Luís
Roberto Barroso: "Vossa excelência acha que o problema foi o enfrentamento
da corrupção, e não a corrupção?"
Ricardo
Lewandowski: "Nós estamos concordes, ministro. Vossa excelência quer
trazer à baila aqui o assunto da corrupção, como se aqueles que estivessem
contra o modus operandi da 'lava jato' fossem favoráveis à corrupção. E quero
dizer mais, ministro Barroso. Não concordo com vossa excelência que as
mensagens que foram veiculadas a partir do material arrecadado na operação
spoofing — e, diga-se, periciado pela Polícia Federal, que foi utilizado para
oferecer denúncia contra os hackers — não constituíram 'meros pecadilhos'.
Porque um juiz indicar testemunhas para a acusação não me parece um mero
pecadilho. O que dizem as mensagens? Que os procuradores de Curitiba estavam
acertando clandestinamente negociações com autoridades estrangeiras. Combinação
do momento do oferecimento da denúncia e outras questões não me parecem
pecadilhos".
Barroso:
"Eu pensei que fosse vossa excelência fosse garantista. Essa é uma prova
ilícita, colhida mediante um crime."
Lewandowski:
"Pode ser ilícita. Mas enfim, foi amplamente veiculada e não foi
adequadamente, a meu ver, contestada."
Barroso:
"A Polícia Federal não atestou a autenticidade dessas provas."
Lewandowski:
"Atestou a integridade da cadeia de custódia e só não pode completar a
perícia porque os procuradores e o juiz destruíram as provas, deletaram as
mensagens."
Barroso:
"Mas é produto de crime, ministro. Então o crime compensa para vossa
excelência?"
Lewandowski:
"Existe outro provérbio latino que ninguém pode alegar a própria torpeza
em benefício seu. Mas eu não quero me aprofundar nisso. Eu quero apenas dizer
que existem visões contrapostas. O que nós temos que combater aqui são modus
operandi por parte seja do Ministério Público, seja do Poder Judiciário,
incompatíveis com Estado Democrático de Direito. Historiadores haverão de
avaliar qual foi o resultado prático em termos da economia brasileira a médio e
longo prazo. O que eu posso dizer desde logo a vossa excelência é que nós
retrocedemos da posição de oitava economia do mundo para 14ª. Então, data
vênia, não concordo que estamos tratando de 'pecadilhos'. Estamos tratando não
de pecados proverbiais veniais, mas talvez de pecados mortais, que constituem,
dentre outras coisas, em colaboração à margem da lei brasileira com autoridades
estrangeiras."
A
discussão entre os ministros Ricardo Lewandowski e Luís Roberto Barroso,
ocorrida na sessão em que o Supremo Tribunal Federal declarou a suspeição do
ex-juiz Sergio Moro para julgar o ex-presidente Lula, é reproduzida no
documentário Amigo secreto, de Maria Augusta Ramos, que estreia nesta
quinta-feira (16/6), como exemplo da maneira com que as mensagens reveladas
pela Vaza Jato geraram polêmica, mas ajudaram a reverter abusos da operação
"lava jato".
O
filme mostra como as mensagens entre procuradores de Curitiba e Moro, reveladas
pela Vaza Jato, explicitaram a parcialidades dos agentes da Justiça em relação
a Lula e o PT. Para isso, a película acompanha os jornalistas Leandro Demori,
ex-editor do The Intercept Brasil — que recebeu os arquivos —, Carla Jimenez,
Marina Rossi e Regiane Oliveira, todas do El País Brasil, que encerrou as
operações em dezembro, na análise do material, entrevistas com advogados e
redação de reportagens.
"Amigo
secreto" era o nome do grupo de mensagens de procuradores da "lava
jato" no Telegram. Em uma cena, Demori discute com Paula Bianchi, sua
colega de Intercept, conversa dos integrantes do Ministério Público Federal em
março de 2016, após a busca a apreensão na casa de Lula.
Na
época, circulava na internet uma montagem com fotos contrapostas do
ex-presidente Itamar Franco e de Lula em uma sala do Palácio do Planalto com um
crucifixo, que seria obra do escultor barroco Aleijadinho, na parede. A
escultura sumiu do recinto depois que o petista deixou a presidência. A
suspeita dos procuradores era de que Lula tinha roubado o crucifixo após
encerrar o seu mandato. A expectativa era encontrar o objeto na casa de Lula e
o denunciar por peculato.
