Estaria
o nacionalismo condenado e viveríamos um mundo sem fronteiras nacionais, regido
pela globalização, pela abertura dos mercados – principalmente financeiros – a
caminho de um governo mundial?
Pode
parecer piada de mau gosto, mas, no fundo, o substrato de toda a fundamentação,
há décadas da avalanche da globalização, está no bordão do fim. Não da
história, mas do conceito de nação e de sua própria existência, pelo menos como
ente estatal, já que seria muita pretensão desconhecer as nações. Seria como se
voltássemos e regredíssemos à Idade Média.
No
nosso caso, nunca nossas elites – a não ser para usurpar o poder – conviveram
ou aderiram ao nacionalismo. E, muito menos, à nação. Só o fazem para exercer
ou tentar a hegemonia cultural, impondo sua visão do que seja a nação, sempre a
partir de seus interesses e visão do mundo. Sempre foram inimigas mortais dos
governos dito nacionalistas, seja Getúlio, JK, Jânio com sua política externa
independente, Jango e, pasmem, Geisel.
Mas
nunca conseguiram apagar da memória nacional o sentimento nacionalista, que
guia nossa construção nacional, nossa aventura de construir, nos trópicos, uma
civilização.
Fizeram
de tudo, até mesmo negar que tínhamos condições históricas, humanas e culturais
de nos tornarmos uma nação. Foi com muita luta política, social e cultural que,
década após década, construímos o sentimento que hoje, de novo, se impôs como
um fato histórico indiscutível e indestrutível: somos uma nação soberana e
independente, somos uma cultura, um povo com presença no mundo. Somos assim
reconhecidos.
Mas
não basta. Uma nação só se caracteriza quando impõe, defende ou constrói
poderes para defender seus interesses e fazer parte do mundo, não apenas como
membro do concerto das nações, mas como uma força política, econômica, cultural
e militar, que também molda e organiza o poder mundial.
O
pensamento militar nunca foi único ou consolidado na nossa história. Pelo
contrário, até 64 debatia-se entre visões entreguistas e nacionalistas. Sob a
ótica entreguista, vamos recordar que, durante quase meio século, nossas elites
rurais e seus porta-vozes na imprensa e na política defendiam que o Brasil
jamais se industrializaria e não seria uma potência. Estávamos “destinados” a
ser um país agrário-exportador, cópia cultural da Europa. Hoje, cópia dos
Estados Unidos e igualmente exportador – de minerais, energia, alimentos. Nada
muito diferente do passado.
A
vertente nacionalista nos deu condições para a criação da Petrobras,
Eletrobrás, Telebrás, BNDES, que são as bases do Brasil que existe hoje.
Não
foi por nada, ou apenas por Geisel, que o estamento militar e interesses
empresariais construíram o II Plano Nacional de Desenvolvimento, que consolidou
nossa indústria de base, a ciência e a tecnologia – temas indispensáveis para
se falar em desenvolvimento nacional. Era um imperativo, inclusive, para a
sobrevivência da ditadura militar e de seu projeto nacional autoritário e
conservador. Sem inclusão do povo e, por isso, fracassado.
Sem
o povo não há nação e sem a nação não há Brasil e sua presença no mundo.
Nenhuma política de crescimento econômico numa nação continental como a nossa,
com mais de duzentos milhões de habitantes, com os recursos e as riquezas
naturais que temos e nosso nível de desenvolvimento tecnológico, terá sucesso
se não se afirmar como nacional e a partir dos interesses do povo e não apenas
da elite econômica e política.
O
povo trabalhador se constitui em sujeito, ator da história do país e isso
acontece de formas e maneiras totalmente diversas, personificando seus
interesses e sonhos em ideias, forças, lideranças, partidos, movimentos,
revoltas ou rebeliões. É por isso que se trata de uma perigosa ilusão qualquer
tentativa de fazer uma nação sem o povo. Não há caminho para construir poderes
nacionais, sejam eles políticos, econômicos, culturais ou militares, sem o
povo.
Mesmo
uma força militar, sem o apoio popular, não tem sobrevida estratégica no longo
prazo. Acaba desaguando em algum conflito militar, como a história nos ensina.
Apesar
de todas as evidências do caminho errado, voltamos ao passado e, mais uma vez,
querem porque querem descontinuar a nação. Sob o silêncio cúmplice ou imposto,
os militares se calam, como manda a Constituição.
Grande
parte da elite – inclusive a industrial, na ânsia de retomar o controle total
sobre o poder – se submete ao capital financeiro e principalmente aos donos da
informação e da formação da notícia e da opinião pública.
Os
usurpadores do poder usam e abusam do poder judicial/policial, rasgam o pacto
político e social de 1988 e voltam a pregar abertamente a entrega do país a
preços vis ao capital internacional, cujas premissas de atuação foram
extremamente nocivas a muitos países, como mostra a última crise global de
2008-2009.
Para
eles, o Brasil não tem saída a não ser se integrar no mundo norte-americano,
sob sua hegemonia – inclusive a cultural. Não bastasse a já nefasta dominação
que exercem sobre o país via monopólio da informação, agora tentam partidarizar
a educação com suas ideias e conceitos sobre a vida e a nação.
Irresponsáveis
e ignorantes das lições da história, acreditam que podem, a partir da força e
do controle da informação, dominar o povo brasileiro, seu destino e futuro como
nação. Não cabe em seu projeto de poder e de país um povo como o brasileiro.
Estão
profundamente enganados. Tal pensamento e desejo são uma vã ilusão, que logo
lhes custará caro. Porque não é possível – e nunca será – fazer com que 200
milhões de brasileiros alcancem o bem-estar social e cultural numa economia
agro mineral exportadora, submetida às finanças internacionais e aos interesses
da banca mundial, tendo eles mesmos – a nossa elite – como sócios menores.
A
minoria rica – menos de 1% da população – e os 10% dos que participam de seu
banquete acreditam que podem iludir o povo brasileiro e sua classe
trabalhadora.
Nada
aprenderam com a história e não se dão conta que a memória nacionalista está
mais viva do que nunca e retomará o protagonismo de sempre na busca de justiça
social e liberdade.
Estão
aí a Escócia, o Curdistão e a Catalunha a provarem quão presente é o
nacionalismo quando a opressão e a tirania se impõem sobre um povo, colocando
em risco sua identidade nacional, sua cultura, língua, riquezas, patrimônio e
seu bem-estar social. Nada, nenhuma força no mundo consegue oprimir e dominar
um povo em busca de sua nação e de seu destino.

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