscou. Esta foi a primeira grande derrota das forças
nazi-fascistas desde o início da guerra. Nem tudo estava perdido para os
antifascistas. A partir daí todos os olhos se voltavam para o que ocorria no
Oriente da Europa. Ali se decidiria o futuro da humanidade: liberdade ou
servidão.
No
ano seguinte, sem conquistar Moscou, os alemães realizaram uma grande ofensiva
ao sul da União Soviética. Os alvos eram os ricos campos de petróleo do Cáucaso
e as vastas plantações de trigo no Volga. Se conquistados esses objetivos,
ficaria gravemente comprometida a capacidade de resistência russa.Esta,
portanto, passou a ser uma questão de vida ou morte para os combatentes.
Em
agosto os invasores tomaram posse do monte de Elbruz, o pico mais alto das
montanhas caucasianas. Ocuparam os campos petrolíferos de Maikop e atingiram
Mozdok, chegando perigosamente próximo aos principais centros petrolíferos. E
no dia 23, o VI Exército, comandado pelo general Von Paulus, alcançou o rio
Volga. Nuvens sombrias voltavam a pairar sobre o mundo.
Logo
Stalingrado se transformou num dos principais objetivos estratégicos naquela
sangrenta guerra. A cidade possuía cerca de 500 mil habitantes e era um centro
industrial de certa importância. Contra ela os nazistas mobilizaram 36 divisões
e, em setembro, chegaram a ocupar parte de seu território. A luta se tornou
ainda mais encarniçada. O Exército Vermelho e o povo armado resistiram palmo a
palmo. Verdadeiras batalhas eram travadas pela conquista de cada quarteirão,
cada rua, cada casa, cada cômodo. Formaram-se milícias operárias. Um dos palcos
desta luta heroica foi a Usina de tratores onde os trabalhadores entraram em
luta desigual contra tropas invasoras fortemente armadas.
Milhares
de aviões lançavam diariamente bombas incendiárias sobre a cidade mártir. Esses
bombardeios visavam indistintamente a escolas, museus, hospitais, teatros e
residências civis. Stalingrado se transformou numa grande fogueira, mas entre
as brasas e as cinzas dos edifícios ainda se lutava, ainda se morria.
A
invasão da URSS estava custando muito caro aos alemães, já desacostumados às
derrotas. Haviam morrido 1.167.835 soldados. Então, o Alto Comando recorreu aos
seus aliados fascistas – italianos, franceses, húngaros e romenos – e
solicitou-lhes que enviassem tropas auxiliares. Até o generalíssimo Franco,
cujo país não participava da guerra, mandou uma divisão. Uma pequena
retribuição à Alemanha nazista pela sua ajuda no esmagamento da República
espanhola alguns anos antes.
Em
meados de 1942 as conquistas militares alemães haviam atingido o seu auge. Sua
vitória parecia garantida. Era apenas uma questão de meses. Em junho haviam
conquistado Tobruk e El-Alamein na África, e estavam às portas do Egito. As
forças mais reacionárias comemoravam a derrota iminente –e simultânea – do
socialismo e da democracia-liberal. Escreveu William Shirer: "O
Mediterrâneo tornara-se, praticamente, um lago do Eixo. A Alemanha e Itália
mantendo a maior parte da costa setentrional, desde a Espanha até a Turquia, e
a costa meridional, desde a Tunísia até quase sessenta milhas distante do Nilo.
As tropas alemãs mantinham guarda desde o cabo setentrional da Noruega, no
oceano Ártico, até o Egito; do Atlântico, em Brest, até a parte sul do rio
Volga, nas bordas da Ásia Central.".
O
começo do fim... do nazismo
Contudo,
na tarde de 19 de novembro, a tranquilidade do alto comando alemão foi abalada
por uma "notícia alarmante" que vinha da frente oriental. No
amanhecer daquele mesmo dia, em meio a uma violenta nevasca, os exércitos
soviéticos haviam lançado uma grande ofensiva para libertar o país. As tropas
alemãs no Cáucaso e no Don estavam sendo obrigadas a fugir para não serem
dizimadas. Sinal de que as coisas estavam mudando no front.