Um
decepcionado Deltan Dallagnol, ex-chefe da "lava jato" em Curitiba,
informa ao procurador Orlando Martello que o crucifixo era um presente pessoal
dado a Lula e que eles haviam caído em fake news. Por causa disso, Moro lhe
pediu para tomar cuidado com a história.
"Essa
matéria é o resumo da 'lava jato'", diz Paula Bianchi. "É o resumo de
tudo. Incompetência misturada com desejo", complementa Demori.
Atuação parcial
Amigo
secreto mostra como a "lava jato", especialmente Sergio Moro, quebrou
a economia, tirou Lula ilegalmente das eleições de 2018 e contribuiu para a
ascensão de Jair Bolsonaro — cujo governo, por sua vez, gerou aumento da
pobreza, devastação ambiental e quase 670 mil mortos por Covid-19 (até 15/6).
A
cena de abertura já explicita a parcialidade de Moro para julgar Lula. Em
sessão de 10 de maio de 2017, o juiz faz perguntas ao ex-presidente sobre o
tríplex no Guarujá (SP). O petista explica que sua ex-mulher, Marisa Letícia,
comprou cota de apartamento no prédio em 2005. Só em 2013 ele foi ver o tríplex
e disse que não gostou do imóvel, considerando que ele tinha vários defeitos.
Moro insiste em saber o porquê de Lula não ter optado por ficar com o imóvel.
"Eu não fiquei porque não tinha como ficar", diz Lula. "E esse
foi o motivo também que influiu na decisão? Ou não?", questiona o
julgador. "O motivo foi que eu não tinha solicitado e não quis o
apartamento."
Cristiano
Zanin Martins, advogado de Lula, é forçado a intervir. "Excelência, eu sei
que o senhor tem um relatório de questões previamente formuladas, mas eu
pediria a vossa excelência que adaptasse esse rol de perguntas formuladas a
respostas já dadas pelo ex-presidente Lula. Porque vossa excelência está
repetindo muitas questões que, em respostas anteriores, ele já respondeu."
Em
outra parte do depoimento, Moro pergunta se Lula não tinha conhecimento dos
crimes na Petrobras, uma vez que indicou os ex-diretores Paulo Roberto Costa,
Renato Duque e Jorge Luiz Zelada, condenados na "lava jato".
"Nem
eu [sabia], nem o senhor, nem o Ministério Público, nem a Petrobras, nem a
imprensa, nem a Polícia Federal. Todos nós só soubemos quando houve o grampo da
conversa do [doleiro Alberto] Youssef com o Paulo Roberto [Costa]",
responde o ex-presidente.
O
juiz então retruca que "indagou" sobre o assunto porque Lula havia
indicado nomes ao comando da Petrobras. "Eu não tenho nada a ver com isso,
eu não participei dessas indicações. O senhor soltou o Youssef e mandou
grampear. O senhor poderia saber mais do que eu", rebate Lula.
Como
suposto indício de que o ex-presidente tinha ciência de irregularidades na
estatal, Moro menciona que ele participou do lançamento da Refinaria Abreu e
Lima, em Pernambuco, e acompanhou obras de terraplanagem no empreendimento.
Lula então se irrita e diz que tais questões não tem nada a ver com a acusação.
"Quem
está sendo julgado é um estilo de governar. É um jeito de governar. Se as
pessoas que estão fazendo essa denúncia querem saber como se governa, elas têm
que sair do Ministério Público, entrar em um partido político, disputar as
eleições, ganhar, para elas saberem como se governa. Governar democraticamente,
com oposição da imprensa, oposição do sindicato, com direito de greve,
fortalecendo o Ministério Público, fortalecendo a Polícia Federal, fortalecendo
todas as instituições de fiscalização nesse país. Então essas perguntas todas,
na verdade elas estão questionando é um jeito de governar", aponta o
petista.
O
filme narra como Lula foi condenado, preso e proibido de participar das
eleições de 2018, das quais era favorito. E destaca como Moro agiu sem
imparcialidade nesse processo — tanto que deixou a magistratura para ser
ministro da Justiça do governo Bolsonaro e, posteriormente, disse que iria se
candidatar no pleito de 2022 — embora ainda não se saiba a que cargo.
