Após
o golpe militar em 1964, muitos trabalhadores, militantes e estudantes não
aceitaram o novo regime e resolveram resistir. É o caso da educadora Marília
Guimarães, que lutou contra a ditadura até sequestrar um avião com seus filhos
e camaradas e se exilar na ilha socialista onde ajudou a alfabetizar milhares
de pessoas.
Nos
anos 1970, Silvio Rodríguez, um dos maiores cantores e compositores cubanos,
escrevia: “Vivo en un país libre/ Cual solamente puede ser libre/ En esta
tierra, en este instante/ Y soy feliz porque soy gigante.// Amo a una mujer
clara/ Que amo y me ama”.
A
mulher a quem o fundador da Nova Trova Cubana se refere é uma brasileira.
Marília Guimarães, educadora, militante comunista, guerrilheira e ex-professora
na Universidade de Havana, que tem uma história repleta de reviravoltas e
inspirações para todos aqueles que batalham por um mundo melhor.
A
Jacobin Brasil conversou com ela, que perto dos 80 anos, nos ensina de que
material é feita uma lutadora
JB
Como você se tornou socialista? Quais foram os fatores decisivos para sua escolha de ser militante?
MG
A minha primeira grande referência de justiça social foi a minha avó, que era uma fazendeira e levava uma vida muito simples, pois era viúva desde jovem. Apesar de ser uma mulher muito religiosa, ela era extremamente contra o casamento. Mesmo sem compreensão social, ela não considerava justo a mulher cuidar dos filhos, da casa, no caso dela, da fazenda, e não ficar com o dinheiro. Minha avó viu dinheiro pela primeira vez só depois que ficou viúva.
Ela
tinha um comportamento muito socialista. Aos sábados reunia um número grande de
moradores de rua e distribuía verduras, legumes, ovos e roupas de doação. Isso
era uma constante na minha vida, ver minha avó repartir tudo o que tinha com
quem precisava, foi com ela que aprendi o que era miséria e a respeitar os mais
pobres.
Quando
concluí o magistério, em uma escola de freiras que alimentou minha rebeldia,
conheci um companheiro chamado Mauro, um estalinista filho de um dirigente do
PCB. Tínhamos 17 anos e nos reuníamos na casa de amigos para estudar, líamos
muito Stálin e éramos stalinistas ferrenhos, mas ao entrar na universidade no
começo dos anos 1960 encontramos outras correntes do marxismo e ampliamos
nossos horizontes. Foi assim que comecei minhas atividades políticas.
Quando
a gente faz uma escolha como essa é muito difícil se afastar desse caminho,
ainda mais porque é um caminho que leva a um mundo melhor. Mesmo com todas as
pedras e as muitas dificuldades é prazeroso e compensador. Conseguir mudar nem
que seja um pouquinho desse mundo tão cruel em que vivemos é um alimento para a
vida.
JB
O início da sua militância coincidiu com o golpe militar de 1964. Como foram esses primeiros momentos? O conjunto dos militantes, os jovens principalmente, tinha consciência de que se tratava de um golpe? Que tipo de informações vocês tinham à disposição para se preparar e porventura reagir?
MG
Pude assistir ao golpe militar de 1964 na porta da minha casa, literalmente. Eu morava em frente ao Palácio das Laranjeiras, consegui ver toda a movimentação dos militares, mesmo que a princípio não soubéssemos do que se tratava.
O
golpe contra Jango [João Goulart, então presidente do Brasil] não aconteceu da
noite para o dia, já vinha sendo preparado há algum tempo. Era o período em que
as ligas camponesas estavam sendo criadas, e nós estávamos em uma gráfica
costurando as cartilhas da reforma agrária. Quando cheguei em casa, lá pelas 3
da manhã, a rua estava fechada com caminhões de lixo, impedindo o acesso ao
palácio.
“A
partir daquele dia, 90% do secretariado de João Goulart precisou ir para o
exílio, e nossa tarefa era ajudá-los a chegar nas embaixadas.”
Me
aproximei do Parque Guinle e pude ver tanques de guerra protegendo o palácio.
