Após
a invasão da França derrotada na guerra franco-prussiana, em 18 de janeiro de
1871, no Palácio de Versalhes, Guilherme, da realeza prussiana, foi proclamado
Imperador Alemão. Nascia em solo francês o Segundo Reich, proclamado pelo
chanceler e homem forte dos invasores, Otto Bismarck. A Confederação da
Alemanha do Norte foi transformada no Império Alemão, justamente na casa do
inimigo vencido!
A
Europa viveu, então, quase meio século de relativa paz. Entretanto, o frágil
equilíbrio dentre as potências imperialistas desmoronou quando o Império
Austro-Húngaro, aliado da Alemanha desde 1879, declarou guerra à Sérvia, em
julho de 1914, após o assassinato em Sarajevo do herdeiro do trono austríaco. O
Império Alemão apoiou a aliada, enquanto que a Rússia, aliada à França,
manifestou seu apoio à Sérvia. Em seguida, a Alemanha declarou guerra à Rússia
e à França.
Assim
começou a Primeira Guerra Mundial, que terminou envolvendo também Inglaterra,
Itália e USA, ao lado dos franceses e russos.
Nesse
grande conflito de longos quatro anos de duração, morreram mais de vinte
milhões de pessoas e as nações que formavam as Potências Centrais
esfacelaram-se, o que levou primeiro à paz em separado com a União Soviética e,
posteriormente, à rendição às forças da denominada Entente, capitaneadas por
França, Inglaterra e USA.
Internamente,
esgotada pelo esforço de guerra e pelas derrotas, a situação tornara-se caótica
na Alemanha e, em decorrência, um movimento revolucionário derrubou a monarquia
no país e, no lugar do II Reich, estabelece-se uma República, denominada de
Weimar. Os novos governantes da Alemanha, então, decidiram colocar fim à guerra
e os termos da rendição alemã foram estabelecidos também em Versalhes, o
Tratado de Versalhes.
Os
alemães, ao contrário dos franceses que possuíam como símbolo pátrio a revolta
popular encarnada na Revolução de 1789, tinham como seu símbolo de massa o
Exército. Em nenhum país moderno este símbolo fora tão forte quanto na
Alemanha.
O
povo alemão, ao contrário que o russo, por exemplo, não sentia medo de seu
exército, mas, sim, sentia-se protegido por ele e, desde a unificação alemã
após a guerra de 1870/1871, todo alemão se orgulhava do mesmo. O serviço
militar era geral e obrigatório e interessava tanto a católicos quanto a
protestantes. Aquele que se excluía, ou era excluído do serviço deixava de ser
considerado “alemão”. Para a casta fechada dos oficiais, entretanto, o exército
era uma profissão. O elemento de comando e de aglutinação que o comandava esse
eram junkers prussianos, aristocratas rurais, uma ordem rígida, com
características de hereditariedade nas posições mais importantes da hierarquia
militar.
Quando
iniciou a Guerra de 1914, todo o povo se entusiasmou e se transformou em massa
aberta, massa vibrante, que somente fazia crescer! Os socialdemocratas de fora
do país se surpreenderam com a explosão de entusiasmo do povo alemão pela
guerra. Mesmo os socialdemocratas alemães, sob o impulso e influência da
indústria de base, toda ela vinculada ao belicismo, e, sem dúvida dos junkers e
dos aristocratas, também aderiram ao esforço de guerra.
E
os primeiros dias de agosto de 1914 foram também o momento de germinação do
nazismo!
Existe
uma declaração de Hitler que não deixa nenhuma dúvida: ele se ajoelhou e
agradeceu a Deus pela declaração de guerra. Este foi o único momento que ele
próprio foi sinceramente parte de seu povo! E não se esqueceu deste momento;
toda sua trajetória posterior foi dedicada à reconstrução do mesmo: a Alemanha
tinha que voltar a ser consciente de sua força militar de choque.
Mas
Hitler jamais teria alcançado seu objetivo se o Tratado de Versalhes não
tivesse dissolvido os exércitos alemães.
