Os
últimos meses têm sido muito difíceis para uma reflexão mais profunda sobre o
país e principalmente para colocar ideias no papel. Somos bombardeados com
péssimas notícias sobre saúde pública todos os dias e ainda precisamos lidar
com um governo de ineptos e lunáticos, liderado por um aspirante a ditador com
colorações fascistas. São mortes pela doença, são mortes na favela pela ação
assassina do Estado, são mortes que também nos matam um pouco a cada dia como
nação.
Vivemos
um espanto constante, acreditando sempre que o próximo passo rumo ao abismo não
virá. Mas ele vem. Rápido demais, com sarcasmo, deboche e humilhação. Ao fundo,
ecoa uma risada para todas as insanidades daquele que ocupa, por ora, o cargo
de presidente da República.
Os
aplausos no famoso “cercadinho” do Palácio do Planalto parecem se espalhar por
todo o país em grupos de WhatsApp, nos causam raiva, mas também nos machucam,
nos imobilizam.
O
escárnio com a morte e a descrença na gravidade de uma pandemia se tornaram as
marcas de nosso país. O fascismo é, antes de tudo, um grande culto à morte.
Estamos experimentando isso na própria pele, marcados a ferro quente, mas
também sendo quebrados por dentro, em nossa capacidade de resistir.
Muitos
acreditaram, ingenuamente, que Bolsonaro seria contido por “ministros técnicos”
e militares que compõem o governo. Os entusiastas da solidez das instituições
defendiam que todas as insanidades da campanha ficariam para trás, assim que
Bolsonaro subisse a rampa, como se um estadista magicamente surgisse ao colocar
a faixa presidencial.
Sabíamos
que Bolsonaro iria manter o tom beligerante em seu governo, que iria atiçar as
bases constantemente para manter o seu núcleo duro ainda mais fiel e combativo.
O tal sistema de “freios e contrapesos” não o conteve. As instituições se
tornaram uma grande miragem, muito distante, o que nos dá a ilusão de que
“agora passamos dos limites e que alguém tomará uma atitude”.
Como
diria Chico, em Pedro Pedreiro, “manhã, parece, carece de esperar também. Para
o bem de quem tem bem”. A manhã logo se torna noite, caindo todos os dias, e
ninguém faz nada. O panelaço se tornou a nova nota de repúdio. E assim corremos
em alta velocidade rumo ao abismo, como num trem sem freios e com um maquinista
rindo, rindo, rindo, pedindo mais carvão. Ou talvez mais cloroquina.
Já
se tornou cansativo dizer que o enfrentamento a Bolsonaro passa pela união de
forças democráticas e progressistas. Igualmente cansativo perceber que parte
delas insiste no velho e carcomido jogo eleitoral, mesmo que com honrosas
exceções no Congresso e importantes conquistas recentes, como a renda básica
emergencial.
Particularmente,
acredito que a sonhada união do campo progressista será muito difícil e que os
principais atores da oposição possivelmente não chegarão a um acordo para o bem
do país. Continuarão com suas vaidades, seus egos, seus ressentimentos,
acreditando que poderão colher algum fruto eleitoral no futuro.
Daremos
sorte se tivermos frutos a colher. Nos levarão juntos para o buraco. Contudo,
uma esperança emerge nas comunidades, nas bases, fora das estruturas
partidárias. Futuramente, os partidos tradicionais dirão que foram pegos de
surpresa. Estarão, como parecem estar há tempos, surdos e cegos para o que virá
de baixo.
O
Brasil se tornará rapidamente o epicentro da pandemia, tendo à frente um
governo que insiste em acreditar numa irreal volta à normalidade e em um
crescimento ilusório, que só existe na cabeça de Paulo Guedes.
Bolsonaro
empurra os mais pobres para a rua, para a doença, para a morte, insistindo que
todos devem se contaminar, enquanto a crise política e econômica avança sobre
nós. Teremos vinte, trinta milhões de desempregados e nossos “cabeças de
planilha” vão defender o fim de direitos, talvez dizendo que o salário mínimo é
um entrave à retomada.
Muitos
acreditam que o mundo pode melhorar quando tudo passar, que haverá uma
preocupação com a natureza e que a economia olhará para os mais pobres. É uma
saída, mas é a menos provável.
Poderemos
assistir, com a desculpa de retomar o crescimento, uma destruição cada vez maior
do meio ambiente, um avanço constante sobre territórios indígenas, a destruição
da floresta amazônica e a defesa da austeridade para equilibrar as contas
públicas. Já sabemos que a expressão “equilibrar as contas públicas” recai
sempre sobre os mais pobres e necessitados e nunca gera o que promete. Serve
apenas para aprofundar a desigualdade. E uma sociedade machucada, frágil e
ressentida é um prato cheio para líderes autoritários.
Pode
ser diferente? Claro que pode. É possível construir uma resistência vigorosa,
unida, com planos e propostas para superar nossa histórica desigualdade. Novos
líderes podem emergir das novas lutas que virão. Pode surgir uma grande frente
democrática na luta conta o autoritarismo, com diferentes atores e movimentos,
com uma nova linguagem que agregue mais do que aparte. O futuro é incerto. É um
livro aberto, que ainda está para ser escrito. Enquanto isso, caminhamos feito
Pedro Pedreiro
“Esperando
enfim nada mais além
Da
esperança aflita, bendita, infinita”.
*Daniel
Trevisan Samways é doutor em História e professor no Instituto Federal do
Triângulo Mineiro (IFTM).

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