Não consegui dormir mais. Quando as coisas começaram a ficar muito esquisitas,
chamei meus companheiros. Às 7 da manhã assistimos a Jango indo embora de
helicóptero. Nas rádios já podíamos ouvir Brizola dando início à campanha da
legalidade.
A
partir daquele dia, 90% do secretariado de João Goulart precisou ir para o
exílio, e nossa tarefa era ajudá-los a chegar nas embaixadas. Era mais difícil que
nós levantassem suspeitas com os militares, ainda não passava pela cabeça deles
que jovens estudantes pudessem estar envolvidos em ações políticas. As
primeiras grandes manifestações de rua só começaram a ocorrer quando a ditadura
as proibiu.
Entretanto,
a consciência de que se tratava de um golpe foi imediata, assim que soubemos
que Jango fugiu para o Uruguai, entendemos que o golpe estava consumado.
Mas
foi com a queda de Carlos Lacerda, que na época era governador do Rio de
Janeiro, que começamos a nos dar conta de que uma etapa estava sendo encerrada.
Era o fim da esperança de um Brasil melhor, onde os trabalhadores teriam alguma
chance de uma vida mais digna, onde ainda se sonhava com a reforma agrária. Foi
de fato um choque, até porque ainda não tínhamos nenhuma experiência para
produzir análises profundas acerca da situação.
Mesmo
assim, carregamos Lacerda nos braços. E então começou o período mais duro da
ditadura. As manifestações cresceram, assassinaram o secundarista Edson Luís,
deputados começaram a perder os seus mandatos e estudantes foram enviados ao
calabouço. Conforme o regime dava maiores demonstrações de endurecimento, a
gente reagia de forma cada vez mais radicalizada.
JB
Do ponto de vista do clima político ou dessa primeira reação ao golpe, você enxerga algum paralelo com o processo contra Dilma Rousseff em 2016?
MG
Estamos vivendo um momento com muitas semelhanças, no fundo acredito que é igual. Ou no mínimo muito parecido. Embora tenhamos resistido ao impeachment da Dilma no parlamento e nas ruas, estamos falando de um golpe que, mais uma vez, não fomos capazes de impedir. A nossa resistência ao avanço do bolsonarismo se deu nos palanques, e não através de uma mobilização profunda dos trabalhadores, mesmo que ainda pudéssemos ver a força e a organização de setores importantes como o mst. Acontece que muitas vezes gritar não basta. Nós não temos ao nosso lado os meios de comunicação, as rádios e as televisões que bombardeiam o povo todos os dias.
A
mídia não é nossa. A Globo, por exemplo, é forte porque, em definitivo, pode
contar com capital estrangeiro. Ela mantém parte de sua infraestrutura,
equipamentos e estúdios com esses investimentos. Mas o capital intelectual é
inteiramente brasileiro, pertence a quem escreve, aos jornalistas e artistas,
que trabalham ali para viver. O Brasil é um país de um enorme capital
intelectual, temos cabeças maravilhosas, como Pixinguinha, Heitor Villa-Lobos,
Gonzaguinha, Ariano Suassuna, Nelson Cavaquinho, Chico Buarque, veja que
cultura forte que temos nas mãos. Porém nos falta um projeto nacional de
cultura capaz de ligar arte e estudos, e que promova encontros diferentes nas
nossas comunidades.
Aqui
cabe uma autocrítica. Vivemos os 14 anos do PT em euforia, sem nos dar conta
das tarefas que deixamos de cumprir, estávamos experimentando a alegria dos
pobres que conseguiram comprar uma geladeira, daqueles que precisavam de
comida, e sair da linha da miséria era prioritário, mas, para aqueles que já
tinham vivido uma experiência tão drástica como o golpe de 1964, não deveríamos
estar tão despreocupados.
Nossa
tarefa era organizar e mobilizar a sociedade. Tivemos 14 anos para isso. Para
entrar nas comunidades, na periferia, montar grupos de base, eram esses os
setores que deveriam estar mobilizados no governo. Quando o golpe contra a
Dilma se consumou, só nos restavam as ruas, mas a direita já estava preparada
para colocar milícias e fake news a serviço de suas vitórias. Só as ruas não
bastam.
