Gosto
de passear pelo campus da Universidade Federal de Santa Maria, pois parece que
de todos os lados exala o conhecimento e vejo sempre estampado nos rostos dos
estudantes que por lá se movimentam, a esperança de portas se abrindo e
mostrando um futuro brilhante logo ali adiante.
Cada
vez que eu preciso ir até aquele local, aproveito para fazer uma caminhada por
todas as suas dependências e para ficar observando toda aquela correria em
busca do saber. Mas existe um prédio que eu olho com muito carinho e
saudosismo. É justamente aquele local em que eu, próximo de terminar o curso de
segundo grau e em vias de prestar vestibular, compareci para saber que tipo de
teste eu deveria fazer para ingressar no curso de música.
Eu
havia estudado teoria, solfejo e violão clássico em um conservatório local em
um curso com duração de cinco anos (acho que não existem mais conservatórios) e
aos 17 anos já estava ensinando música em uma destas instituições. Claro que
eram aulas em que ensinávamos leitura musical aos alunos, com partitura e tudo,
ao contrário de hoje em que a maioria dos alunos aprende através de cifras
facilmente encontráveis na internet.
Pois
para minha decepção, fui avisado que não poderia fazer o curso pretendido, já
que eles só aceitavam alunos que tocavam instrumentos nobres, e entre eles não
estava o violão, ainda que clássico. Perguntei-lhes então que instrumento eu
deveria aprender e recebi a resposta de que eles somente aceitavam piano,
violino, violoncelo e outros tantos, cuja aprendizagem exige muitos anos de
estudo contínuo.
No
momento em que eu ouvi aquela história de instrumentos nobres, me veio à mente
uma palavra que eu havia lido uma vez em um destes manuais de violão que todos
de minha geração utilizavam sempre que pretendiam iniciar seus estudos dos
primeiros acordes. Era o Método Paraguassu em cuja capa estava escrito a
palavra CAPADÓCIO. Curioso, fui procurar no dicionário e descobri que ela
significava trapaceiro, vagabundo, tocador de violão nas esquinas, malandro,
etc. Enfim, uma persona non grata, mal vista aos olhos da sociedade.
Eu um outro dos meus métodos de leitura musical eu havia
lido também que o violão por se tratar de um instrumento muito usado na música
popular brasileira e pelo povo, passou a ter má fama, por ser considerado por
muitos como um instrumento de boêmios, coisa que o levou a se tornar um símbolo
de vagabundagem.
Este
estigma perdurou por muito tempo, até que Nair de Tefé, esposa do presidente do
Brasil, o marechal Hermes da Fonseca, uma mulher à frente de seu tempo,
introduziu o violão nos salões da sociedade em saraus que ela promovia em
virtude de sua paixão por música popular e nos quais reunia amigos para
recitais de modinhas.
De
qualquer maneira, o ranço de tal discriminação perdurou no tempo e naquele
momento, eu sentia na pele aquilo que tantos outros violonistas já haviam
sentido em tempos pretéritos; eu não passava de um reles capadócio.
Eu
já ia saindo bastante abatido, quando o professor que havia me atendido me
disse que eles estavam abrindo um cursinho de flauta doce e que como eu já lia
música, poderia participar do curso e se aprendesse rapidamente, ainda teria
tempo de ingressar no curso que eu tanto queria.
Sem
muito entusiasmo, resolvi fazer o referido curso e freqüentei as aulas todas,
aprendendo realmente a tocar a indigitada flauta doce (hoje já não lembro de
muita coisa). Acontece que este não era o meu sonho de vida. Eu queria mesmo
era dar sequência aos estudos de violão e foi por isto que deixei de lado a idéia
de vestibular.
Alguns
anos mais tarde fiquei sabendo que a UFSM havia aberto a possibilidade de
aceitar alunos de violão (com o professor uruguaio Álvaro Pierri), mas quando
isto ocorreu eu já havia me profissionalizado e estava trabalhando em Porto
Alegre, onde eu participava de uma banda de rock que por necessidades
financeiras, também tocava bailes e em casas noturnas durante a semana.
