Ainda
que visando alvos bastante distintos, os discursos conspiracionistas apresentam
uma grande constância. Eles resultam de uma mecânica intelectual da qual é
possível extrair os principais fundamentos
por
Benoît Bréville
1.
Nunca falar de conspiração
“Nesta
Revolução Francesa, tudo, até seus planos mais espantosos, tudo foi previsto,
meditado, combinado, resolvido, estabelecido; tudo foi [...] organizado por
homens que tinham sozinhos o fio das conspirações havia muito elaboradas nas
sociedades secretas e que souberam escolher e aguardar os momentos propícios
para o complô.” No final do século XVIII, quando o abade Augustin de Barruel
escreveu essas linhas, aqueles que viam complôs por toda parte avançavam com o
rosto à mostra. Eles falavam de conspiração, sociedades secretas, planos
escusos. Hoje, o vocabulário mudou. “Acho que essa palavra [conspiração] nunca
foi utilizada em meu livro. Na verdade, eu falo de ‘projeto de dominação’, de
‘rede de dominação’”, explicou Alain Soral, em 23 de março de 2011 na rádio
RFI. Como seus aliados Dieudonné e Thierry Meyssan – dois outros pontas de
lança do conspiracionismo francês –, ele alega principalmente que desconfia das
“versões oficiais” e propõe “informações alternativas”. O site Stop Mensonges
[Stop Mentiras] tem como lema “A verdade nos libertará”; para o WikiStrike,
“nada, nem ninguém, é superior à verdade”. Já o ultracatólico
Médias-Presse-Info se apresenta como “uma mídia original que visa à
vulgarização da informação de uma maneira deliberadamente objetiva, livre e sem
concessão”. Quem poderia censurar?
2.
Julgar-se vanguarda
“Falemos
claramente: eu não acredito na versão oficial que as mídias nos apresentam
repetidamente”, orgulha-se um colaborador do Médias-Presse-Info.1 Essa dúvida
permanente provoca a impressão agradável de pertencer a uma vanguarda
esclarecida, de estar entre aqueles que não são enganados. “Admitir que algo
não está funcionando na tese oficial, compreender o modo como evidentemente ela
foi fabricada, é um trabalho [sobre si] que muitas pessoas não são capazes de
fazer, que a maioria não é capaz de fazer”, explica, satisfeito de si, o ator
Mathieu Kassovitz em um vídeo postado na internet na ocasião do décimo
aniversário do 11 de Setembro. Esse sentimento de superioridade encontra-se
também no administrador do site Stop Mensonges, um “francês que mora nos
Estados Unidos”: “Desde que tive acesso à língua inglesa, não paro de descobrir
informações na internet que até então me eram inacessíveis em francês. Essas
informações são, para a maioria das pessoas, ‘inacreditáveis’, de difícil
acesso para nosso cérebro condicionado desde o nascimento pelas mídias
oficiais, a educação tradicional”. Esse prazer de fazer parte de um grupo de
iniciados, a convicção de dispor de informações reservadas a um pequeno número,
de se distanciar do rebanho, contribui para a atração exercida pelas teorias da
conspiração.
3.
Basear-se na ciência e na razão
O
poder de sedução dessas teorias reside também em sua aparência científica e
racional. Os textos conspiracionistas transbordam de notas de rodapé, de links
de hipertexto, de gráficos que lhes conferem uma forma pseudouniversitária. O
artigo consagrado à “queda mágica da torre WTC 7” no site ReOpen911 constitui
um modelo do gênero. Planos em três dimensões, fotografias aéreas, vídeos
austeros e técnicos (dos quais um dura mais de duas horas), um estudo de um
“ex-pesquisador do CNRS de geologia-geofísica e especialista em ondas
acústicas” ou ainda um “documento de síntese produzido por arquitetos e
engenheiros” que demonstram que a queda do prédio se deve a uma operação de
demolição programada. Por trás dessa máscara de sabedoria se encontra na
verdade um circuito de informações fechado, no qual sites conspiracionistas direcionam
para outros conspiracionistas, depois para livros publicados por editoras
conspiracionistas (como a Demi Lune, na França) e para trabalhos de
“pesquisadores” marginalizados e controversos no meio universitário. Esse
funcionamento é patente no site do Réseau Voltaire [Rede Voltaire], no qual
Meyssan se autocita ao longo dos artigos.
4.
Perguntar: quem lucra com o crime?