JB
Como você se tornou socialista? Quais foram os fatores decisivos para sua escolha de ser. O que foi diferente dos anos 1960? De que forma o movimento e os partidos de esquerda se prepararam para a resistência naquele momento? militante?
MG
Ao tomar consciência do golpe de 1964 e dos atos da ditadura entre 1966 e 1967, já sabíamos que não venceríamos apenas pelas palavras, tampouco só pelos livros ou pelas passeatas, essas alternativas já tinham sido testadas. Para o grupo do qual eu fazia parte, só havia uma saída naquele momento: as armas.
Não
tínhamos outra alternativa, queríamos acabar de qualquer maneira com aquela
ditadura, queríamos mudar o Brasil. Viramos o disco e partimos para a luta
armada, seguindo os inúmeros exemplos que chegavam de toda parte do mundo.
Cuba
era nosso maior modelo, pois demonstravam que era possível vencer uma guerra
com apenas 12 homens, ainda que soubéssemos que a Revolução Cubana era fruto de
todo um processo de construção e algumas características específicas que
permitiram esse pequeno grupo sair de Sierra Maestra e triunfar em Havana. Nós
não tínhamos um histórico que permitisse que 12 homens chegassem até a avenida
Rio Branco.
“A
minha visão sobre Cuba era a que todo mundo tinha, um país pobre, triste,
miserável, mas eu encontrei avenidas lindas, coloridas, muita beleza.”
Ainda
assim, conseguimos formar nossas organizações revolucionárias, mesmo que
recheados de diferenças entre nós. O grupo de Marighella, por exemplo,
acreditava que deveríamos sair do país para fazer o treinamento em Cuba, já a
minha organização na época, a Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), era
contra, porque acreditávamos na necessidade de um treinamento em solo
brasileiro, com a vegetação e os animais dos nossos biomas que, ao contrário
dos encontrados na ilha, são peçonhentos. Não podíamos arriscar ter alguém
picado por um escorpião na mata adentro, até porque não havia médicos à nossa
disposição. É difícil demais organizar uma guerrilha.
JB
Nesse período de transição para a guerrilha, você também foi diretora de uma escola. Como continuou desenvolvendo sua atividade como educadora em paralelo às tarefas da organização? Havia uma relação entre o trabalho na educação e o político?
MG
No final do ano de 1965 começamos a delimitar o que seria essa nossa guerrilha. Dentro da organização, quem terminasse a faculdade tinha que ir em busca de trabalho, e eu por sorte pude ser diretora de uma escola.
Eu
já trabalhava com alfabetização de adultos usando o método Paulo Freire. Utilizava
o que tinha aprendido para educar tanto as crianças de classe média da Zona Sul
do Rio como as da comunidade do Acari, já que frequentavam a minha escola
alunos de classe média baixa e que não tinham nem comida em casa.
Paulo
Freire e os debates mais modernos de educação faziam toda a diferença naquela
época. Precisávamos não só atender às demandas educacionais, como também
distribuir comida, remédios (no geral vitaminas que os companheiros que
trabalhavam nas farmacêuticas doavam). Sempre nos esforçamos para inventar
técnicas que melhorassem a didática das aulas, para modernizar o ensino,
fugindo da educação focada em decorar a tabuada ou as vogais.
“Em
uma escola cubana, os alunos estudavam desde os filósofos gregos até a teoria
do conhecimento na crítica moderna do pensamento.”
Adotamos
por completo a experiência que Paulo Freire nos trazia, a noção de que era
preciso centralizar o processo de aprendizado na experiência e nas dificuldades
individuais, de modo que as pessoas fossem alcançando conhecimento e uma visão
mais crítica de mundo. Foi assim que conseguimos alfabetizar centenas de
indivíduos. Não é uma tarefa fácil ensinar a ler e a escrever uma pessoa,
muitas vezes com mais de 60 anos, que perdeu muito tempo em um mundo sofrido,
de fome e de miséria.