Tempos
depois, eu estava tocando com minha banda em um estabelecimento noturno em
Santa Maria na época do vestibular, e na saída tivemos oportunidade de ver a
correria dos estudantes em direção à UFSM, bastante concorrida por ser a única
instituição de ensino superior da região. Comentamos da dificuldade de se
conseguir passar nas provas e nosso contrabaixista Cláudio Nunes que era aluno
do curso de música da UFSM e inclusive tocava em sua Orquestra Sinfônica,
comentou a respeito da quase impossibilidade de se conseguir vencer todos os
degraus sem passar pelos famigerados cursinhos pré-vestibulares. Pois eu, por brincadeira
disse que não, que qualquer um com vontade e dedicação consegue atingir tal
objetivo sem necessidade dos tais cursinhos e disse aos meus colegas que se
eles quisessem, eu poderia confirmar minha tese.
Eles
disseram que sem esta bengala dos preparatórios eu somente poderia passar em
cursos em que a procura era menor. Respondi que não, que isso poderia acontecer
até mesmo naqueles em que o número de candidatos por vaga é bastante grande.
Como os mais procurados à época eram os cursos de medicina, direito e
engenharia, acabei escolhendo direito, já que vivíamos os duros tempos de
ditadura militar e o curso viria a calhar, pois através dele eu poderia ajudar
muita gente que vivia oprimida pelo nefasto regime.
A
aposta acabou tomando uma dimensão inesperada e de um momento para outro eu
passei a ser procurado pelos integrantes deste grupo peculiar e fascinante que
freqüenta a noite como vendedores de churrasquinho, guardadores de carros,
motoristas de táxi, profissionais do sexo, garçons e outros tantos que por ela
transitam. Eles me diziam que agora eu iria me formar e seria o “adeva” que
iria defendê-los das agressões a que estavam sujeitos, principalmente aquelas
levadas a efeito por policiais que à época tinham carta branca para fazerem o
que queriam contra eles sem precisarem prestar contas a ninguém.
E
foi assim que comecei a comprar livros e estudar por conta nas horas de folga
sentado embaixo do meu pinheiro de estimação enquanto fazia exercícios de
técnica de guitarra.
Pois
bem. Eu passei na primeira fase na qual eram classificados apenas oitenta
concorrentes para ocupar as quarenta vagas reservadas ao curso de direito.
Faltava apenas passar pela segunda parte que era uma prova escrita com questões
de história e de língua inglesa na qual eu deveria naturalmente superar no
mínimo, outros quarenta concorrentes. Acabei passando, ganhando a aposta e para
não decepcionar todas aquelas pessoas que haviam depositado confiança em mim,
concluí o curso com uma das melhores médias de minha turma.
Continuei
trabalhando com música, profissão que exerci durante mais de trinta anos e isto
me possibilitava advogar de maneira quase que graciosa para muitas daquelas
pessoas simples que eu conhecia. Posteriormente, já mais velho, meu corpo não
permitia mais exercer as duas profissões, até porque como eu tenho dito, ambas
são amantes exigentes e eu já não podia dar conta das duas. Um pouco alquebrado
pelos anos de vida noturna, resolvi me dedicar apenas ao direito, coisa que já
venho fazendo de maneira exclusiva nos últimos quinze anos.
Bem,
estas são apenas algumas reminiscências que faço enquanto caminho pelas vielas
da UFSM, observando tudo e fotografando algumas pessoas e detalhes
interessantes com os quais me deparo.
Boas
lembranças de alguém que se tornou advogado em virtude de uma aposta, mas que
continua tendo alma de músico. Um capadócio eternamente rebelde e contestador.
Com muito orgulho.
Jorge
André Irion Jobim.

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