“Quem
realmente cometeu esse ataque?”, pergunta o site de Dieudonné, Quenel Plus, a
respeito dos atentados ao Charlie Hebdo. “Quem o patrocinou? Quem lucra com o
crime?”2 Ao permitir designar um responsável para cada acontecimento, essa
última questão está na origem de todas as teorias da conspiração. A cota de
popularidade de François Hollande conheceu um grande crescimento depois das
matanças dos dias 7 e 9 de janeiro de 2015 em Paris? Não é preciso mais nada
para que o Médias-Presse-Info atribua insidiosamente a paternidade do
acontecimento ao presidente francês: “Esse atentado foi arquitetado por
serviços secretos?”, questiona uma colaboradora. “Existem, é fato, diversos
elementos perturbadores [...]. Hollande soube tirar proveito com uma prontidão
notável do efeito desse atentado, pelo qual, sem ter melhorado em nada a
situação econômica ou social da França, ele registrou um salto prodigioso nas
pesquisas... Fazer a pergunta ‘Quem lucra com o crime?’ é encontrar a
resposta.”3 Segundo Meyssan, o atentado beneficia mais Washington, que visa à
progressão do racismo antimuçulmanos para colocar em ação seu plano de
dominação do Oriente Médio. “Os patrocinadores dos atentados contra o Charlie
Hebdo não procuraram satisfazer jihadistas ou talibãs, mas neoconservadores e
falcões liberais”, afirmava desde 7 de janeiro de 2015. E Quenel Plus descobriu
outro suspeito: o site considera “completamente plausível” a teoria de um
antigo general russo segundo a qual “o ataque terrorista realizado na França é
obra de mercenários recrutados pelos Estados Unidos e Israel, cujo objetivo é
destruir a imagem do islã”.4 Na verdade, se a questão “Quem lucra com o crime?”
pode ser útil para decifrar alguns acontecimentos, ela nunca permite designar
com segurança os responsáveis. O assassinato do presidente francês Sadi Carnot
em 1894 permitiu que Jean Casimir-Perier chegasse ao Elysée. Ele, no entanto,
ordenou a ação do anarquista italiano Sante Geronimo Caserio? A Primeira Guerra
Mundial tornou a Revolução Bolchevique possível; deve-se então deduzir que um
comunista cometeu o atentado de Sarajevo?
5.
Pesquisar “detalhes perturbadores”
Uma
vez que o culpado é designado, os adeptos da teoria da conspiração procuram
todos os “detalhes perturbadores” e as “anomalias” que permitam contestar a
versão oficial e construir uma máquina de convencimento concorrente. Se alguns
argumentos relativos ao desmoronamento das torres do World Trade Center, por
exemplo, necessitam da mobilização de conhecimentos específicos para serem
contraditos, outros parecem absurdos à primeira vista. “Membros ou
simpatizantes da Irmandade Muçulmana, da Al-Qaeda ou do Daesh não teriam se contentado
em matar desenhistas ateus; eles teriam primeiro destruído os arquivos do
jornal diante de seus olhos”, aponta assim Meyssan para apoiar a ideia de que a
missão dos irmãos Kouachi “não tem ligação com a ideologia islamita”. O
essencial reside menos na solidez dos argumentos do que em seu número. Alguns
meses depois das matanças de Toulouse e de Montauban, perpetradas em março de
2012, Hicham Hamza fazia um inventário no site Oumma.com das “72 anomalias do
caso Mohamed Merah”;5 “Como Mohamed Merah encontrou um colete à prova de balas
da polícia, de tamanho ‘gendarmette’ [feminino] e adaptado à sua silhueta
fina?”; “Porque Merah teria desejado matar um militar que ele apreciava?”;
“Quem transmitiu a foto do cadáver de Merah para a revista Entrevue?” etc.
Tomadas individualmente, cada uma das questões provoca uma resposta simples,
mas o efeito de acumulação semeia a dúvida.
6.