A
minha escola ia muito bem, cheia de alunos, e ao mesmo tempo servia de fachada
para a guerrilha, uma tremenda fachada, porque ninguém podia imaginar que no
meio de 80 crianças e adolescentes havia armas escondidas, o governo não fazia
ideia.
Usávamos
a escola para fazer reuniões e organizar as ações das quais eu muitas vezes
participava. E foi por causa de um mimeógrafo que ficava escondido nessa escola
que eu fui obrigada a entrar na clandestinidade.
JB
Um mimeógrafo?
MG
Os militares foram até a escola me prender pois eu havia comprado o mimeógrafo que utilizamos para confeccionar materiais clandestinos com um companheiro que já havia sido assassinado em Belo Horizonte. Quando o Exército chegou, eu disse que não poderia ser presa pois o mimeógrafo não era meu, eu o havia vendido, e apresentei o recibo de venda. Era o meu plano de fuga.
Ainda
assim eles queriam me levar, mas eu disse que não podia ir, pois estava suja.
Agi como se fosse uma burguesinha e consegui ir para casa. Peguei meus filhos
Marcelo e Eduardo, que na época eram muito pequenos, com um e dois anos, entrei
na clandestinidade e andei por esse país cada dia na casa de uma pessoa.
JB
Quanto tempo vocês ficaram na clandestinidade? Foi durante esse período que você participou do famoso sequestro do voo comercial da Cruzeiro do Sul?
MG
Nos primeiros meses na clandestinidade, nós éramos contra qualquer forma de sequestro porque era um tipo de ação muito arriscado e poderíamos ser pegos facilmente. Porém, depois do primeiro ano clandestina, a vida começou a ficar insuportável, inclusive era muito parecido com esse período de pandemia e isolamento social, só que sem a internet, com duas crianças para alimentar, entreter e educar, sem dinheiro para comer. Foi um período duro. Até que a única possibilidade que nos restou era um sequestro.
O
sequestro não podia ser feito no Brasil, não tínhamos nenhum documento e
obviamente poderíamos ser presos. Fazia um ano que o Exército estava nos
procurando e muitos companheiros já estavam presos. Alguns inclusive relataram
que, na esperança de que eles entregassem algum nome, os torturadores falavam
que eu já havia sido capturada e usavam uma gravação com o que seria o choro
dos meus filhos, dizendo se tratar dos filhos “daquela vagabunda”.
Fui
para Porto Alegre para estar próxima da fronteira e por 15 dias, enquanto eu
preparava tecnicamente o sequestro, meus filhos ficaram sob os cuidados da
ex-presidenta Dilma Rousseff, que, diga-se de passagem, cuidou muito bem deles.
Quando estávamos prontos, atravessamos a fronteira do Uruguai com documentos
falsos e sequestramos o avião comercial em Montevidéu. Pegamos uma aeronave que
originalmente voltaria para o Brasil, havia 68 passageiros e 7 tripulantes.
Tivemos sorte pois o comandante já tinha passado por um sequestro antes e
entendia os protocolos. Ele tentou nos dissuadir, dizendo que a aeronave era
velha, sem autonomia de voo e que tinha uma pane elétrica, nós respondemos que
não tínhamos escolha, o avião estava sequestrado de qualquer maneira.
Foi
muito complicado, demoramos 4 dias para chegar em Cuba, sem comida nem água,
saímos na madrugada do dia 31 de dezembro de 1969 porque pretendíamos chegar
meia-noite e comemorar a Revolução Cubana no dia 1° de janeiro. Perdemos as
comemorações e só chegamos no dia 4. Antes disso, fizemos cinco paradas, e
acredito que só não fomos presos porque a imprensa internacional divulgou que
havia duas crianças a bordo, no caso, os meus filhos.
Chegamos
em Havana, eu tive receio por não saber se estávamos de verdade em Cuba ou se o
piloto havia nos enganado, mas assim que desembarcamos um militar que estava no
aeroporto passou a mão na cabeça dos meus filhos com muito afeto, e eu soube
que se tratava de um soldado cubano.
