A
perseguição a Lula e a sua família atingiu níveis de uma caçada humana selvagem
e sem regras. Não se trata apenas de algo ilegítimo e ilegal, tornou-se uma
obsessão doentia, uma enfermidade moral que acomete boa parte da nossa mídia e
do nosso sistema judiciário. Algo só comparável à perseguição que judeus
sofreram no nazismo ou que comunistas ou supostos comunistas sofreram, ao longo
do macarthismo.
Não
bastasse a morte de Dona Marisa, precipitada pela lawfare que atinge Lula
injustamente, agora nos deparamos com uma operação abusiva da Polícia Civil,
que invadiu o lar de Marcos Lula da Silva, filho adotivo do ex-presidente, com
base apenas numa suposta "denúncia anônima" sobre suposto consumo de
drogas no local.
Denúncia
anônima ou simples perseguição política? Será que a polícia de São Paulo
invadiria a casa de algum filho ou filha de FHC com base numa suposta
"denúncia anônima"? Algum juiz autorizaria? Duvidamos. Duvidamos
também que fosse autorizada a invasão do lar de algum graúdo tucano, como Aécio
Neves, por exemplo, em circunstâncias semelhantes.
Trata-se,
desse modo, de mais um caso de medida autoritária, injustificada e arbitrária
de autoridades empenhadas em agredir, caluniar e intimidar o melhor presidente
da história do país e o favorito para vencer as eleições de 2018. Trata-se de
mais uma demonstração de truculência do Estado policialesco que o governo
golpista ergueu no Brasil.
Esse
Estado policialesco que não persegue apenas Lula e sua família. Ele ameaça
sistematicamente movimentos populares, trabalhadores, professores, reitores de
universidade, artistas e todos aqueles que ousam se opor ou questionar o golpe
e sua agenda socialmente regressiva.
Esse
Estado policialesco, também chamado de Estado de exceção, torna a distinção
entre democracia formal e ditadura muito tênue e turva.
Com
efeito, a situação do Brasil hoje lembra, de forma muito inquietante, a
situação do Brasil de 1964. Com efeito, o golpe e a Lava Jato criaram uma onda
reacionária e autoritária que varreu a democracia brasileira, criminalizou a
política e golpeou direitos fundamentais, como o da presunção da inocência, por
exemplo. A cassação do voto popular e a luta hipócrita e partidarizada contra a
corrupção "abriram a porteira" para tudo que se vê hoje no Brasil: a
ascensão meteórica do protofascismo, o ressurgimento da censura pela via
judicial, os linchamentos midiáticos, a repressão aos movimentos sociais, a
enganação ideológica da "escola sem partido", o surgimento de juízes
"justiceiros", o atropelamento sistemático dos direitos individuais,
a rejeição furiosa a qualquer agenda progressista, a sanha punitivista contra
qualquer um que não se enquadre nos cânones hipócritas do moralismo de ocasião
e uma cultura omnipresente da delação.
O
reacionarismo é tão profundo e massivo que setores das forças armadas já
prometem até um novo golpe militar. O Brasil do golpe parlamentar é tão
conservador quanto o Brasil do golpe militar de 1964, e a classe média
paneleira sucumbiu a um neoudenismo que faria corar Carlos Lacerda.
Em
1964, como hoje, os delatores, ou melhor, os "dedos-duros" tinham uma
agenda política: denunciar e perseguir qualquer um que fosse progressista ou
perigoso para o regime. Como hoje, o sujeito (um diplomata, por exemplo) podia
perder o seu cargo público se publicasse um artigo de opinião contra o governo.
Como hoje, exposições de arte eram proibidas ao sabor de um moralismo
hipócrita. Como hoje, havia pessoas que se "suicidavam" ao serem
vítimas de perseguições autoritárias. Como hoje, a proteção aos direitos e
garantias individuais era relativizada ou simplesmente suprimida, em nome do
combate aos "subversivos" e aos "corruptos".
Também
podemos fazer uma comparação com o Brasil do golpe com outro período ainda mais
sombrio da história. De fato, o país vive situação similar a que Alemanha viveu
na década de 1920, nos estertores da República de Weimar. Uma situação de grave
crise econômica e política e de falência institucional generalizada, que
compromete a agenda dos grandes interesses econômicos nacionais e
internacionais. Lá, a esquerda ficou isolada, e os partidos tradicionais de
centro e direita, interessados apenas em conter a "ameaça
bolchevique", foram incapazes de fazer frente à ascensão da extrema
direita nazista.
Por
isso, a luta principal hoje no Brasil é a luta contra o fascismo ascendente e o
Estado de exceção e pela redemocratização real do país, com a realização de
eleições livres com a participação de Lula, o único candidato capaz de opor à
agenda reacionária, antissocial e antinacional do golpe. O "fora
Temer" é tão irrelevante quanto a lamentável figura homônima. O
fundamental é a defesa da democracia e dos direitos civis e políticos, que a
geraram, assim como dos direitos sociais, que a sustentam.
Assim,
a defesa de Lula e de sua família se confunde com a luta maior pela democracia
e pela defesa dos direitos de todos nós.
Confunde-se
também com a luta contra a agenda ultraneoliberal do golpe e da onda
reacionária que tomou conta do Brasil, a qual extingue direitos sociais,
desmancha o Estado de Bem-Estar e vende a soberania nacional e a dignidade do
país.
Em
todo o mundo, o conflito entre o neoliberalismo concentrador e excludente e a
democracia está dolorosamente exposto, como denuncia Picketty. Mas, no Brasil,
esse conflito tornou-se aberto e agudo. No nosso país, o golpe e sua agenda
reacionária e concentradora exigem explicitamente o sacrifício da população,
especialmente dos mais pobres, bem como o sacrifício da democracia real. No
Brasil, o nosso neoliberalismo selvagem exige o sacrifício do humano.
Portanto,
não é apenas Lula e sua família que estão sendo caçados. A caçada aos direitos
civis e sociais atinge toda a população. Essa mistura tóxica de golpe, fascismo
ascendente e neoliberalismo selvagem caça tudo que é humano e civilizado.
A
caçada humana é, pois, contra todos nós.
Felizmente,
Lula não será detido por essa campanha judicial e midiática vergonhosa contra
ele e sua família. A população já começa a entender que Lula é vítima de juízes
e procuradores partidarizados que, incapazes de comprovar qualquer crime
cometido pelo ex-presidente, constroem uma barreira de falsas acusações e
mentiras convictas para impedir sua candidatura vitoriosa. A população já
começa a entender que é ela que está sendo realmente perseguida.
Contra
nossas oligarquias selvagens e míopes e contra a pressão avassaladora de
interesses externos do grande capital financeiro, nossa humanidade talvez tenha
outra chance de ser recomposta.
Talvez
em 2018, o Brasil possa ter uma chance de cessar essa caçada insana ao humano e
investir, de novo, na construção de um país inclusivo, justo e soberano. Um
país generoso e humano como seu povo. Como Lula.
https://www.brasil247.com/pt/colunistas/marcelozero/321942/Ca%C3%A7ada-humana.htm

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