O
clímax do documentário é o julgamento da suspeição do ex-juiz pelo STF. Na
sessão, o ministro Gilmar Mendes afirma que já elogiou a "lava jato",
mas que mudou de ideia com a revelação dos abusos da operação. "Não se
combate corrupção cometendo crimes", diz o magistrado.
Para
ilustrar a proximidade indevida entre o juiz e procuradores, Gilmar cita
mensagens em que Dallagnol, após a condução coercitiva de Lula, sugere aos
colegas divulgar nota em apoio a Moro. O procurador Carlos Fernando dos Santos
Lima apoia a ideia. "Por mim, soltamos pq não deixo amigo apanhando
sozinho rs. Independentemente de resultado, soltaria por solidariedade ao
Moro" (sic).
Além
disso, o ministro menciona a interceptação do ramal central do escritório
Teixeira, Martins e Advogados, hoje conhecido como Teixeira Zanin Martins
Advogados, que conduzia a defesa de Lula. "Grampo de ramal de escritório é
coisa de regime totalitário, pois desaparece o direito de defesa",
analisa.
Após
a declaração da suspeição de Moro, o documentário perde um pouco o fôlego e
passa a se concentrar na destruição causada por Bolsonaro e nos ataques dele ao
STF, especialmente ao ministro Alexandre de Moraes.
Delações questionáveis
A
operação "lava jato" foi alicerçada em delações premiadas. De acordo
com entrevistados do filme, o instrumento foi usado de forma seletiva para
perseguir determinadas pessoas, como Lula.
O
advogado Marco Aurélio de Carvalho ressalta que o delator Pedro Corrêa,
ex-deputado federal, disse que o esquema na Petrobras começou bem antes dos
governos do PT, mas a informação foi ignorada pelos operadores da "lava
jato".
Já
o criminalista Fábio Tofic Simantob lembra que houve uma "indústria de
delações". Segundo o advogado, ela funcionava da seguinte forma: o
interessado se oferecia ao MPF para firmar acordo. Procuradores informavam que,
para fechar a colaboração, seria preciso que entregasse tal e tal pessoa. E,
uma vez assinada a delação, Moro revogava a prisão preventiva no dia seguinte,
de forma a passar um recado para os potenciais colaboradores.
A
principal revelação do filme é feita por Alexandrino Alencar, ex-executivo da
Odebrecht que entrou na delação premiada da empreiteira. Ele conta que foi
pressionado por procuradores a fazer acusações contra Lula.
"Fizeram
uma pressão em cima da gente". Era uma questão com o Lula. Ele queria
saber o que o irmão do Lula [fez], o filho do Lula, não sei o quê do Lula, as
palestras do Lula", declara Alencar.
O
depoimento coincide com reportagens publicadas pelo jornal Folha de S.Paulo que
disseram que o MPF resistia em aceitar a delação de Alencar, uma vez que ele
não citava Lula ou outros políticos. Depois de alterar sua narrativa, ele
celebrou acordo e contou que a empreiteira bancou a reforma do sítio usado pelo
petista em Atibaia (SP). O depoimento foi fundamental para a condenação do
ex-presidente a 12 anos e 11 meses de prisão por corrupção e lavagem de
dinheiro no caso. A sentença foi posteriormente anulada pelo STF.
O
ex-executivo da Odebrecht ainda declara saber de gente que foi dispensada de
depor após citar o ex-governador de Minas Gerais Aécio Neves (PSDB), o que
indicaria proteção de procuradores a ele.
"Não
vou dizer o nome do santo. Mas tem colega meu que foi preso em Curitiba, chegou
lá, o pessoal [investigadores] começou a perguntar sobre caixa dois [recursos
doados para políticos sem registro na contabilidade oficial]. Ele [colega de
Alexandrino] falou: 'Isso aqui é para o Aécio Neves'. Na hora em que ele falou,
eles [interrogadores] se levantaram e soltaram ele. Isso é 'lava jato'? Isso é
um sistema anticorrupção? Ou é uma questão direcionada?".
Entrevistas com advogados
O
filme tem entrevistas com diversos advogados. Além de Marco Aurélio Carvalho e
Fábio Tofic Simantob, dão depoimentos Cristiano Zanin Martins, Fernando Augusto
Fernandes, Walfrido Warde, Carol Proner e Pedro Estevam Serrano.
