Sexta-feira
é o dia em que eu tiro para ir e voltar ao fórum caminhando, percorrendo na ida
e na vinda, em torno de 13 quilômetros. Eu tenho ainda esta compulsão por
caminhadas, resquícios de meus tempos de hippie e de músico.
Naturalmente
eu não posso ter compromisso com hora marcada, pois geralmente encontro velhos
conhecidos na rua que me param para conversar, coisa que eu faço com muito
prazer. Pois nesta sexta-feira, dia 26 de Setembro, encontrei um músico com o
qual eu trabalhei entre os anos de 1985 a 1987. Ele me contou que havia sofrido
alguns revezes em virtude de problemas familiares, fato que o levou a sofrer de
depressão, culminando em um benefício previdenciário.
Como
sói acontecer quando dois músicos se encontram, relembramos algumas velhas
histórias e fatos pitorescos de nossas andanças pelos palcos da vida, até
chegarmos ao inevitável assunto da política. Foi neste momento que eu percebi
que infelizmente a mídia burguesa já havia inoculado nele o seu veneno de ódio
contra a política e principalmente contra o PT. E isto ficou transparente
quando ele fez aquele discurso decorado de que “nunca tinha visto tanta
corrupção como agora” e de que este salário mínimo miserável que o “governo”
nos dá.
Pois
bem. Eu pensei em encerrar a nossa conversa por ali, pois sei que quando
defendo meus pontos de vista, eu costumo ser extremamente chato e causo muito
desconforto em meus interlocutores. Mas como eu vi que ele estava disposto a
continuar a conversa, eu lhe perguntei se ele lembrava das músicas do RPM que
nós tocávamos à época, ao que ele respondeu enfaticamente que sim. Então eu lhe
perguntei se ele lembrava da canção Alvorada Voraz que falava sobre "o
caso Morel, o crime da mala, Coroa-Brastel, o escândalo das jóias e o contrabando
e um bando de gente importante envolvida". e neste momento seus olhos
brilharam, pois fazíamos sucesso interpretando tais canções.
Pois
é amigo, disse-lhe eu. Ela se referia a alguns dos escândalos que ocorriam
naqueles tempos de ditadura militar, mas que permaneceram impunes e que só
chegaram ao conhecimento do público por descuido do regime, pois do contrário
eles restariam eternamente ocultos. Completei então, que não é que hoje exista
mais corrupção do que naquela época. O que acontece é que atualmente se tem
autonomia para investigar, divulgar e processar todo e qualquer escândalo. Esta
é a grande diferença. Antes do PT no poder, ninguém investigava ou quando isto
acontecia, alguém engavetava. Hoje, não; temos investigação, processo e punição
em caso de condenação.
Já,
em relação aos salário irrisórios, eu lhe perguntei se ele lembrava do valor do
salário-mínimo em 2002. Como ele não lembrava, eu lhe disse que era de R$ 200,00 e
que este valor à época equivalia a 85 dólares aproximadamente. E que naquele
momento o grande sonho do Senador Paulo Paim era obter um salário mínimo que
correspondesse 100 dólares.
E
hoje o que acontece, disse eu? Temos um salário mínimo de R$ 724,00 que
corresponde a 308 dólares aproximadamente. Ou seja, o sonho do senador se
realizou, e mais, triplicou durante os governos de Lula e Dilma. É claro que eu
não sou nenhum economista, mas esta minha lógica eu penso que tenha sentido
para demonstrar que o salário mínimo teve sim um aumento em seu poder
aquisitivo. Assim sendo, levando-se em conta que a grande maioria das
aposentadorias no Brasil são concedidas no valor de um salário mínimo, podemos
inferir que estes milhões de pessoas estão sendo beneficiadas.
Ele
me escutou atentamente e quando terminei minha explanação disse que nunca tinha
pensado nisto. Que realmente, tudo o que eu havia dito era verdade, mas que
eram fatos que para ele haviam passado desapercebidos.
Bem,
é claro que isto não aconteceu da noite para o dia, pois sempre existem muitos
obstáculos a serem vencidos para a implementação de medidas que beneficiem a
sociedade como um todo, principalmente quando se trata da camada mais carente,
pois os detentores do poder econômico sempre acham que fazer investimentos em
periferia significa que os governos estão “jogando dinheiro fora”.
Dei
ainda uma explicação sobre o verdadeiro significado de cidadania e quarenta
minutos depois do início de nossa conversa, disse ao meu velho amigo que
precisava ir antes que o fórum fechasse. Eu estava chateado achando que havia
constrangido meu interlocutor, quando para minha surpresa ele me disse:
“Magrão, (meu apelido dos tempos de músico) conversar contigo durante estes
minutos valeram mais do que todas as conversas que tive com os psicólogos com
os quais estou me tratando. Obrigado amigo, pois esta conversa me encheu de
esperança e de crença de que podemos sim continuar buscando mudanças para
melhor”.
Saí
dali com a alma lavada, pois sem querer havia conseguido salvar um amigo que já
estava prestes a se afogar neste mar de informações distorcidas que são
despejadas diariamente por esta mídia de esgoto. Saí dali matutando em quão
importante é este trabalho de formiguinha, de conversar com as pessoas cara a
cara, alertando-se dos perigos das ideologias que acenam para o povo com ares
de salvadoras, mas que no fundo querem apenas proteger e manter uma pequena
elite no poder sem estabelecer qualquer mudança na ordem posta. Ou seja, no
ápice da pirâmide uma pequena minoria com todas as benesses e na base a maioria
da população dando sustentação a tudo isto, sem direito a um mínimo de
dignidade.
Realmente,
esta foi mais uma de minhas caminhadas de sexta-feira que fizeram com que eu
ganhasse meu dia. Segui meu rumo sentindo uma certa ‘leveza na alma’.
Jorge
André Irion Jobim
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