Recusar o acaso
A
fim de reunir o maior número de detalhes perturbadores, é preciso considerar
que o acaso não existe, que todo fato é significativo. A concomitância de dois
acontecimentos é então sempre interpretada em termos de causalidade. É assim
que o suicídio, em 8 de janeiro de 2015, do segundo homem mais importante da
polícia de Limoges, que acabara de ser encarregado de uma missão dentro do caso
do atentado ao Charlie Hebdo, se tornou um “elemento perturbador”. Os
conspiracionistas também são semiologistas sem par. Se um triângulo figura numa
nota de banco ou num maço de cigarros, eles veem nisso, às vezes, o traço dos membros
da maçonaria. O princípio é antigo: alguns anos depois da Revolução Francesa,
já era aos maçons que o abade Barruel atribuía a forma triangular da lâmina da
guilhotina. E isso também funciona para a estrela judaica. Louis Farrakhan, o
dirigente da organização religiosa norte-americana Nation of Islam, explica que
as treze estrelas apresentadas nas notas verdes formam, se as religamos, os
contornos da estrela de Davi. Esse pequeno jogo que consiste em procurar a
assinatura do assassino, obrigatoriamente deixada nos locais do crime, também
possui uma variante numerológica. Segundo um artigo do WikiStrike, os ataques
contra o World Trade Center aconteceram em 11 de setembro, quer dizer, em 9/11
ou 911,6 como o número de telefone da polícia nos Estados Unidos; os ataques
contra o Charlie aconteceram em 7 de janeiro, ou seja, 1.7, ou 17, como o
número da polícia francesa. Mais um “detalhe perturbador”...
7.
Apoiar-se na história
A
história é frequentemente utilizada para apoiar teorias da conspiração e serve
para comparar acontecimentos muito diferentes. As operações sob falsas
bandeiras, numerosas na história, são mecanicamente utilizadas para provar a
culpa dos serviços secretos franceses, norte-americanos ou israelenses nas
ações terroristas atuais. “Não vamos esquecer os precedentes históricos”,
advertiu Meyssan a respeito dos ataques contra o Charlie Hebdo, antes de
ressaltar que “ao longo dos últimos anos vimos os serviços secretos
norte-americanos ou da Otan [Organização do Tratado do Atlântico Norte]: testar
na França os efeitos devastadores de algumas drogas em populações civis; apoiar
a OAS [Organização Armada Secreta] para tentar assassinar o general De Gaulle;
proceder a atentados sob falsas bandeiras contra civis em diversos
Estados-membros da Otan”.
O
caso dos testes de droga se refere a acontecimentos do verão de 1951, quando
dezenas de habitantes de Pont-Saint-Esprit, um vilarejo da região de Gard,
tiveram dor de barriga, náuseas, mal-estar e até mesmo alucinações. Meio século
depois, o enigma ainda não foi esclarecido, ainda que uma pista sólida – uma
intoxicação alimentar coletiva devido a um fungo (esporão-do-centeio) – se
destacasse. Em 2009, um jornalista norte-americano que investigava o suicídio
de um agente da CIA em 1953 afirmou ter encontrado a solução. Baseando-se no
testemunho de dois antigos agentes secretos e em um vago documento da CIA que
fazia referência ao incidente de Pont-Saint-Esprit, ele atribuiu os mal-estares
a uma operação da agência. Esta teria disseminado LSD em grande escala para
testar seus efeitos como arma ofensiva. Ainda que a maioria dos especialistas
continue inclinada a dizer que foi o fungo, é impossível refutar
definitivamente essa outra hipótese, acrescentando-se assim uma segunda camada
da teoria da conspiração à primeira.
8.
Nunca subestimar o inimigo
Os
adeptos das teorias da conspiração partilham uma crença na infalibilidade de
seus inimigos. Segundo eles, é impossível que um punhado de indivíduos socados
em uma caverna no Afeganistão tenham podido, sozinhos, destruir o World Trade
Center: com desempenho extraordinário, os serviços secretos norte-americanos
deveriam tê-los impedido. “À luz dos procedimentos habituais a respeito dos
aviões desviados, nem um desses aviões sequer deveria ter atingido o alvo,
muito menos três deles”, escreveu David Ray Griffin em Le Nouveau Pearl Harbor
[O novo Pearl Harbor] (Demi Lune, 2006). Mesmo raciocínio de Soral, em seu
site, a respeito dos irmãos Kouachi: “Uma vontade autêntica de desmantelamento
das redes islamitas deveria ter conduzido nossas forças especiais – que possuem
amplamente os meios para isso – a fazer de tudo para prendê-los vivos, a fim de
fazê-los falar...”.
No
entanto, acontece frequentemente de a polícia ou o Exército falharem. Ainda que
tenha sido habilmente preparada, a operação Eagle Claw, destinada a libertar,
em abril de 1980, os reféns detidos na embaixada norte-americana em Teerã,
fracassou lamentavelmente por causa de uma tempestade de areia, problemas
materiais e falta de helicópteros. Alguns meses depois, um homem sozinho, John
Hinckley Jr., conseguiu enganar a vigilância dos serviços de proteção de Ronald
Reagan, atirando seis balas de revólver no presidente dos Estados Unidos. Em
outubro de 1983, em Beirute, em plena Guerra do Líbano, dois atentados quase
simultâneos mataram cerca de trezentos militares norte-americanos e franceses.