Zanin
lembra que o eixo central da denúncia do tríplex era de que Lula integrava uma
organização criminosa que promovia desvios na Petrobras. Contudo, Lula foi
absolvido dessa acusação, e o MPF nem recorreu. "Então como condenar pelo
tríplex?", questiona o advogado do petista.
O
criminalista Fernando Fernandes explica que houve lawfare na "lava
jato", embora diga não gostar do termo em inglês. "Membros do
Judiciário, que não podem atuar politicamente, usaram seus cargos para atacar a
política. Ao atacarem Lula, atacaram a esquerda a qualquer custo e fizeram
surgir o bolsonarismo."
Warde,
autor do livro O espetáculo da corrupção: como um sistema corrupto e o modo de
combatê-lo estão destruindo o país (Leya), ressalta que a "lava jato"
não fez distinção entre empresas e empresários. Em vez de punir apenas as
pessoas responsáveis por crimes, também penalizou as companhias, afetando a
economia e gerando perda de empregos, declara.
Professora
de Direito Internacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Carol
Proner explica como, por meio do Foreign Corrupt Practices Act, os EUA passaram
a promover seus interesses no mundo por meios jurídicos e geopolíticos, e não
mais pela guerra.
Pedro
Serrano, professor de Direito Constitucional da Pontifícia Universidade
Católica de São Paulo, diz que a indignação contra a corrupção é seletiva.
Afinal, o governo Bolsonaro destinou R$ 1,3 bilhão a bancos no começo da
epidemia de Covid-19, e ninguém reclamou. O dinheiro foi para o setor mais
corrupto, aponta Serrano, quando poderia ter sido usado para manter as pessoas
em casa e frear a disseminação do coronavírus.
Além
disso, o filme apresenta criminalistas como Geraldo Prado e Miguel Pereira Neto
debatendo no Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil às vésperas do
julgamento, pelo STF, que voltou a estabelecer que só é possível executar a
pena após o trânsito em julgado da condenação.
A
sustentação oral feita na ocasião pelo advogado Antônio Carlos de Almeida
Castro, o Kakay, tem destaque na película. Em sua fala, ele apontou que o caso
não dizia respeito apenas a Lula, uma vez que as ações foram propostas em 2016,
antes de o petista ser denunciado. Kakay também ressaltou que a prisão após
segunda instância puniu mais severamente os pobres e negros.
Cenas jornalistas
O
documentário também tem reflexões sobre a atuação da imprensa na "lava
jato". Leandro Demori explica a integrantes da Federação Única dos
Petroleiros como era o modus operandi dos procuradores de Curitiba.
Eles
convocavam coletiva de imprensa de manhã, liberavam o acesso a diversos
documentos e entregavam um release com o resumo das informações que queriam
destacar. Não dava tempo de os repórteres conferirem os arquivos, fazerem
investigações paralelas. Então, acabavam reproduzindo a versão do MPF.
No
fim do filme, Carla Jimenez afirma que, depois da Vaza Jato, "nunca mais
vai olhar para o MP do mesmo jeito". Os jornalistas lembram de entrevista
concedida ao Intercept por Christianne Machiavelli, ex-assessora de imprensa da
Justiça Federal em Curitiba.
Ela
afirmou que, na efervescência dos processos da "lava jato", os
jornalistas abandonaram qualquer distanciamento e senso crítico para apresentar
à população meras suspeitas ou suposições como verdades absolutas. A pressa, a
competição pelo "furo" e a necessidade de cativar as fontes — a
polícia, o Ministério Público Federal e o juiz Sergio Moro — levaram repórteres
e editores a abdicar de seu papel para se tornar integrantes da chamada
"força-tarefa".
"Talvez
tenha faltado crítica da imprensa. Era tudo divulgado do jeito como era citado
pelos órgãos da operação. A imprensa comprava tudo. Não digo que o trabalho não
foi correto, ela se serviu do que tinha de informação. Mas as críticas à
operação só vieram de modo contundente nos últimos dois anos [a partir de
2016]. Antes praticamente não existia. Algumas vezes, integrantes da PF e do
MPF se sentiam até melindrados porque foram criticados pela imprensa",
disse Christianne Machiavelli.
Sérgio Rodas é
correspondente da revista Consultor Jurídico no Rio de Janeiro.
Revista Consultor
Jurídico
https://www.conjur.com.br/2022-jun-16/filme-mostra-lava-jato-cometeu-abusos-ajudou-eleger-bolsonaro

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