Uma
das particularidades do processo boliviano é a relação que estabelece em suas
políticas com a “Mãe Terra”. Por isso, é tão ouvida a voz de Evo Morales às
vésperas da Cúpula sobre a Mudança Climática, que acontecerá em Paris no final
deste mês.
No
final de novembro, Paris será o palco da Cúpula sobre a Mudança Climática (COP
21) e, nesse contexto, a voz do presidente boliviano é uma aliada de peso da
presidência francesa. Na COP 21 será preciso chegar a um ainda improvável
acordo para reduzir, até 2030, os gases de efeito estufa, responsáveis pelo
destrutivo aquecimento global.
O
problema maior reside em que o Ocidente exige um esforço considerável dos
países em desenvolvimento, que não têm a responsabilidade central na emissão de
gases poluentes. E ali reside um dos principais antagonismos do encontro
parisiense. Os tempos de uns e outros são incompatíveis. Apesar das esperanças
e dos bons desejos, o clima divide ricos e menos ricos.
A
entrevista é de Eduardo Febbro, publicada por Página/12, 10-11-2015. A tradução
é de André Langer.
Eis
a entrevista.
Paris
estará, em poucas semanas, no centro do debate para salvar o planeta do
aquecimento global. A última grande cúpula sobre o clima, realizada em
Copenhague em 2009, foi um fracasso rotundo. Você acredita que em Paris se dará
um salto qualitativo na proteção do meio ambiente?
Entre
os povos e os movimentos sociais do mundo há muita consciência e muito
compromisso; também há muito esforço e sacrifício pela mãe Terra, pela vida e a
humanidade. Esperamos que estes sentimentos e pensamentos profundos dos povos
do mundo sejam ouvidos pelos governos e os representantes de cada Estado. Após
tantos fracassos e graças ao debate sobre o desenvolvimento sustentável 2030
que aconteceu nas Nações Unidas conseguimos entender que esta é a única
oportunidade. É o melhor momento para que os governos e os povos do mundo se
coloquem de acordo. Esperamos que os representantes das nações tomem decisões
para o bem da vida e da humanidade.
De
qualquer forma, há uma luta muito forte dentro do capitalismo entre as
indústrias que continuam a explorar as energias fósseis e as outras que lutam
para desenvolver energias renováveis. Os grandes bancos do mundo investem mais
nas energias fósseis do que nas renováveis. Estes setores não podem dobrar a vontade
política?
À
margem do enfrentamento entre as empresas privadas que são especialistas em
explorar as energias fósseis e outros empresários que, talvez, têm mais
consciência na energia limpa, é importante que aquelas que promovem essa
energia limpa vão se desenvolvendo. E isto sem as muitas proteções econômicas
de outras empresas que estão explorando as energias fósseis. Quero dizer que
com a Alemanha e a França estamos avançando, como Estados e seguramente com a
participação do setor privado, no campo da energia eólica e solar.
Com
a Alemanha já decidimos instalar uma montadora de sistemas eólicos e não
somente para a Bolívia, mas para a América do Sul. Seria muito bom que a
Bolívia fosse o coração de toda a América do Sul. Há também a questão da energia
solar e todas as outras mudanças profundas que existem no uso do combustível:
trens elétricos, carros hidráulicos, por exemplo. Se a energia limpa é uma
solução mais barata, automaticamente declinarão aqueles que comercializam as
energias fósseis. Os Estados devem apoiar essas energias porque a energia deve
ser, assim como a água, um direito humano. A nossa obrigação como Estado é
atender esse direito e garantir a energia e a água.
Na
Cúpula de Copenhague, em 2009, o presidente Chávez disse: “Mudem o sistema, não
o clima”.
Isto
continua em vigor. É um pedido clamoroso. Estamos em um sistema fracassado, com
um modelo falido, com povos ameaçados e com uma mãe Terra insegura na sua
existência dentro do sistema. Como podemos seguir apoiando este sistema? Sigo
convencido de que o pior inimigo da humanidade é o sistema capitalista.
A
América Latina, particularmente o Mercosul, traz alguma proposta coletiva a
esta cúpula de Paris?
Há
uma só mensagem por parte dos povos do mundo e não apenas da América Latina.
Mas há algumas conclusões elaboradas na Cúpula de Tiquipaya (Departamento de
Cochabamba) e há alguns dias terminou, em Quito, no Equador, uma reunião de
ministros do Meio Ambiente onde foi preciso lamentar a ausência de alguns
países. Não escutam os seus povos.
Na
cúpula dos movimentos sociais pela mudança climática de Tiquipaya havia 400
delegados do Chile, e também sua ministra do Meio Ambiente estava presente. Mas
se opôs a reconhecer ou ressaltar as conclusões. Denuncio publicamente os
fatos, mas não se trata de problemas bilaterais, estamos falando da vida.
Estamos falando da mãe Terra, estamos falando de como salvar a mãe Terra para
salvar a humanidade. É um tema profundo e temos diferenças profundas. Aqui, a
contribuição do movimento indígena, e não apenas do continente, mas do mundo,
consiste em como viver e como estar em harmonia com a mãe Terra. Aqui há uma
diferença profunda com o sistema capitalista. Os países do Sul não seremos os
guardas florestais do império.
Nos
últimos anos circula no Ocidente essa ideia, essa noção, que nasce entre os
povos indígenas: o bem viver. Por um lado, existe o feroz desenvolvimentismo do
sistema capitalista e, por outro, certa receptividade nas pessoas diante dessa
aspiração a uma consonância entre o ser e o mundo natural. O capitalismo está
hoje em crise em todas as partes. Qual seria a contribuição da voz da Terra
para essa crise?
A
melhor contribuição são as propostas que provêm da Cúpula de Tiquipaya; e
também que os Estados escutem, entendam e implementem essas conclusões. Evidentemente,
cada continente e cada país tem sua própria particularidade, mas essas
particularidades devem ser adequadas às nossas formas de vivência, nossos
antepassados, nossas experiências harmônicas com a mãe Terra. Isto significa
viver em comunidade, em coletividade, em complementaridade, em solidariedade e
não em competição. Talvez na Europa seja importante o aspecto competitivo, mas
se na Bolívia chegamos onde estamos é graças a essas políticas de
complementaridade e solidariedade.
Presidente,
o Papa Francisco e sua encíclica sobre a ecologia deram a volta ao mundo. Como
avalia este homem que na Europa é visto com muita admiração assim como com
receio?
Agora
sinto que tenho um papa. Agora sinto e creio. Declaro-me profundamente de
Cristo. Por isso, temos que rezar para que o Papa continue vivo.
Fonte:
http://www.ihu.unisinos.br/noticias/548892-nao-seremos-guardas-florestais-do-imperio-entrevista-com-evo-morales

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