Na
primeira metade dos anos 1980, já próximo ao fim de tempestuoso período de
nossa história, João Ubaldo Ribeiro lançava sua obra “Viva o Povo Brasileiro”,
na qual preconizava que “de mentiras e patranhas que se faz a narração da
guerra”.
Certo
estava o renomado autor, pois não haverá esperança, ao menos não à democracia,
enquanto persistir o cenário de manipulação da informação e o distanciamento
deliberado dos fatos, que insistem em se descortinar diante dos olhos cansados
de uma sociedade assolada por uma catástrofe.
A
dissimulação, a mentira e a falsidade negam aos cidadãos o acesso à informação
necessária à formação do juízo crítico, além de ofuscar o discernimento
necessário aos representantes do povo na tomada de decisões fundamentais ao
bem-estar da coletividade.
A intensa mobilização em favor das vítimas da tragédia climática que assolou o Rio Grande do Sul vem sendo colocada à prova pelas informações falsas que circulam.
O
quadro é grave e provoca ampla reflexão sobre um dos maiores desafios da
atualidade: a atuação na defesa intransigente do acesso à informação como um
direito fundamental previsto no ordenamento jurídico brasileiro.
Importantes
iniciativas, como a edição da Lei de Acesso à Informação, vêm causando
expressivo impacto para a transparência governamental, de modo a facilitar o
acesso dos cidadãos à informação.
Para
além das normas, muito se tem feito como a criação de portais de transparência
que viabilizam o acesso de todos a informações relevantes sobre gastos
públicos, contratos, licitações, salários de servidores e indicadores sobre
execução de políticas públicas.
Ceticismo, insegurança e
desesperança
No
entanto, é preciso atentar para o movimento de desinformação, que pressupõe prática
antiética e muitas vezes criminosa, a utilizar técnica de comunicação que induz
ao erro, com distorção da realidade e destruição da capacidade de discernir a
verdade. Provoca, assim, ceticismo, insegurança e, ao final, desesperança.
Mitos
e versões criativas que desviam o curso da história são adaptados à mentalidade
das massas e tornam-se instrumentos de movimentos políticos para criação de
visões fantasmagóricas que carecem de qualquer base factual.
Tudo
isso ocorre porque, “tendo comichão nos ouvidos, amontoarão para si doutores
conforme as suas próprias concupiscências; e desviarão os ouvidos da verdade,
voltando às fábulas” (2 Timóteo, 3:4).
As
consequências são por demais nefastas, porque geram a desvalorização de
iniciativas positivas da sociedade, prenhe de ações de solidariedade, e
desacreditam medidas importantes de governo, a exemplo da criação de auxílio
para famílias de baixa renda que ficaram desabrigadas, inclusão de famílias em
estado de vulnerabilidade na folha de pagamento do Bolsa Família, abertura de
linhas de crédito para empresas e produtores rurais, antecipação de pagamento
de benefícios, liberação de R$5 bilhões para ações emergenciais de ministérios,
carência no pagamento de financiamento e envio de projeto de lei ao Congresso
que suspende o pagamento da dívida do Rio Grande do Sul com a União por três
anos.
Neste
momento de tanto desalento, em que as chuvas e cheias de rios vitimaram pelo
menos 149 pessoas, alagaram mais de 400 cidades e desabrigaram milhares de
pessoas, é necessário compreender o cenário de risco.
A
desinformação e as fake news podem promover, por elas mesmas, tragédia
descomunal, porque abeiram-se da ditadura, valem-se da violência e desejam a
subjugação despótica dos mais carentes.
Jorge Messias é
advogado-geral da União.
https://www.conjur.com.br/2024-mai-24/a-tragedia-das-fake-news/
A intensa mobilização em favor das vítimas da tragédia climática que assolou o Rio Grande do Sul vem sendo colocada à prova pelas informações falsas que circulam.

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