O
Tratado de Versalhes proibiu o serviço militar geral e obrigatório, privando os
alemães de sua identidade nacional mais essencial. Ordenou a destruição de mais
de 80% de seu armamento. E foi a proibição do ato de dar e receber ordens, a
extinção do serviço militar profissional por um lado, do obrigatório por outro,
que propiciou o nascimento do nacional-socialismo.
O
Partido Nazista, com o apoio de fragmentos de corpos de exército desmobilizados
e de milícias, inclusive da sua própria, as S.A., ocupou o lugar do extinto
Exército e para o Partido, dentro de sua nação, não existiam os limites
impostos pelos vencedores da Primeira Guerra.
Hitler
com uma insistência sem paralelo e infatigável, usou o slogan do Tratado de
Versalhes com suas imposições. E a eficiência de suas prédicas foi aumentando
com os anos.
Mas
o que Hitler transmitia? Para os alemães a palavra Versalhes não significava
tanto a derrota, que, aliás, nunca aceitaram, mas a proibição do Exército!
A proibição do Exército era mais forte que a
proibição de uma fé, de qualquer religião. E a fé no país estando impedida,
restabelecê-la era o dever sagrado de todo cidadão.
A
palavra Versalhes servia para tocar numa ferida aberta, mantendo-a sangrando. E
enquanto Hitler vociferava contra ela, ele impedia que ela cicatrizasse.
E
Hitler sabia que Versalhes tinha também outro sentido especial para os alemães:
o Segundo Reich, fora lá fundado por Bismarck. A unidade alemã e a vitória
sobre Napoleão III tinha sido proclamada num instante de euforia e de força
irresistível. E mais, Versalhes havia sido residência de Luís XIV, que de todos
os reis franceses fora o que mais humilhara os alemães. Por causa dele,
Estrasburgo havia sido anexada à França.
Cada
vez que Hitler vociferava sobre o Tratado de Versalhes com um Diktat , uma
ordem dos aliados da Entente, e não um Tratado, ele fazia um chamamento à
guerra!
Assim
que o Partido Nazista conquista a maioria dos votos para o Parlamento, em 1933,
Hitler prepara a imposição da ditadura, abolindo a constituição da República de
Weimar (1919-33) e proíbindo todos os partidos políticos com exceção do seu;
passa igualmente a controlar os tribunais, os jornais, a polícia e a escola.
Abandona a Sociedade das Nações e as conferências de desarmamento, reativando o
serviço militar obrigatório.
Com
a morte do Presidente Hindenburg em
1934, Hitler autodeclara-se “der Führer” (o líder), unindo a presidência e a
chancelaria na sua pessoa.
E
o novo Exército Alemão, filho do recém-fundado III Reich Nazista, embora
incorpore a maior parte da aristocracia guerreira dos junkers, tem o espírito e
o controle dos Nazistas.
E
tudo em Hitler sempre teve um efeito duplo, tanto os atos, quanto os sinais e a
palavra.
A
bandeira da Alemanha nazista é composta por um fundo vermelho e nele inserida a
uma suástica negra em um alvo circular. A suástica é uma cruz gamada e tem um
movimento rotatório, cuja ameaça se cumpriria: os membros dos demais partidos
seriam amarrados à roda da tortura.
A
palavra de Hitler buscou na cruz cristã as características cruéis e
sanguinárias, como se fosse bom crucificar os inimigos! As gamas da cruz
pervertida, os ganchos, anunciam como os adversários serão caçados, derrubados.
Além de simbolizarem as batidas militares dos calcanhares na ordem unida. De
todo modo, a cruz gamada reúne uma ameaça de castigos cruéis com uma capciosa
malícia e uma advertência de disciplina militar.
De
todo modo, os slogans importantes, excetuando-se apenas os dirigidos contra os
judeus, podem ser derivados do “Diktat” de Versalhes:
Fundar
o Terceiro Reich, Sieg-Heil (salve a vitória), e assim por diante.
“A
derrota vai se transformar em vitória.” “O exército proibido vai ser formado”.
E
a vitória do nazismo levaria a uma nova conflagração mundial, que deixaria para
trás todas as bestialidades jamais praticadas pelo gênero humano, cuja
expressão de síntese é um amontoado de oitenta milhões de mortos.

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