quarta-feira, 1 de outubro de 2014

CAMINHADAS DAS SEXTAS-FEIRAS








Sexta-feira é o dia em que eu tiro para ir e voltar ao fórum caminhando, percorrendo na ida e na vinda, em torno de 13 quilômetros. Eu tenho ainda esta compulsão por caminhadas, resquícios de meus tempos de hippie e de músico.

Naturalmente eu não posso ter compromisso com hora marcada, pois geralmente encontro velhos conhecidos na rua que me param para conversar, coisa que eu faço com muito prazer. Pois nesta sexta-feira, dia 26 de Setembro, encontrei um músico com o qual eu trabalhei entre os anos de 1985 a 1987. Ele me contou que havia sofrido alguns revezes em virtude de problemas familiares, fato que o levou a sofrer de depressão, culminando em um benefício previdenciário.

Como sói acontecer quando dois músicos se encontram, relembramos algumas velhas histórias e fatos pitorescos de nossas andanças pelos palcos da vida, até chegarmos ao inevitável assunto da política. Foi neste momento que eu percebi que infelizmente a mídia burguesa já havia inoculado nele o seu veneno de ódio contra a política e principalmente contra o PT. E isto ficou transparente quando ele fez aquele discurso decorado de que “nunca tinha visto tanta corrupção como agora” e de que este salário mínimo miserável que o “governo” nos dá.

Pois bem. Eu pensei em encerrar a nossa conversa por ali, pois sei que quando defendo meus pontos de vista, eu costumo ser extremamente chato e causo muito desconforto em meus interlocutores. Mas como eu vi que ele estava disposto a continuar a conversa, eu lhe perguntei se ele lembrava das músicas do RPM que nós tocávamos à época, ao que ele respondeu enfaticamente que sim. Então eu lhe perguntei se ele lembrava da canção Alvorada Voraz que falava sobre "o caso Morel, o crime da mala, Coroa-Brastel, o escândalo das jóias e o contrabando e um bando de gente importante envolvida". e neste momento seus olhos brilharam, pois fazíamos sucesso interpretando tais canções.

Pois é amigo, disse-lhe eu. Ela se referia a alguns dos escândalos que ocorriam naqueles tempos de ditadura militar, mas que permaneceram impunes e que só chegaram ao conhecimento do público por descuido do regime, pois do contrário eles restariam eternamente ocultos. Completei então, que não é que hoje exista mais corrupção do que naquela época. O que acontece é que atualmente se tem autonomia para investigar, divulgar e processar todo e qualquer escândalo. Esta é a grande diferença. Antes do PT no poder, ninguém investigava ou quando isto acontecia, alguém engavetava. Hoje, não; temos investigação, processo e punição em caso de condenação.

Já, em relação aos salário irrisórios, eu lhe perguntei se ele lembrava do valor do salário-mínimo em 2002. Como ele não lembrava, eu lhe disse que era de R$ 200,00 e que este valor à época equivalia a 85 dólares aproximadamente. E que naquele momento o grande sonho do Senador Paulo Paim era obter um salário mínimo que correspondesse 100 dólares. 

E hoje o que acontece, disse eu? Temos um salário mínimo de R$ 724,00 que corresponde a 308 dólares aproximadamente. Ou seja, o sonho do senador se realizou, e mais, triplicou durante os governos de Lula e Dilma. É claro que eu não sou nenhum economista, mas esta minha lógica eu penso que tenha sentido para demonstrar que o salário mínimo teve sim um aumento em seu poder aquisitivo. Assim sendo, levando-se em conta que a grande maioria das aposentadorias no Brasil são concedidas no valor de um salário mínimo, podemos inferir que estes milhões de pessoas estão sendo beneficiadas.

Ele me escutou atentamente e quando terminei minha explanação disse que nunca tinha pensado nisto. Que realmente, tudo o que eu havia dito era verdade, mas que eram fatos que para ele haviam passado desapercebidos.

Bem, é claro que isto não aconteceu da noite para o dia, pois sempre existem muitos obstáculos a serem vencidos para a implementação de medidas que beneficiem a sociedade como um todo, principalmente quando se trata da camada mais carente, pois os detentores do poder econômico sempre acham que fazer investimentos em periferia significa que os governos estão “jogando dinheiro fora”.

Dei ainda uma explicação sobre o verdadeiro significado de cidadania e quarenta minutos depois do início de nossa conversa, disse ao meu velho amigo que precisava ir antes que o fórum fechasse. Eu estava chateado achando que havia constrangido meu interlocutor, quando para minha surpresa ele me disse: “Magrão, (meu apelido dos tempos de músico) conversar contigo durante estes minutos valeram mais do que todas as conversas que tive com os psicólogos com os quais estou me tratando. Obrigado amigo, pois esta conversa me encheu de esperança e de crença de que podemos sim continuar buscando mudanças para melhor”.

Saí dali com a alma lavada, pois sem querer havia conseguido salvar um amigo que já estava prestes a se afogar neste mar de informações distorcidas que são despejadas diariamente por esta mídia de esgoto. Saí dali matutando em quão importante é este trabalho de formiguinha, de conversar com as pessoas cara a cara, alertando-se dos perigos das ideologias que acenam para o povo com ares de salvadoras, mas que no fundo querem apenas proteger e manter uma pequena elite no poder sem estabelecer qualquer mudança na ordem posta. Ou seja, no ápice da pirâmide uma pequena minoria com todas as benesses e na base a maioria da população dando sustentação a tudo isto, sem direito a um mínimo de dignidade.

Realmente, esta foi mais uma de minhas caminhadas de sexta-feira que fizeram com que eu ganhasse meu dia. Segui meu rumo sentindo uma certa ‘leveza na alma’.

Jorge André Irion Jobim

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