A
minha visão sobre Cuba era a que todo mundo tinha, um país pobre, triste,
miserável, mas eu encontrei avenidas lindas, coloridas, muita beleza. Nos
primeiros dias, ficamos hospedados em um hotel maravilhoso. Encontrei um país
completamente diferente, mesmo que tudo ainda fosse incipiente, pois eu cheguei
quando a revolução ainda não tinha completado dez anos, era uma revolução
jovem, um país que se reconstruía depois que muitos dos médicos, professores e
outros profissionais tinham ido embora.
JB
Sabemos que você participou ativamente da vida acadêmica de Cuba depois que chegou na ilha. Quais eram as tarefas da revolução para consolidar uma estrutura de educação sólida como a que vemos hoje?
MG
Como logo que cheguei matriculei meus filhos na escola, pude ter contato com o setor de educação e comecei a trabalhar na formação das jovens professoras que ficaram no país. Implementei músicas nas escolas e ajudei na criação do currículo nacional durante todos os anos 1970.
O
pai da educação cubana era o Padre Varela, o ensino lá já era diferente. Em uma
escola cubana, os alunos estudavam desde os filósofos gregos até a teoria do
conhecimento na crítica moderna do pensamento. Os professores que foram formados
pelo plano Makarenko [nome dado em homenagem ao pedagogo soviético Anton
Makarenko] puderam participar de um projeto de educação formidável. Os cubanos,
no entanto, conseguiram realizar uma idiossincrasia nacional: em vez de
buscarem exemplos prontos importados, foram adequando um modelo próprio,
centrado essencialmente naquilo que Darcy Ribeiro discutia, na identidade
cultural do povo. Por isso a educação na ilha é tão avançada. Desse ponto de
vista tivemos mais facilidade em criar um currículo.
“Nas
ruas e nos locais de trabalho o país vivia uma revolução, moral, estética e
política, mas dentro da escola essa revolução só acontecia na formação dos
professores e estudantes. Os pais ficavam de fora.”
A
própria Revolução Cubana foi formando seus educadores, a pintura, a música,
tudo o que surgia era fruto da revolução. Ela havia dado ao povo cubano um
ministro da Educação espetacular, o Gallego [José Ramón Fernández]. Eu pude
estabelecer uma relação próxima com ele, que topou a minha sugestão de implementar
música como parte do currículo das creches e da educação infantil.
O
projeto consistia em introduzir nas escolas a Nova Trova Cubana, expressão
musical da revolução. Expoentes da música cubana como Pablo Milanés, Silvio
Rodríguez, Noel Nicola me ajudaram a implementar o programa e muitas vezes iam
eles mesmo dar aulas para as crianças.
JB
Foi nesse período que surgiu a Escola de Pais? Qual foi o seu envolvimento com o projeto?
MG
A Escola de Pais foi um projeto de que fiz parte desde o início. Consistia em preencher uma lacuna que havia no ambiente escolar. Nas ruas e nos locais de trabalho o país vivia uma revolução, moral, estética e política, mas dentro da escola essa revolução só acontecia na formação dos professores e estudantes. Os pais ficavam de fora. Era preciso educar os pais (muitos ainda analfabetos) e discutir a própria educação das crianças dentro de casa, ensinar que o diálogo e o carinho eram mais úteis para o aprendizado do que os tapas habituais, ou qualquer outro velho costume de que a criança deve obedecer aos mais velhos etc.
A
Escola de Pais servia para mostrar que o mundo tinha mudado. Era necessário que
as transformações da educação cubana trasbordassem os muros da escola e fossem
refletidas em toda a sociedade.
Nos
dez anos que passei em Cuba, exerci muitas tarefas diferentes, uma delas foi a
de ajudar a fundar a cátedra de Língua Portuguesa na Universidade de Havana,
que não existia. Eu precisei construir um currículo do zero, levei seis meses.
Por culpa do bloqueio, eu não tinha livros nem dicionários, precisava me virar
com o material que vinha de Angola. Apesar das dificuldades, conseguimos.
