Lev
Davidovitch Bronstein nasce na Ucrânia, em 1879, filho de um proprietário de
terras judeu. Aos 18 anos juntamente com sua esposa Alexandra e um pequeno
grupo de militantes, funda a União dos Trabalhadores do Sul da Rússia. Preso
pela polícia czarista, é condenado a quatro anos de deportação na Sibéria. Em
1902, após adotar o pseudônimo que o identificará por toda a vida (copiado de
um de seus carcereiros), Trotsky foge da prisão e vai encontrar-se com Lenin em
Londres, onde era editado o jornal Iskra (Centelha), órgão do Partido Operário
Social-Democrata Russo.
No
II Congresso do partido, em 1903, ocorre a divisão entre bolcheviques
(maioria), liderados por Lenin e os mencheviques (minoria), que defendem o
protagonismo da burguesia liberal na revolução democrática, contra a monarquia
czarista. Trotsky diverge radicalmente
da estratégia menchevique, mas vota contra os bolcheviques na questão da
organização partidária, fazendo duras críticas às concepções leninistas, que
considerava centralizadoras e autoritárias. Às portas da revolução de 1917,
quando adere ao bolchevismo, Trotsky fará autocrítica das posições que havia
adotado durante e após o histórico congresso, sobre concepção partidária e sua
insistência em buscar a conciliação entre mencheviques e bolcheviques
(subestimando, inclusive, suas brilhantes análises naquele debate).
A
revolução russa de 1905 teve destacada participação de Trotsky, que assume a
presidência do primeiro soviete (conselho) da história da classe trabalhadora,
em São Petersburgo (futura Petrogrado), e após a derrota do movimento escreve o
seu relato. Primeira revolução do século XX, iniciada com a crise do regime
czarista, provocada pelas greves dos trabalhadores e pela derrota militar
frente ao Japão, teve como marco o “domingo sangrento”, em que milhares de
manifestantes foram fuzilados pelas tropas, diante do palácio do czar. A
revolução de 1905 marca o surgimento dos sovietes e da greve geral de massas
como criações políticas revolucionárias da luta de classes, e exerce forte
impacto nas concepções teóricas de Trotsky, Lenin e Rosa Luxemburgo.
Após
a revolução de 1905, Trotsky publica um pequeno livro que se mostra profético,
“Balanço e Perspectivas”, onde antecipa a estratégia vitoriosa da Revolução
Russa. Nessa obra ele resgata o conceito de revolução permanente de Marx, e
sustenta o caráter socialista e internacional da revolução na Rússia, sob a
direção política da classe operária em aliança com os camponeses – ao contrário
dos bolcheviques, que defendiam o caráter democrático burguês da revolução. Uma
década depois, Lenin adota essa estratégia em suas “Teses de abril”,
reorientando o partido bolchevique para a vitória comunista de 1917.
Em
1914, explode a Primeira Guerra Mundial, com a capitulação da social-democracia
frente à guerra imperialista, e seus 10 milhões de mortos marcam tragicamente a
traição histórica da Segunda Internacional ao socialismo. Em 1915, a esquerda
internacionalista contrária à guerra se encontra na Conferência de Zimmerwald,
na Suiça, e as posições de Lenin e Trotsky se reaproximam. Com a fome e a
mortandade provocada pela guerra, explode a revolução de fevereiro de 1917, que
derruba o czarismo e implanta o governo provisório. Trotsky embarca de volta à
Rússia, e chega a Petrogrado um mês depois de Lenin ter desembarcado na famosa
Estação Finlândia, e reorientado os rumos do partido bolchevique na oposição ao
governo provisório (formado por burgueses liberais e monarquistas
constitucionalistas, e depois com a participação de socialistas-revolucionários
e mencheviques) que insistia em manter a Rússia na guerra, barrava a reforma
agrária e reprimia os trabalhadores e os camponeses.
“Todo
o poder aos sovietes” foi a palavra de ordem que Lenin lançou às massas
radicalizadas pela guerra e a fome, abrindo o caminho para a revolução de outubro.
Em julho, Trotsky ingressa no partido e no comitê central bolchevique com a sua
organização Interdistrital. Em setembro, é eleito novamente presidente do
Soviete de Petrogrado, e logo depois coordenador do Comitê Militar
Revolucionário, órgão responsável pela organização da tomada do poder. Em
novembro (outubro pelo antigo calendário russo), irrompe vitoriosa a primeira
revolução socialista da história, sob direção bolchevique e o lema de “Paz, pão
e terra”.
Em
1923, Lenin propôs a Trotsky uma aliança contra Stalin (que detinha a
secretaria-geral do partido) e o combate conjunto à nascente burocratização da
revolução. Com a morte de Lenin, Stalin acaba derrotando Trotsky na disputa
interna pelo comando da Revolução Russa.
Porém,
havia a guerra com a Alemanha, o bloqueio e a intervenção militar das potências
ocidentais contra a Rússia. Trotsky torna-se Comissário do Povo para as
Relações Exteriores, chefia as negociações com o alto comando alemão e
desenvolve nesse período uma intensa agitação dirigida ao proletariado europeu,
em que denuncia as chantagens imperialistas. Porém, no início de 1918 a jovem
república soviética é obrigada a assinar a Paz de Brest-Litovsk, imposta pela
superioridade militar alemã. No plano interno, era o caos com a guerra civil e
os exércitos brancos contrarrevolucionários atacando em três frentes, a
oposição de mencheviques e socialistas-revolucionários, e a terrível crise
econômica, com o colapso da produção agrícola, industrial e dos transportes. A
revolução estava em perigo.
