sexta-feira, 22 de novembro de 2013

O CAPADÓCIO E A UFSM


Gosto de passear pelo campus da Universidade Federal de Santa Maria, pois parece que de todos os lados exala o conhecimento e vejo sempre estampado nos rostos dos estudantes que por lá se movimentam, a esperança de portas se abrindo e mostrando um futuro brilhante logo ali adiante.

Cada vez que eu preciso ir até aquele local, aproveito para fazer uma caminhada por todas as suas dependências e para ficar observando toda aquela correria em busca do saber. Mas existe um prédio que eu olho com muito carinho e saudosismo. É justamente aquele local em que eu, próximo de terminar o curso de segundo grau e em vias de prestar vestibular, compareci para saber que tipo de teste eu deveria fazer para ingressar no curso de música.

Eu havia estudado teoria, solfejo e violão clássico em um conservatório local em um curso com duração de cinco anos (acho que não existem mais conservatórios) e aos 17 anos já estava ensinando música em uma destas instituições. Claro que eram aulas em que ensinávamos leitura musical aos alunos, com partitura e tudo, ao contrário de hoje em que a maioria dos alunos aprende através de cifras facilmente encontráveis na internet.

Pois para minha decepção, fui avisado que não poderia fazer o curso pretendido, já que eles só aceitavam alunos que tocavam instrumentos nobres, e entre eles não estava o violão, ainda que clássico. Perguntei-lhes então que instrumento eu deveria aprender e recebi a resposta de que eles somente aceitavam piano, violino, violoncelo e outros tantos, cuja aprendizagem exige muitos anos de estudo contínuo.

No momento em que eu ouvi aquela história de instrumentos nobres, me veio à mente uma palavra que eu havia lido uma vez em um destes manuais de violão que todos de minha geração utilizavam sempre que pretendiam iniciar seus estudos dos primeiros acordes. Era o Método Paraguassu em cuja capa estava escrito a palavra CAPADÓCIO. Curioso, fui procurar no dicionário e descobri que ela significava trapaceiro, vagabundo, tocador de violão nas esquinas, malandro, etc. Enfim, uma persona non grata, mal vista aos olhos da sociedade.

Eu um outro dos meus métodos de leitura musical eu havia lido também que o violão por se tratar de um instrumento muito usado na música popular brasileira e pelo povo, passou a ter má fama, por ser considerado por muitos como um instrumento de boêmios, coisa que o levou a se tornar um símbolo de vagabundagem.

Este estigma perdurou por muito tempo, até que Nair de Tefé, esposa do presidente do Brasil, o marechal Hermes da Fonseca, uma mulher à frente de seu tempo, introduziu o violão nos salões da sociedade em saraus que ela promovia em virtude de sua paixão por música popular e nos quais reunia amigos para recitais de modinhas.

De qualquer maneira, o ranço de tal discriminação perdurou no tempo e naquele momento, eu sentia na pele aquilo que tantos outros violonistas já haviam sentido em tempos pretéritos; eu não passava de um reles capadócio.

Eu já ia saindo bastante abatido, quando o professor que havia me atendido me disse que eles estavam abrindo um cursinho de flauta doce e que como eu já lia música, poderia participar do curso e se aprendesse rapidamente, ainda teria tempo de ingressar no curso que eu tanto queria.

Sem muito entusiasmo, resolvi fazer o referido curso e freqüentei as aulas todas, aprendendo realmente a tocar a indigitada flauta doce (hoje já não lembro de muita coisa). Acontece que este não era o meu sonho de vida. Eu queria mesmo era dar sequência aos estudos de violão e foi por isto que deixei de lado a idéia de vestibular.

Alguns anos mais tarde fiquei sabendo que a UFSM havia aberto a possibilidade de aceitar alunos de violão (com o professor uruguaio Álvaro Pierri), mas quando isto ocorreu eu já havia me profissionalizado e estava trabalhando em Porto Alegre, onde eu participava de uma banda de rock que por necessidades financeiras, também tocava bailes e em casas noturnas durante a semana.

Tempos depois, eu estava tocando com minha banda em um estabelecimento noturno em Santa Maria na época do vestibular, e na saída tivemos oportunidade de ver a correria dos estudantes em direção à UFSM, bastante concorrida por ser a única instituição de ensino superior da região. Comentamos da dificuldade de se conseguir passar nas provas e nosso contrabaixista Cláudio Nunes que era aluno do curso de música da UFSM e inclusive tocava em sua Orquestra Sinfônica, comentou a respeito da quase impossibilidade de se conseguir vencer todos os degraus sem passar pelos famigerados cursinhos pré-vestibulares. Pois eu, por brincadeira disse que não, que qualquer um com vontade e dedicação consegue atingir tal objetivo sem necessidade dos tais cursinhos e disse aos meus colegas que se eles quisessem, eu poderia confirmar minha tese.

Eles disseram que sem esta bengala dos preparatórios eu somente poderia passar em cursos em que a procura era menor. Respondi que não, que isso poderia acontecer até mesmo naqueles em que o número de candidatos por vaga é bastante grande. Como os mais procurados à época eram os cursos de medicina, direito e engenharia, acabei escolhendo direito, já que vivíamos os duros tempos de ditadura militar e o curso viria a calhar, pois através dele eu poderia ajudar muita gente que vivia oprimida pelo nefasto regime.

A aposta acabou tomando uma dimensão inesperada e de um momento para outro eu passei a ser procurado pelos integrantes deste grupo peculiar e fascinante que freqüenta a noite como vendedores de churrasquinho, guardadores de carros, motoristas de táxi, profissionais do sexo, garçons e outros tantos que por ela transitam. Eles me diziam que agora eu iria me formar e seria o “adeva” que iria defendê-los das agressões a que estavam sujeitos, principalmente aquelas levadas a efeito por policiais que à época tinham carta branca para fazerem o que queriam contra eles sem precisarem prestar contas a ninguém.

E foi assim que comecei a comprar livros e estudar por conta nas horas de folga sentado embaixo do meu pinheiro de estimação enquanto fazia exercícios de técnica de guitarra.

Pois bem. Eu passei na primeira fase na qual eram classificados apenas oitenta concorrentes para ocupar as quarenta vagas reservadas ao curso de direito. Faltava apenas passar pela segunda parte que era uma prova escrita com questões de história e de língua inglesa na qual eu deveria naturalmente superar no mínimo, outros quarenta concorrentes. Acabei passando, ganhando a aposta e para não decepcionar todas aquelas pessoas que haviam depositado confiança em mim, concluí o curso com uma das melhores médias de minha turma.

Continuei trabalhando com música, profissão que exerci durante mais de trinta anos e isto me possibilitava advogar de maneira quase que graciosa para muitas daquelas pessoas simples que eu conhecia. Posteriormente, já mais velho, meu corpo não permitia mais exercer as duas profissões, até porque como eu tenho dito, ambas são amantes exigentes e eu já não podia dar conta das duas. Um pouco alquebrado pelos anos de vida noturna, resolvi me dedicar apenas ao direito, coisa que já venho fazendo de maneira exclusiva nos últimos quinze anos.

Bem, estas são apenas algumas reminiscências que faço enquanto caminho pelas vielas da UFSM, observando tudo e fotografando algumas pessoas e detalhes interessantes com os quais me deparo.

Boas lembranças de alguém que se tornou advogado em virtude de uma aposta, mas que continua tendo alma de músico. Um capadócio eternamente rebelde e contestador. Com muito orgulho.

Jorge André Irion Jobim.



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