JB
Como se deu o seu encontro com essa vanguarda musical e artística que você citou? Conte-nos a história por trás da canção “Pequeña serenata diurna” que Silvio Rodríguez compôs em sua homenagem.
MG
Logo que cheguei em Cuba e conheci os trovadores e compositores, como eu era a única brasileira, havia um interesse grande em conversar sobre música e arte do Brasil. Eu levei muito do nosso país para eles, como a música, a comida, e pude estar presente nesses encontros e misturas quando nascia a Nova Trova Cubana.
Naquela
época, trovadores, pintores, escritores e artistas formavam um grupo coeso e
bastante interligado. Um escrevia um poema, que em seguida era musicado, para
depois se tornar um quadro ou uma peça de teatro. Era um amálgama cultural
muito forte, com uma ancestralidade enraizada de maneira parecida com o Brasil.
Foi desses encontros artísticos que a cultura cubana se estabeleceu como parte
da identidade nacional.
“As
dificuldades de Cuba não foram o problema, elas me deram força e paciência para
entender o quão duro é viver sob o bloqueio de um império.”
Silvio
escreveu a canção para mim porque, como exilada, eu vivia reclamando de saudade
da minha Lua. Dizia a ele que a Lua no Brasil era mais bonita, que eu sentia
falta dela e queria ir embora. Eu insistia que ele deveria compor um
samba-canção, mas ele me respondia que a música brasileira era muito difícil.
No fim, ele criou essa linda canção, ele como o país livre e eu como o
samba-canção. Mas agora essa música não é minha, ela pertence a todos, todos
que precisam dela.
Na
verdade, Cuba me deu mais do que canções, é minha segunda pátria. O exílio é
muito difícil, mas as dificuldades de Cuba não foram o problema, elas me deram
força e paciência para entender o quão duro é viver sob o bloqueio de um império.
A resistência cubana é linda. Ainda hoje, a cada dois dias eu falo com um amigo
cubano.
JB
Agora mate a nossa curiosidade e nos conte: você conheceu Fidel?
MG
Conheci muito o Fidel (risos). A primeira vez eu estava no hospital, quando Fidel apareceu de repente. Eu tremia inteira e meu coração disparou. O nosso primeiro diálogo foi curto. Como eu sempre tive os cabelos brancos, desde os 25 anos, estava acostumada que as pessoas achassem que eu pintava. Estávamos no elevador, ele passou a mão na cabeça e perguntou “Por qué pintas el pelo?”. E eu respondi: “No pinto el pelo, comandante”. Foi assim. Depois, pela vida afora, encontrei com ele muitas vezes, nunca esqueceu meu nome. Era um homem muito brincalhão, contava piadas o tempo todo, não era emburrado.
“Os
jovens já tem naturalmente dentro de si uma força muito grande, mudar o mundo é
mudar o simples, o que está mais perto de você.”
Em
fevereiro de 1961 ele disse algo que me marcou, que o povo cubano deveria ser
um povo de pensamento e de ciência. Assim podemos resumir a Revolução Cubana,
um processo que transformou aquele povo em um povo de pensamento e ciência, ou
seja, a educação sempre foi um pilar da revolução.
JB
Ainda vale a pena sonhar com o socialismo? Que conselho você tem para a geração mais jovem que deseja mudar o mundo?
MG
Acredito que todos, independentemente da classe social de origem, queremos o melhor para nós mesmos, para nossos filhos e para a sociedade em geral. Isso é fundamental para que o ódio não habite o coração das pessoas. Mas eu penso que precisamos sempre estar em luta, não importa a idade nem o tamanho da luta. Pode ser com a corda de um violão, com um poema, uma peça de teatro, ao alfabetizar alguém, são com essas pequenas e grandes lutas que não têm custo nenhum que vamos mudar o mundo.
Os
jovens já tem naturalmente dentro de si uma força muito grande, mudar o mundo é
mudar o simples, o que está mais perto de você. Eu tenho uma felicidade enorme
de ter chegado aos 80 anos e saber que os jovens estão lutando pela mesma causa
que eu lutei a minha vida inteira.
