A
concentração dos meios de comunicação é uma das barreiras enfrentadas pela
democracia do Brasil. A mídia tradicional é controlada por conglomerados
empresariais que estão ligados não somente a interesses editoriais, mas também
a interesses privados de uma elite influente.
De
acordo com a Pesquisa Brasileira de Mídia 2016, realizada pela Secom
(Secretaria de Comunicação da Presidência da República), a TV é o meio de
comunicação mais acessado pelos entrevistados, sendo mencionada pela quase
totalidade da amostra. Pouco mais de três quartos dos entrevistados assistem TV
todos os dias da semana. As emissoras da TV aberta são as mais assistidas,
principalmente a Rede Globo. Aproximadamente 73% dos entrevistados afirmaram
assistir a TV Globo.
Por
volta de um em cada três respondentes afirma ler jornal. Apesar do recente
crescimento de meios digitais e novas mídias, a principal fonte de informação
da maioria da população brasileira sobre política nacional continua sendo os
jornais da mídia tradicional. O Globo e a Folha de São Paulo são os jornais
mais lidos do país. Apenas 26% da população afirmam se informar sobre o que
acontece no Brasil pela internet.
A
imprensa tradicional constitui uma instituição poderosa no país. Segundo
pesquisa realizada pela Associação Nacional de Jornais, a audiência mensal da
Folha é de 20,2 milhões de brasileiros. Esse é o número de pessoas que consomem
conteúdo por meio de aparelhos móveis, internet e versão impressa. Na rede
social Twitter, a Folha de SP tem mais de cinco milhões de seguidores e O Globo
quase cinco milhões.
De
acordo com o jornalista e sociólogo Venício Artur de Lima, na nossa versão de
democracia liberal, a grande imprensa é uma instituição privada poderosa,
concentrada nas mãos de uns poucos grupos empresariais familiares, beneficiária
da propriedade cruzada e da ausência histórica de formas democráticas de
regulação.
No
Brasil, a propriedade cruzada dos meios de comunicação é uma prática recorrente
que consiste em uma forma de concentração da propriedade na qual um grupo
empresarial ou família é proprietário de mais de um tipo de veículo de
comunicação, ou seja, jornal, TV, rádio, revista ou portal de notícias, como é
o caso das Organizações Globo. Com a maior audiência do país e elevada arrecadação
de verba publicitária, os veículos de imprensa das Organizações Globo têm poder
para influenciar a sociedade, a economia e a política do país. De acordo com
publicação do site Observatório da Imprensa, apenas entre maio e agosto de
2016, as Organizações Globo receberam mais de R$ 15,8 milhões do governo. No
mesmo período, o UOL recebeu mais de R$ 691 mil e a Folha, mais de R$ 426 mil,
somando a apenas essas duas empresas do Grupo Folha uma quantia superior a R$
1,1 milhão.
Como
a sociedade se informa, principalmente, por meio de notícias transmitidas pela
mídia tradicional, essas notícias podem criar um falso consenso engendrado
pelas classes dominantes, no qual interesses específicos das elites são
apresentados como interesses coletivos para os diversos setores da sociedade.
Com
o acesso limitado a informações alternativas, ou devido à escassez de recursos
mentais para se opor a tais informações, os leitores ou a audiência
dificilmente questionarão as mensagens transmitidas por jornais com amplo alcance.
A mídia tradicional configura-se, assim, como única fonte de informação para a
maioria da população brasileira, disseminando notícias raramente contestadas.
E, pode assim, produzir conteúdos utilizando artifícios discursivos para
enquadrar aspectos da realidade, dessa forma, determinadas ideias e
interpretações podem ser enfatizadas e naturalizadas em diversos setores da
sociedade.
Hoje,
essas empresas de mídia - que “falam” como se fossem representantes de cada um
de nós -constituem-se, elas próprias, em importantes e poderosos atores, tanto
econômicos quanto políticos, mas, sobretudo, como atores determinantes na
construção da opinião pública em todo o mundo (LIMA, 2010. p.104).
No
Brasil, a legislação não define limites à concentração dos meios de comunicação.
Além disso, o “coronelismo eletrônico” define a atual rede de relações na
estrutura de comunicação brasileira. Herdado do termo Coronelismo, cunhado na
década de 1940, que designa o sistema político de “troca de favores”, que
sustentou o período da República Velha (1889–1930), o coronelismo eletrônico
designa-se, de acordo com Santos (2006) como:
“O
sistema organizacional da recente estrutura brasileira de comunicações, baseado
no compromisso recíproco entre poder nacional e poder local, configurando uma
complexa rede de influências entre o poder público e o poder privado dos chefes
locais, proprietários de meios de comunicação” (SANTOS, Suzy, 2006. p.8).