Diante
desse quadro, vários generais sugeriram a Hitler que retirasse as tropas que
cercavam Stalingrado, pois eram elas, agora, que estavam ameaçadas de serem
isoladas pelo inimigo. O Führer não aceitou a proposta. Para ele se tornou uma
questão de honra não recuar. "Onde o soldado alemão puser o pé, aí
permanecerá!", gritou aos seus auxiliares. Uma decisão que condenou à
morte centenas de milhares de seus homens. O VI Exército alemão, comandado pelo
general Von Paulus, acabou cercado pelos soviéticos.
A
situação do exército nazista na frente russa era desesperadora. A superioridade
militar passava decididamente para o lado dos russos, que ainda tinham o
inverno rigoroso como aliado. No dia 8 de janeiro de 1943, foi oferecida aos
sitiados a chance de se renderem. O disciplinado Von Paulus, sabendo que a
situação estava perdida, pediu permissão a Hitler, que a recusou. Dois dias
depois, os soviéticos bombardearam as frágeis posições dos alemães com cerca de
cinco mil canhões. Era o dia da caça e não mais do caçador.
No
dia 24, os soviéticos deram uma nova chance para a rendição. Von Paulus
novamente apelou para o seu Führer: "As tropas estão sem munição e sem
mantimentos (...). Não é mais possível um comando eficaz. (...) Dezoito mil
feridos sem quaisquer suprimentos, curativos ou remédios (...). É insensato
prosseguir na defesa. Inevitável o colapso. O Exército solicita permissão para
render-se, a fim de salvar as vidas dos soldados remanescentes.". A
resposta de Berlim foi: "Proibida a rendição. O 6º Exército defenderá suas
posições até o último homem e o último cartucho", pois esta seria a sua
contribuição alemã "para a salvação do mundo ocidental.".
Quando
os nazistas comemoravam o décimo aniversário da tomada do poder, 30 de janeiro,
Hitler resolveu promover Von Paulus à patente de marechal de campo. Esperava
com este ato animar o combalido general e impedir a sua rendição. Afinal,
pensava ele, "não há registro, na história militar, de ter sido
aprisionado um marechal de campo alemão.". Para espanto geral, dois dias
depois, o novíssimo marechal de campo e todo o seu Estado Maior na frente
oriental se renderam ao Exército Vermelho. Foi assim que os soldados soviéticos
presentearam Hitler pelos seus 10 anos à frente do governo alemão.
Os
russos haviam destruído um exército composto de mais de trezentos e trinta mil
homens e fizeram mais de noventa mil prisioneiros, entre eles vinte e quatro
generais e um marechal de campo. Ao fim de tudo, como afirmara o poeta francês
Aragon, "não foi Stalingrado que caiu, mas a própria dominação
hitlerista."
A
segunda frente na Europa
Durante
o auge do conflito, a URSS insistiu para que os aliados abrissem uma segunda
frente na Europa, com o objetivo de aliviar a pressão nazista sobre os
exércitos soviéticos que bravamente resistiam em Stalingrado e outras regiões.
Naquele momento cerca de ¾ do poderio militar alemão enfrentavam os russos na
frente oriental. Churchill e Roosevelt se comprometeram várias vezes em criar
uma nova frente de combate, mas tinham dificuldades em cumprir suas promessas.
Ocorreu, então, uma grande campanha internacional denunciando a inação dos
comandos militares aliados, que permitia a um único país que arcasse com todo o
peso da resistência contra a besta nazi-fascista, e exigindo que fosse iniciada
uma ofensiva militar na parte ocidental da Europa.