Trotsky
torna-se Comissário do Povo para Assuntos Militares e organiza o Exército
Vermelho, onde combina oficiais do antigo exército czarista, que se mantém
leais ao novo governo com a supervisão de comissários políticos bolcheviques.
Depois de passar dois anos atravessando a Rússia em um trem blindado, de onde
comanda o Exército Vermelho durante a guerra civil (e onde escreve “Terrorismo
e comunismo”, provavelmente seu pior livro), Trotsky conquista a vitória sobre
os exércitos brancos em 1920. Porém, em março de 1921, o X Congresso do Partido
Bolchevique defronta-se com a revolta dos marinheiros do Kronstadt e revoltas
camponesas, ambas, sob influência anarquista, são esmagadas pelo poder
soviético. Nesse contexto, o Congresso bolchevique suspende, em caráter
extraordinário o direito de tendências no partido, e Lenin lança a Nova
Política Econômica (a NEP), que substitui a fase do comunismo de guerra. Após
as derrotas das revoluções na Alemanha, na Finlândia e na Hungria, o isolamento
da Rússia soviética era total.
Em
1919 Lenin convoca o congresso de fundação da Internacional Comunista e Trotsky
redige seu Manifesto (ele vai escrever, também, o Manifesto do II e as Teses do
III Congresso). Em 1923 Lenin propõe a Trotsky uma aliança contra Stalin (que
detinha a secretaria-geral do partido) e o combate conjunto à nascente
burocratização da revolução. Trotsky organiza a Oposição de Esquerda, mas em
janeiro de 1924 Lenin morre. Stalin lança uma campanha de filiação partidária
de massas, chamada de “recrutamento Lenin”, e apresenta a teoria antimarxista
do “socialismo em um só país”.
Entre
1925 e 1927, Trotsky é afastado das suas funções no governo e na direção do
partido, até sua expulsão da União Soviética, em 1929. Nesse período, Trotsky
escreve algumas de suas obras mais importantes: “Literatura e Revolução”, em
defesa de uma arte e cultura socialista; “A Internacional Comunista depois de
Lenin”, onde faz um balanço devastador da política internacional do stalinismo;
“A Revolução Desfigurada”, onde responde às calúnias e falsificações históricas
sobre o seu papel na revolução, e defende a luta política da oposição contra a
burocracia stalinista; “Minha Vida”, sua autobiografia; e “A Revolução
Permanente”, em que retoma e desenvolve suas teses formuladas anos antes.
Trotsky vive exilado na Turquia até 1933, onde escreve os três volumes de sua magistral “História da Revolução Russa” e os “Escritos sobre a Alemanha” (editado no Brasil por Mário Pedrosa, sob o título “Revolução e contrarrevolução na Alemanha”), duas obras primas do marxismo. Depois de passar pela França e pela Noruega, sob pressão diplomática e ameaças constantes, Trotsky finalmente encontra abrigo no México, graças ao presidente nacionalista Lázaro Cárdenas.
No
exílio mexicano, hospedado com sua segunda esposa, Natália Sedova, inicialmente
na casa do grande muralista Diego Rivera e da artista plástica Frida Khalo, e
depois na casa da rua Viena, a atividade de Trotsky continua sendo o combate
incansável contra a burocracia stalinista. Ele denuncia a traição histórica do
partido comunista e da social-democracia ao movimento operário alemão, por se
recusarem a cerrar fileiras em uma frente única, permitindo a chegada do
nazismo ao poder, sem luta; denuncia a traição da revolução espanhola pelo
stalinismo e os abjetos Processos de Moscou na Rússia (nos quais Stalin elimina
fisicamente toda a “velha guarda” bolchevique).
Em
1936, Trotsky escreve “A Revolução Traída”, caracteriza a União Soviética como
um “Estado operário burocraticamente degenerado”, defende a derrubada da
ditadura stalinista pelos trabalhadores, através de uma “revolução política”,
que resgate a democracia socialista e o poder dos sovietes com
pluripartidarismo. Ele afirma então que, ou a classe operária derruba o regime
burocrático, ou cedo ou tarde, haverá o retorno ao capitalismo, e declara: “um
rio de sangue separa o stalinismo do bolchevismo”. Eram tempos
contrarrevolucionários: stalinismo, fascismo, a Grande Depressão capitalista.
“Era meia-noite no século”, declara o companheiro de Oposição de Esquerda e
biógrafo de Trotsky, Victor Serge. A Segunda Guerra Mundial apontava no
horizonte.
Trotsky
passa seus últimos anos de vida no México, tentando organizar a Quarta
Internacional – fundada em Paris, em 1938, sem a sua presença, por razões de
segurança. Escreve o Programa de Transição, com o objetivo de formar uma nova
geração de marxistas revolucionários (ele não chama o seu movimento de
“trotskista” mas “bolchevique-leninista”), que garantisse a herança e a
continuidade da Revolução de Outubro e da Oposição de Esquerda. Após sobreviver
ao atentado organizado por membros do Partido Comunista mexicano, armados de
metralhadoras, finalmente o braço assassino de Stalin alcança Trotsky. Em 20 de
agosto de 1940, o agente stalinista Ramón Mercader, infiltrado na
casa-fortaleza de Coyoacan, ataca-o pelas costas em seu escritório, e fura o
seu cérebro com uma picareta. Ele resiste por mais um dia, vindo a falecer em
21 de agosto. Na mesa de trabalho de Leon Trotsky, os seus últimos escritos
sobre a polícia secreta e os métodos criminosos de Stalin, restam manchados de
sangue.
http://www.sul21.com.br/jornal/os-75-anos-da-morte-de-leon-trotsky/

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