Eu
sempre fui favorável às manifestações populares, até pelo fato de que venho de
uma geração que foi violentamente reprimida caso quisesse fazê-las. E não eram
balas de borracha; eram balas letais. E aqueles que eram apanhados não eram
presos e liberados logo a seguir como acontece hoje graças aos avanços de nosso
sistema penal e processual e por vivermos em uma democracia plena.
Na
época da ditadura eles seriam torturados e jogados em prisões sem que seus
parentes sequer soubessem onde estavam. Algumas inclusive, seria mortas e seus
corpos nunca mais seriam encontrados. Basta estudarem um pouco a nossa história
recente e verão que eu tenho razão.
O
que não me coaduno é com certas pessoas que saem às ruas com estas pautas genéricas
ditadas pela grande mídia. Por exemplo, eu gostaria de conversar com aqueles
que são contra a PEC 37 se eles sabem realmente o que ela representa. Se eles
têm a noção de que poder de investigar, acusar e julgar nas mãos de apenas uma
pessoa ou órgão representa o retorno ao obscurantismo da inquisição que levou à
morte injusta de milhares de pessoas durante uma época que não sem razão foi
chamada de Idade das Trevas.
A
separação estanque de tais atribuições significou um avanço de nosso direito que
não pode ser destruído assim sem mais nem menos sob pena de ficarmos à mercê de
um retrocesso pernicioso. Daqui a pouco teremos gente empunhando cartazes
favoráveis aos julgamentos sumários e linchamentos em praça pública achando que
com isto estarão lutando por uma justiça mais eficiente.
Não podemos nos deixar levar por este deslumbramento
revolucionário inconsequente. Vamos lutar por pautas mais específicas que
representem realmente um aperfeiçoamento de nossa democracia. Da solidez de
cada tijolo que fabricarmos hoje, dependerá a construção final deste estado que
sonhamos, capaz de nos proporcionar saúde, educação e a segurança de boa
qualidade e que, por sua transparência total, será naturalmente infenso à
corrupção.
Jorge
André Irion Jobim.

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