Um
exemplo de coronelismo eletrônico pode ser visto no Maranhão. A Rede Mirante,
conglomerado de mídia, afiliado da Rede Globo no estado, durante anos pertenceu
ao político Fernando Sarney, filho do ex-presidente José Sarney (PMDB).
Os
meios de comunicação podem atuar com interesses políticos bem definidos. Esse
posicionamento é criticado por alguns setores da sociedade. Movimentos sociais,
organizações e a mídia alternativa visam combater a concentração existente nos
meios de comunicação. O Intervozes visa promover às pessoas o direito de
comunicação no país. O “Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de
Itararé” pretende democratizar o sistema de comunicação para que a diversidade
e a pluralidade da mídia sejam exercidas. O Fórum Nacional pela Democratização
da Comunicação tem como objetivo democratizar os meios de comunicação do Brasil.
O site “Outras Palavras” é um exemplo a respeito da questão do direito à
comunicação e da mídia livre. Além da Mídia Ninja, que oferece uma cobertura
jornalística alternativa dos fatos políticos do país e que está presente em
mais de 150 cidades brasileiras. “A sociedade enfrenta sua mídia”, Braga
(2006).
Em
2009, o Governo em busca de regulamentação da mídia realizou a 1ª. Conferência
Nacional de Comunicação com a participação de mais 1600 delegados. Poucas
entidades do setor privado participaram, apenas a ABRA e a Telebrasil. Apesar
da falta de apoio dos grandes grupos de mídia do país, o evento resultou em 600
propostas para auxiliar o governo na regulação dos meios de comunicação. Em
2010, o então presidente, Luís Inácio Lula da Silva, assinou um decreto criando
uma comissão interministerial que elaborou estudos e propostas de revisão do
marco regulatório dos serviços de radiofusão da mídia. Em 2014, a ex-presidenta
da República, Dilma Rousseff, prometeu que no seu segundo mandato defenderia a
regulação da mídia no Brasil.
No
início de seu primeiro mandato, com fama de gestora eficiente e iniciativas de
combate à corrupção, a presidente Dilma Rousseff chegou a ter a maior aprovação
de um mandatário brasileiro desde a redemocratização. Entre janeiro e março de
2013, a aprovação de Dilma era de 63%, de acordo com pesquisa Ibope encomendada
pela Confederação Nacional da Indústria. Esse cenário se inverteu após os
primeiros meses do segundo mandato.
Segundo
pesquisa realizada pelo instituto Datafolha e divulgada em março de 2015, em
poucos meses a reprovação de sua gestão chegou a 62%. Após diversas
manifestações e um intenso debate político nacional, o Senado brasileiro
destituiu a presidente Dilma Rousseff, processada por crime de responsabilidade
na gestão do orçamento nacional. O processo ainda vem sendo questionado e é
alvo diversas críticas. Jessé de Souza (2016) define o processo de impeachment
de Dilma Rousseff como um golpe midiático-jurídico.
Em
2013, por meio de um editorial, o jornal O Globo assumiu que o apoio à ditadura
militar foi um erro. Em 1964, classes dominantes, inclusive órgãos de imprensa,
como O Globo e a Folha de S.Paulo, voltaram-se para a desestabilização e
derrubada de João Goulart, que governou o Brasil dando atenção às reivindicações
sociais.
A
grande mídia brasileira é parcial e usa seu poder para influenciar os diversos
setores da sociedade. A Rede Globo atua como um partido de direita, que defende
interesses específicos. Para lutar contra esse discurso hegemônico, há vários
caminhos, como fortalecer redes de mídia alternativa e novos coletivos, lutar
pelo ensino crítico da mídia em escolas públicas brasileiras e fortalecer a
nossa televisão pública.
Referências:
LIMA,
Venício Artur de. Cultura do silencia e democracia no Brasil: ensaios em defesa
da liberdade de expressão (1980–2015).?—?Brasília: Editora UnB, 2015. _____.
Liberdade de expressão x liberdade de imprensa: Direito à comunicação e
democracia.?—?São Paulo: Publisher Brasil, 2010.
BRAGA,
José Luiz. A sociedade enfrenta sua mídia: dispositivos sociais de crítica
midiática. São Paulo: Paulus, 2006. 341 p.
SOUZA,
Jessé. A Radiografia do Golpe: Entenda Como E Por Que Você Foi Enganado. Leya,
2016.
SANTOS,
Suzy dos. E-Sucupira: O Coronelismo Eletrônico como Herança do Coronelismo nas
Comunicações Brasileiras. Revista da Associação Nacional de Pós-Graduação em
Comunicação. Dezembro 2006. Disponível em: . Acesso em: 17 jan. 2008.
http://www.fndc.org.br/noticias/a-concentracao-dos-meios-de-comunicacao-como-uma-barreira-para-a-democracia-924826/

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