Não
me coaduno com estas pessoas que saem às ruas com cartazes contendo protestos
genéricos como “abaixo a corrupção”, “todo o político é ladrão” e outros
similares. Acusações de incompetência e de corrupção generalizada de todos os governantes,
todos os políticos ou de todos os agentes públicos é o que popularmente podemos
chamar de “uma faca de dois gumes”. Elas instauram o caos, já que as pessoas
não conseguem definir exatamente contra o que estão lutando, tornando-as
facilmente manipuláveis. É bom que tenhamos em mente que, historicamente, tais
situações sempre foram utilizadas como chave de ignição de movimentos
antidemocráticos levados a efeito por grupos pequenos, mas que por terem
feições ditatoriais e serem bem organizados, se aproveitam da massa incauta
para atingirem seus objetivos.
Antes
de pensarmos em protesto, é necessário que saibamos que a nossa Constituição
Federal adotou a tripartição de poderes, idealizada por Aristóteles e efetivada
por Montesquieu em O Espírito das Leis. Neste sistema, cada poder exerce uma
função típica que lhe dá o nome, mas também as outras funções atípicas de forma
secundária. Em palavras simples, deve ficar claro que o poder executivo tem a
função típica de governar e administrar, o legislativo de legislar e o
judiciário de julgar.
Assim
sendo, é necessário focarmos exatamente contra o que estamos nos insurgindo. Se
nosso questionamento é administrativo, vamos focar nosso protesto contra o
executivo; se é uma questão legislativa, direcionemo-nos contra o poder
legislativo e finalmente, se nossas divergências forem contra decisões
judiciais, vamos concentrar nossos protestos contra o poder judiciário. E não
vamos generalizar dizendo que toda a administração pública, todo o legislativo
ou todo o poder judiciário é incompetente ou corrupto. Vamos especificar e
esmiuçar exatamente quais são os fatos que nos levaram a questionarmos este ou
aquele poder. Mas não fiquemos apenas nisso; vamos dar nomes àqueles agentes
públicos que estão agindo contrariamente ao interesse público e destruindo a
imagem de qualquer um dos órgãos ou entidades já citadas.
Sim,
porque é necessário que tenhamos em mente que protestos genéricos têm o condão
de legitimar qualquer coisa, inclusive as condutas futuras daqueles que durante
séculos nos escravizaram, nos dominaram e pretendem voltar a dominar, já que
foram finalmente alijados do poder.
Afastá-los
do comando da nação, foi uma tarefa dura, longa, tendo custado o sangue de
muita gente corajosa que ousou se insurgir contra eles. Não vamos entregar
estas conquistas de mãos beijadas para aqueles que durante tanto tempo
restringiram nossas liberdades e ceifaram vidas de nossos irmãos. Vamos dizer
não aos protestos genéricos e sem fundamentos sólidos baseados em fatos específicos,
para que não venhamos a nos arrepender mais tarde.
Jorge
André Irion Jobim. Advogado de Santa Maria, RS

Nenhum comentário:
Postar um comentário