À
época suspeitava-se de que alguns "aliados" desejavam ver a Alemanha
e a URSS se desgastarem ao máximo para só depois intervirem. Afinal, Harry
Truman, futuro presidente dos EUA, havia declarado ao New York Times, em 24 de
julho de 1941, pouco depois da ocupação alemã à URSS, que: "Se virmos a
Alemanha ganhar, devemos ajudar os russos. Se a Rússia estiver por cima,
devemos ajudar os alemães, de modo que eles se matem uns aos outros.".
Assim pensavam eminentes políticos ocidentais, que se diziam liberais e
democráticos.
Somente
em junho de 1944, quando já estava claro que os exércitos soviéticos poderiam
vencer sozinhos a guerra na Europa, os anglo-americanos desembarcaram nas
praias da Normandia – no famoso Dia D –, e também marcharam céleres em direção
a uma Alemanha já enfraquecida. O alto-comando alemão, tendo que decidir quem
tomaria a sua capital, fortaleceu ainda mais suas defesas no lado oriental.
Isso facilitou o avanço das tropas inglesas e estadunidenses. Afinal, estas
faziam parte da civilização ocidental e cristã, como a Alemanha nazista.
As
causas da vitória
Vários
fatores foram importantes para a vitória soviética. O primeiro deles foi a
resistência heroica de seu povo. Ali se tratou não de uma guerra convencional,
mas de uma guerra popular de libertação nacional. Toda a nação se envolveu na
defesa da pátria-mãe, como dizia a propaganda governamental. O armamento geral
do povo era uma prova de unidade existente entre os dirigentes do Estado, o
Exército e a população na busca de um mesmo objetivo: libertar o país dos
invasores nazistas. Os governos burgueses sempre resistiram em envolver o povo
nos conflitos armados, não por amor a ele, mas por temerem que a situação
pudesse sair do seu controle. Em geral, preferiram capitular sem luta, como foi
o trágico caso francês.
Contribuiu
também para a vitória a firmeza do governo soviético, liderado por Stalin, que
entre outras coisas se recusou a abandonar a capital, mesmo diante da ameaça de
ocupação militar iminente. Isto deu maior confiança ao povo e aos exércitos em
luta. Da mesma forma contribuiu a capacidade tática dos seus oficiais.
Mas
tudo isto não garantiria a vitória se não existisse, em pleno funcionamento,
uma economia de caráter planificado. Ela permitiu a realização de tarefas
inimagináveis em outros países. Assim, o governo pôde se aproveitar dos poucos
anos em que vigorou o pacto de não-agressão germânico-soviético (1939-1941) e
transferir inúmeras indústrias estratégicas para a parte mais oriental do país.
Decisão que garantiu que a produção destinada à guerra não fosse tão afetada
pela ofensiva alemã entre 1941 e 1942.
Durante
os primeiros dias da ocupação alemã quase todos os aviões de combate haviam
sido destruídos. Porém, nos anos que se seguiram, foram produzidas mais de 800
mil aeronaves. Assim, os soviéticos puderam retomar o domínio sobre o seu
espaço aéreo. Em março de 1942 o nível da produção industrial bélica somente no
Leste já era igual ao nível atingido em todo o território soviético durante o
período anterior. Apenas no ano de 1944, a URSS produziu mais de 400 mil
tanques. Como dissemos, um esforço de tal monta seria impossível num país em
que predominassem a propriedade privada e os interesses particulares de cada
proprietário. Portanto, nesse campo, o socialismo mostrou-se bem mais eficiente
que o seu rival capitalista.
