Lula
está politicamente abandonado. O abandono político de Lula, principalmente por
parte do PT, se prenunciava quando o partido não fez uma campanha de
mobilização nem para se contrapor à sua condenação, nem para se contrapor à sua
prisão e nem para exigir a sua libertação. Ocorreram atos isolados aqui e
acolá, é verdade. Mas não atos que se inscrevessem no contexto de campanhas
organizadas e sistemáticas. O processo da campanha eleitoral impôs a Lula a
consumação do abandono político, sacramentado no pós-eleições.
O
seu depoimento à juíza Gabriela Hardt simbolizou o abandono político efetivo do
ex-presidente: nenhuma mobilização, nenhum ato de apoio, nenhum protesto nas
proximidades do tribunal. O que se viu no depoimento foi um Lula envelhecido,
triste e cansado, acompanhado apenas pelos advogados que até agora não
obtiveram nenhuma vitória jurídica.
O
que era de se esperar é que, com o fim da campanha eleitoral, o PT já tivesse
uma campanha planejada de mobilização pela liberdade de Lula. Mas as suspeitas
que não se veria nada disso se confirmaram. Muitos petistas, perguntados acerca
da situação de Lula, respondem que “não há o que fazer“. Este conformismo
derrotista é a confirmação do abandono.
Quando
foi adotada a tática de levar a candidatura Lula até as últimas consequências
esperava-se que as elites e o Judiciário pagassem um preço alto pela exclusão
do líder das pesquisas, do político mais popular da história do Brasil, junto
com Getúlio Vargas. Mas para que este preço fosse pago, evidentemente, alguém
haveria de cobrá-lo. O preço seria uma parcela significativa da sociedade
mobilizada para exigir a candidatura Lula.
Dificilmente
bases sociais se mobilizam sozinhas. É preciso direção, comando e coragem para
que haja mobilizações. Não havia nada disso quando Lula foi interditado,
confirmando que o PT, que havia perdido as ruas desde 2013, mas,
principalmente, durante o processo de impeachment que levou ao golpe, não foi
capaz de recuperá-las nem para defender seu maior líder – um líder de milhões
de brasileiros.
Qual
foi o preço pago pelas elites e pelo Judiciário pelo encarceramento e pela
exclusão de Lula das eleições?
Nenhum.
Ficaram no lucro com a vitória de Bolsonaro, com principal algoz de Lula
premiado com o Ministério da Justiça e com um criminoso e escandaloso aumento
de 16,38% nos salários dos juízes.
Mas
como as esquerdas vivem de ilusões, anunciando vitórias que nunca vêm e que, ao
fim e ao cabo das coisas se traduzem em derrotas, agora já vaticinam o fracasso
do governo Bolsonaro à espera de apanhar o fruto sem plantar a árvore, para
lembrar uma frase de Sérgio Buarque de Holanda.
No
seu abandono, o que Lula tem pela frente é a perspectiva de novas condenações.
O ambiente político adverso com a vitória de Bolsonaro, a pressão de generais
que não querem Lula livre e o alinhamento das altas Cortes do Judiciário com os
militares reforçam ainda mais a perspectiva de novas condenações e de alguns
longos anos na cadeia.
Na
medida em que o tempo passa e que nada de excepcional acontece em torno de Lula
e de sua prisão (a não ser novas condenações), a ideia de Lula preso vai sendo
naturalizada não só pelos petistas, mas pela consciência democrática em geral.
A passividade é uma forma de aceitação, é uma memória triste e impotente do que
poderia ser diferente, mas não foi. A passividade é também uma forma de
esquecimento. No caso, do esquecimento de que Lula está preso. O incômodo dessa
lembrança só virá às mentes pelas notícias negativas das mídias.
O
abandono e o esquecimento de Lula o retirarão também da memória coletiva e ele
será lembrado como uma coisa boa para os muitos pobres e uma coisa ruim para os
mais ricos. Mas ele será cada vez mais uma lembrança que vai empalidecendo. Na
medida em que as pessoas precisam viver e continuar a vida, as suas
expectativas se deslocam para novos líderes, para novos embates ou para novas
frustrações.
Com
Lula abandonado e esquecido na prisão, a sua força mítica tende a se
enfraquecer. Aqueles que querem que essa força se enfraqueça ou morra tenderão,
ao máximo, fazer verossímeis as acusações e aqueles que gostariam que ela
continuasse viva não têm força e nem coragem para fazê-la viver.
O
que se verá, se nada for feito, é a desencantadora consumação da força
extraordinária de um autêntico líder do povo. E o povo, que é o verdadeiro
abandonado, não terá essa força mítica como conforto de suas angústias, como
energia ativa de suas lutas e como referência de combate. O enfraquecimento da
figura mítica de Lula se expressará como enfraquecimento da própria energia
combativa do povo, pois este acreditará que nada vale a pena já que o seu
destino será a pobreza e a derrota.
Lula
sempre foi muito ativo politicamente, alegre, afetivo, comunicativo,
brincalhão. Em que pese ter muitas visitas na prisão, parece óbvio que o
tolhimento de sua liberdade faz com que lhe pese a solidão. Essa pode ser ainda
maior porque o seu encarceramento o impede de viver essa essência, essa
natureza afetiva, expansiva e comunicativa. Não se trata apenas da solidão de
passar horas e dias sozinho, mas da solidão da falta de perspectivas de
exercitar a sua liberdade com plenitude. Trata-se da solidão diante de um país
que lhe negou a possibilidade de ele doar-lhe o que tem de melhor. Trata-se da
solidão de ver envelhecer-se mergulhado no abismo de quatro paredes.
Certamente,
Lula já terá refletido muito acerca do caráter efêmero do poder e acerca da
precariedade da vida humana. Até ontem ele era um dos presidentes mais
festejados do mundo e, hoje, vê-se na aterradora condição de um encarcerado. A
situação de Lula é um retrato vívido da precariedade e da fragilidade das
coisas humanas. A situação de Lula é uma lição dolorida que todos os políticos
deveriam aprender: o poder não pode ser arrogante, mas deve ser exercido com
prudência, humildade e humanidade. Somente este tipo de poder merece ser
glorificado e somente os líderes que assim o exercem se tornam heróis cuja, sua
memória, sua lembrança e sua invocação são como umas setas que atravessam os
tempos.
Somente
nós, mas principalmente o PT, os movimentos sociais, as esquerdas e os líderes
políticos que têm poder de convocação poderão atenuar a dor da solidão de Lula:
mostrar, através de uma campanha organizada, em atos e mobilizações, que ele
não está só. Dizer que “não há o que fazer” é enfiar um punhal na já dilacerada
solidão de Lula. Mas, talvez, o destino de Lula seja o de confirmar,
tristemente, uma afirmação de Schopenhauer: “A solidão é a sorte de todos os
espíritos excepcionais“.
*Aldo Fornazieri é professor
da Escola de Sociologia e Política (FESPSP).

Nenhum comentário:
Postar um comentário