Quando
uma jovem de 18 anos me pergunta o que ela pode fazer para mudar o mundo, eu
digo que é preciso calma, coerência, análise, estudo, muita leitura e semeadura
de amor. Quanto mais amor for semeado, mais fácil será colher um mundo melhor.
Sobre
os autores
MARÍLIA GUIMARÃES
É ex-guerrilheira, pedagoga e ex-professora na Universidade de Havana, em Cuba.
ALINE
KLEIN
É diretora editorial de Jacobin Brasil.
GUILHERME
ZIGGY
É poeta, jornalista, diretor de criação da Jacobin Brasil e autor de Consultas autônomas (2019).
https://jacobin.com.br/2023/03/a-guerrilheira-que-levou-o-metodo-de-paulo-freire-a-cuba/
Como você se tornou socialista? Quais foram os fatores decisivos para sua escolha de ser militante?
A minha primeira grande referência de justiça social foi a minha avó, que era uma fazendeira e levava uma vida muito simples, pois era viúva desde jovem. Apesar de ser uma mulher muito religiosa, ela era extremamente contra o casamento. Mesmo sem compreensão social, ela não considerava justo a mulher cuidar dos filhos, da casa, no caso dela, da fazenda, e não ficar com o dinheiro. Minha avó viu dinheiro pela primeira vez só depois que ficou viúva.
O início da sua militância coincidiu com o golpe militar de 1964. Como foram esses primeiros momentos? O conjunto dos militantes, os jovens principalmente, tinha consciência de que se tratava de um golpe? Que tipo de informações vocês tinham à disposição para se preparar e porventura reagir?
Pude assistir ao golpe militar de 1964 na porta da minha casa, literalmente. Eu morava em frente ao Palácio das Laranjeiras, consegui ver toda a movimentação dos militares, mesmo que a princípio não soubéssemos do que se tratava.
Do ponto de vista do clima político ou dessa primeira reação ao golpe, você enxerga algum paralelo com o processo contra Dilma Rousseff em 2016?
Estamos vivendo um momento com muitas semelhanças, no fundo acredito que é igual. Ou no mínimo muito parecido. Embora tenhamos resistido ao impeachment da Dilma no parlamento e nas ruas, estamos falando de um golpe que, mais uma vez, não fomos capazes de impedir. A nossa resistência ao avanço do bolsonarismo se deu nos palanques, e não através de uma mobilização profunda dos trabalhadores, mesmo que ainda pudéssemos ver a força e a organização de setores importantes como o mst. Acontece que muitas vezes gritar não basta. Nós não temos ao nosso lado os meios de comunicação, as rádios e as televisões que bombardeiam o povo todos os dias.
Como você se tornou socialista? Quais foram os fatores decisivos para sua escolha de ser. O que foi diferente dos anos 1960? De que forma o movimento e os partidos de esquerda se prepararam para a resistência naquele momento? militante?
Ao tomar consciência do golpe de 1964 e dos atos da ditadura entre 1966 e 1967, já sabíamos que não venceríamos apenas pelas palavras, tampouco só pelos livros ou pelas passeatas, essas alternativas já tinham sido testadas. Para o grupo do qual eu fazia parte, só havia uma saída naquele momento: as armas.
Nesse período de transição para a guerrilha, você também foi diretora de uma escola. Como continuou desenvolvendo sua atividade como educadora em paralelo às tarefas da organização? Havia uma relação entre o trabalho na educação e o político?
No final do ano de 1965 começamos a delimitar o que seria essa nossa guerrilha. Dentro da organização, quem terminasse a faculdade tinha que ir em busca de trabalho, e eu por sorte pude ser diretora de uma escola.
Um mimeógrafo?
Os militares foram até a escola me prender pois eu havia comprado o mimeógrafo que utilizamos para confeccionar materiais clandestinos com um companheiro que já havia sido assassinado em Belo Horizonte. Quando o Exército chegou, eu disse que não poderia ser presa pois o mimeógrafo não era meu, eu o havia vendido, e apresentei o recibo de venda. Era o meu plano de fuga.