Kruschev
e o revisionismo histórico
Algumas
décadas depois, visando a destruir o chamado culto à personalidade promovido
por Stalin, o novo primeiro-ministro e secretário-geral do PCUS, Nikita
Kruschev, acabou cometendo um atentado contra a própria história do povo
soviético. Uma de suas polêmicas medidas foi mudar o nome da cidade de
Stalingrado para Volgogrado. Em sua autobiografia, a batalha de Stalingrado
reduziu-se ao debate em torno da mudança do comando de operações de um lado
para outro do Volga, defendida por ele contra a vontade de Stalin, e algumas
curiosidades antissoviéticas, bem ao gosto da literatura ocidental. Destaca o
trágico acidente em que soldados russos atiraram sobre seus próprios
compatriotas quando desciam de paraquedas, por suspeitarem que soldados
soviéticos haviam executado prisioneiros alemães, contra as suas ordens. Porém,
nada nos diz sobre o heroísmo do seu próprio povo: dos operários armados
defendendo as fábricas, dos soldados resistindo casa por casa, se entregando ao
fogo inimigo aos gritos de Viva a Rússia! Abaixo o fascismo!
Até
a guerra civil que se seguiu à Revolução Russa, Stalingrado se chamava
Tsaritsyn. Quando, nas cercanias daquela cidade, Stalin infringiu uma derrota
aos exércitos contrarrevolucionários chefiados pelo general Denikin, o lugar
mudou de nome em sua homenagem. Petrogrado, por sua vez, seria rebatizada como
Leningrado.
Seguindo
as pegadas de Kruschev, no início da década de 1990, o renegado Boris Yeltsin
alterou o nome de Leningrado, que voltou a se chamar San Petersburgo – talvez,
no fundo, pretendesse restaurar o czarismo. A cidade de Leningrado, além de
importante referência na Revolução de Outubro, foi outro importante baluarte da
resistência contra a ocupação nazista. Ela resistiu a um cerco que durou mil
dias e no qual a maior parte de sua população morreu de doenças e de fome.
Estas
foram tentativas insanas de apagar a história que o povo soviético, com seu
suor e sangue, ajudou a construir. A contrarrevolução tinha necessidade de
acertar contas com o passado e o fez. Contudo, os nomes Stalingrado e
Leningrado ainda vivem e viverão na memória dos homens e mulheres que sonham e
trabalham para um mundo melhor, sem a opressão fascista e imperialista.
Permanecerão vivas também nos documentos artísticos e nos depoimentos honestos
dos homens do seu tempo. Melhor exemplo disso é o contundente poema que Carlos
Drummond de Andrade dedicou a Stalingrado:
“A
poesia fugiu dos livros, agora está nos jornais.
Os
telegramas de Moscou repetem Homero.
Mas
Homero é velho. Os telegramas cantam um mundo novo
que
nós, na escuridão, ignorávamos.
Fomos
encontrá-lo em ti, cidade destruída,
na
paz de tuas ruas mortas, mas não conformadas,
no
teu arquejo de vida mais forte que o estouro das bombas,
na
tua fria vontade de resistir.
Saber
que resistes.
Que
enquanto dormimos, comemos e trabalhamos, resistes.
Que
quando abrirmos o jornal pela manhã teu nome (em ouro oculto)
estarás
firme no alto da página.
Terá
custado milhares de homens, tanques e aviões, mas valeu
a
pena.
Saber
que vigias, Stalingrado,
sobre
nossas cabeças, nossas prevenções e nossos confusos
pensamentos
distantes
dá
um enorme alento à alma desesperada
e
ao coração que duvida.
***
Em
teu chão calcinado onde apodrecem cadáveres,
a
grande Cidade de amanhã erguerá a sua Ordem.”.
* Artigo
originalmente publicado no Vermelho em janeiro de 2003.
* Augusto C.
Buonicore é historiador, diretor de publicações da Fundação Maurício Grabois. E
autor dos livros Marxismo, história e a revolução brasileira: encontros e
desencontros, Meu Verbo é Lutar: a vida e o pensamento de João Amazonas e
Linhas Vermelhas: marxismo e os dilemas da revolução, todos publicados pela
Editora Anita Garibaldi.
http://www.grabois.org.br/portal/artigos/154132/2018-02-01/75-anos-da-vitoria-sovietica-em-stalingrado

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