Nos
tempos em que vivemos, muita coisa é velha. São filmes que já vimos, com
enredos conhecidos. Em alguns casos, até os atores são os mesmos. Mas há uma
novidade perturbadora no ar.
A
direita sempre foi forte no Brasil. Raros foram os momentos em que ela
enfraqueceu e teve de partilhar o mando. Quando foi forçada a refluir, voltou
furiosa, querendo reassumir integralmente as rédeas. Sem pesar as consequências
de seus atos, aliando-se a quem estivesse disponível.
Em
1964, para obstruir as reformas de João Goulart, foi aos quartéis pedir aos
militares que dessem um golpe. Anos depois, com medo do “perigo vermelho”
representado pelos que resistiam ao arbítrio, aplaudiu o recrudescimento da
repressão e da tortura.
Ela
considerava a ditadura e os “excessos” das Forças Armadas um mal necessário.
Tratava os “bolsões sinceros, porém radicais” no oficialato com tolerância,
como se fossem o preço que a sociedade tivesse de pagar pela “moralização” e a
“luta contra o comunismo”.
Sem
contar a parte que meteu as mãos na sujeira, abrindo o bolso para financiar o
braço clandestino da repressão ou lhe dando suporte material (alguém se esquece
dos carros que a Folha de S.Paulo colocava à disposição da Operação
Bandeirantes?).
A
direita viu o apodrecimento do autoritarismo e aceitou a redemocratização,
supondo que conseguiria se manter no poder indefinidamente, à custa de manobras
eleitorais e do controle da formação de opiniões. Ganhou as três primeiras
eleições, mas ficou nisso. Para voltar ao poder, deu um golpe.
É
de assombrar que parte da esquerda reaja com espanto ao comportamento atual da
indústria de comunicação. Os oligopólios familiares que controlam a mídia
apenas repetem o que nunca deixaram de ser.
Em
todas as encruzilhadas com que a sociedade brasileira se defrontou nos últimos
70 anos, as Organizações Globo e seus satélites sempre escolheram o lado
errado. Foram contrárias a qualquer avanço civilizatório e favoráveis a um
capitalismo cego, excludente e sem projeto de País. Em seu nome, toparam
referendar golpes de Estado e ditaduras, e apoiar a interpretação “flexível” da
Lei.
Também
não há nada de novo no fato de o governo dos Estados Unidos haver ajudado no
golpe contra Dilma Rousseff, aliando-se a grupos sublevados da burocracia.
Tampouco que organizações norte-americanas de ultradireita tenham financiado
manifestações “espontâneas” no Brasil, para enfraquecer o governo petista. Quem
conhece a história da América Latina do início dos anos 1960 para cá não tem
por que se admirar.
Direita
à vontade, a “grande imprensa” repisando suas teclas, governo e milionários
americanos defendendo seus interesses, tudo isso é velho. Como é velho que
generais esbravejem contra a democracia, candidatos reacionários procurem
eleitores reacionários e líderes religiosos obscurantistas se oponham à
convivência social contemporânea.
A
diferença entre o Brasil de hoje e o de ontem não está nas coisas velhas. A
novidade é o tamanho que assumiu um personagem que era pouco significativo na
vida política, mas que, ao crescer desmesuradamente, tornou-se fonte de
perturbação do jogo democrático.
São
as corporações de profissionais de algumas carreiras no Judiciário, no
Ministério Público e em segmentos do Executivo (como a Polícia Federal) e do
Legislativo (como os Tribunais de Contas).
Compartilham
alguns atributos. Querem definir por conta própria a missão que têm a
desempenhar, rejeitam qualquer controle externo e aspiram à
autorregulamentação, pretendendo legislar a respeito de tudo que lhes diz
respeito (a começar pelo que querem ganhar e quais vantagens e privilégios
querem ter).
Ao
contrário do padrão de imparcialidade do funcionalismo nas democracias maduras,
são escancaradamente partidarizadas, quase sempre pendendo para a direita.
Formam um conjunto inorgânico e sem hierarquia, que se movimenta de maneira
atabalhoada e perigosa.
Nasceram
como um avanço da Constituição de 1988, mas tornaram-se fator de instabilidade
institucional permanente. Quem criou o monstrengo em que se transformaram foi a
direita política, empresarial e midiática, que achou que as usaria para
derrotar a esquerda e depois as manteria sob controle.
Temos
anos complicados à frente. É indispensável acabar logo com o despropósito do
governo de Michel Temer, fazendo eleições presidenciais de verdade com a
participação de Lula. Mas é preciso também que encontremos meios para consertar
a bagunça institucional que essas corporações estão provocando e ainda vão
causar, caso não sejam trazidas de volta à normalidade institucional.
https://www.cartacapital.com.br/revista/974/a-novidade-perturbadora-da-politica

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