Quanto tempo vocês ficaram na clandestinidade? Foi durante esse período que você participou do famoso sequestro do voo comercial da Cruzeiro do Sul?
Nos primeiros meses na clandestinidade, nós éramos contra qualquer forma de sequestro porque era um tipo de ação muito arriscado e poderíamos ser pegos facilmente. Porém, depois do primeiro ano clandestina, a vida começou a ficar insuportável, inclusive era muito parecido com esse período de pandemia e isolamento social, só que sem a internet, com duas crianças para alimentar, entreter e educar, sem dinheiro para comer. Foi um período duro. Até que a única possibilidade que nos restou era um sequestro.
Sabemos que você participou ativamente da vida acadêmica de Cuba depois que chegou na ilha. Quais eram as tarefas da revolução para consolidar uma estrutura de educação sólida como a que vemos hoje?
Como logo que cheguei matriculei meus filhos na escola, pude ter contato com o setor de educação e comecei a trabalhar na formação das jovens professoras que ficaram no país. Implementei músicas nas escolas e ajudei na criação do currículo nacional durante todos os anos 1970.
Foi nesse período que surgiu a Escola de Pais? Qual foi o seu envolvimento com o projeto?
A Escola de Pais foi um projeto de que fiz parte desde o início. Consistia em preencher uma lacuna que havia no ambiente escolar. Nas ruas e nos locais de trabalho o país vivia uma revolução, moral, estética e política, mas dentro da escola essa revolução só acontecia na formação dos professores e estudantes. Os pais ficavam de fora. Era preciso educar os pais (muitos ainda analfabetos) e discutir a própria educação das crianças dentro de casa, ensinar que o diálogo e o carinho eram mais úteis para o aprendizado do que os tapas habituais, ou qualquer outro velho costume de que a criança deve obedecer aos mais velhos etc.
Como se deu o seu encontro com essa vanguarda musical e artística que você citou? Conte-nos a história por trás da canção “Pequeña serenata diurna” que Silvio Rodríguez compôs em sua homenagem.
Logo que cheguei em Cuba e conheci os trovadores e compositores, como eu era a única brasileira, havia um interesse grande em conversar sobre música e arte do Brasil. Eu levei muito do nosso país para eles, como a música, a comida, e pude estar presente nesses encontros e misturas quando nascia a Nova Trova Cubana.
Agora mate a nossa curiosidade e nos conte: você conheceu Fidel?
Conheci muito o Fidel (risos). A primeira vez eu estava no hospital, quando Fidel apareceu de repente. Eu tremia inteira e meu coração disparou. O nosso primeiro diálogo foi curto. Como eu sempre tive os cabelos brancos, desde os 25 anos, estava acostumada que as pessoas achassem que eu pintava. Estávamos no elevador, ele passou a mão na cabeça e perguntou “Por qué pintas el pelo?”. E eu respondi: “No pinto el pelo, comandante”. Foi assim. Depois, pela vida afora, encontrei com ele muitas vezes, nunca esqueceu meu nome. Era um homem muito brincalhão, contava piadas o tempo todo, não era emburrado.
Ainda vale a pena sonhar com o socialismo? Que conselho você tem para a geração mais jovem que deseja mudar o mundo?
Acredito que todos, independentemente da classe social de origem, queremos o melhor para nós mesmos, para nossos filhos e para a sociedade em geral. Isso é fundamental para que o ódio não habite o coração das pessoas. Mas eu penso que precisamos sempre estar em luta, não importa a idade nem o tamanho da luta. Pode ser com a corda de um violão, com um poema, uma peça de teatro, ao alfabetizar alguém, são com essas pequenas e grandes lutas que não têm custo nenhum que vamos mudar o mundo.
MARÍLIA GUIMARÃES
É ex-guerrilheira, pedagoga e ex-professora na Universidade de Havana, em Cuba.
É diretora editorial de Jacobin Brasil.
É poeta, jornalista, diretor de criação da Jacobin Brasil e autor de Consultas autônomas (2019).

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