No jogo das analogias históricas, por que não comparar os fracassos que
conduziram aos atentados de 11 de setembro ou de 7 de janeiro de 2015 com esses
precedentes?
9.
Nunca superestimar o inimigo
Se
os conspiracionistas estão convencidos de que seus inimigos são muito poderosos
para serem pegos de surpresa, eles, paradoxalmente, não param de atribuir a
eles erros de principiante. Por exemplo, segundo certas teorias, nenhum
astronauta teria pisado na Lua em 1969; as imagens teriam sido fabricadas pelos
Estados Unidos para impressionar a URSS. A prova: não há estrelas no céu nas
fotografias de Neil Armstrong. Os norte-americanos teriam então sido capazes de
enganar todo o planeta com uma falsa aterrissagem, mas seriam bestas o
suficiente a ponto de se esquecer de colocar algumas estrelas no seu céu
falso...
O
mesmo paradoxo existe nas teorias da conspiração mais recentes. A carteira de
identidade do mais velho dos irmãos Kouachi foi encontrada em um carro
abandonado em Paris. Esse esquecimento tão grande logo é considerado
inverossímil: a polícia teria colocado o documento ali, para incriminar os dois
homens. Mas, a fim de não levantar suspeitas, uma polícia eficiente não teria
utilizado falsos traços de DNA?
10.
Recusar a contradição
Uma
teoria da conspiração deve enfim ser hermética à contradição. Desde 1969,
alguns duvidaram da aterrissagem dos norte-americanos na Lua. Explicações foram
rapidamente apresentadas para seus questionamentos: a bandeira flutuava na
ausência de vento porque dispunha de uma armação; um efeito de perspectiva
explicava o aspecto não paralelo das sombras no chão; a ausência de estrelas
decorria da regulação necessária da máquina fotográfica etc. No entanto, mais
de cinquenta anos depois, dezenas de sites e livros continuam levantando
dúvidas sobre o acontecimento, apresentando as mesmas “provas”. Para nunca ser
abalado por um contra-argumento, basta desqualificar a fonte. A Nasa defende que
a bandeira tinha uma estrutura? Ela está mentindo, porque está de conluio com a
CIA. Testemunhas afirmam ter visto um avião atingir o Pentágono? Normal, eles
estão a serviço do governo norte-americano. Também é possível simplesmente
ignorar as contraprovas. Depois do 11 de Setembro, muitos céticos destacaram o
fato de que o governo norte-americano ocultava gravações de vozes feitas no
avião que explodiu na Pensilvânia. A administração Bush acabou autorizando que
as famílias das vítimas escutassem essas gravações. No entanto, nota Charles
Pidgen, nenhum conspiracionista fez a reparação.7 De qualquer forma, as
“provas” reunidas são tão numerosas que a invalidação de uma delas não poderia
colocar em perigo o edifício global.
Benoît
Bréville
Jornalista
e integra a redação do Le Monde Diplomatique França
Ilustração:
Odyr
Louis
Lorphelin, “Charlie Hebdo: posons-nous les vraies questions” [Charlie Hebdo:
façamos as perguntas certas], Médias-Presse-Info, 10 jan. 2015.
2
“Terrorisme semi-professionnel ou leurre?” [Terrorismo semiprofissional ou
isca?], Quenelplus.com, 8 jan. 2015.
3
Émilie Defresne, “‘Je ne suis pas Charlie’, manifestation monstre en
Tchétchénie” [“Eu não sou Charlie”, manifestação monstro na Chechênia],
Médias-Presse-Info, 19 jan. 2015.
4
“Pour le général Ivachov, ‘l’attentat à Charlie Hebdo est l’œuvre de
mercenaires’” [Para o general Ivachov, “o atentado ao Charlie Hebdo foi obra de
mercenários”], Quenelplus.com, 8 jan. 2015.
5
Hicham Hamza, “Les 72 anomalies de l’affaire Mohamed Merah” [As 72 anomalias do
caso Mohamed Merah], Oumma.com, 25 jul. 2012.
6
Em inglês, a escrita numérica das datas impõe que se coloque o mês antes do
dia.
7
Charles Pidgen, “Une superstition moderne: la fausseté en soi des théories de
la conspiration” [Uma superstição moderna: a falsidade das teorias da
conspiração], Agone, n.47, Marselha, 2012.
http://www.diplomatique.org.br/artigo.php?id=1889#.VbD0vv47oec.twitter

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