"Como
é que este país suporta o pior presidente e o governo mais bizarro (tirando,
claro, os anos da ditadura, e ainda assim só por causa da violência e da
repressão) de 130 anos de República?", escreve o colunista Eric
Nepomuceno. "Como é que vão demolindo tudo, dia sim e o outro também, e
ninguém move uma palha para impedir?", acrescenta
Em
abril, ou seja, bem antes do aniversário do Lula, meio ano antes, Camilo, filho
de meu amigo Paulo Vannuchi, me pediu uma carta dirigida ao Lula, para um site
que ele estava fazendo.
O
conteúdo do site, aliás muito interessante, era exatamente esse: cartas para o
Lula.
Hoje,
27 de outubro, aniversário do Lula, repito aqui a carta.
Não
precisei atualizar: cada palavra minha continua valendo, só que com muito mais ímpeto.
Rio
de Janeiro, 20 de abril de 2019
Lula,
meu bom amigo:
Estou
há tempos para escrever. Um ano, para ser preciso. Mas só agora consigo. Você
vai perguntar como é que alguém que vive do que escreve há exatos 54 anos
demora mais de um para escrever uma carta.
Respondo:
às vezes, a mão seca.
Cada
vez que comecei a escrever para você o que acabava saindo era pura indignação.
E eu não queria nem quero mandar para você uma carta irada, por mais justa que
seja – e é – essa minha indignação.
Hoje,
sábado de aleluia, vamos ver se consigo. Indignado sempre, pelo que fazem com
você e com o país. Porém, serenado.
Não
preciso contar o que acontece aqui – me refiro a aqui fora – porque você
continua absolutamente informado de tudo.
Mas
conto que nunca, Lula, em nenhum momento, achei que fosse chegar a esta altura
da minha vida vendo o que fizeram e fazem com este pobre país.
Eu
vivi de perto, Lula, golpes tremendos. Vi o Uruguai ruir em junho de 1973, vi o
Chile desmoronar em setembro de 1973, lembro de Salvador Allende, vi o terror
se instalar na Argentina em março de 1976.
Tive
amigos mortos, tive e tenho amigos que sobreviveram a torturas selvagens, a
exílios dolorosos, a distâncias e tempos irrecuperáveis.
Eu
mesmo passei longos anos sem poder vir ao Brasil. Vi meu filho aprender a ficar
em pé e a andar e a falar e a escrever longe do país dele.
Vivi
e vi um monte de coisas mundo afora, Lula. E achei que isso tudo era passado,
era memória.
E
agora vejo e vivo o resultado de um golpe diferente. Um golpe sofisticado,
perfeito: primeiro tiram uma presidenta eleita, depois prendem você, impedem
que dispute uma eleição assegurada, e pronto.
Não
há tanques nas ruas, não há trabalhadores e estudantes sendo torturados e
fuzilados (exceto, claro, quando são pobres e em sua maioria negros), os
grandes meios de comunicação funcionam sem policiais censores nas redações (nem
precisa: os patrões e os chefes nomeados a dedo bastam), e tudo parece normal.
Parece,
Lula.
Mas
você, melhor que qualquer um, e eu sabemos que de normal não há nada neste país
destroçado, à deriva, rumo a um naufrágio tenebroso.
Será
este nosso país um país sem memória? Espero que não, meu bom amigo. Espero que
não, e que desperte rápido desse pesadelo.
Além
da dor e da indignação por tudo que acontece, Lula, ando cheio de perguntas.
Por exemplo: como é que puderam votar nessa aberração que todo santo dia
deposita o traseiro na poltrona presidencial?
Como
é que essa aberração nomeou esse ministério todo – do qual, aliás, não escapa
ninguém – que assombra o país e o mundo?
Como
é que este país suporta o pior presidente e o governo mais bizarro (tirando,
claro, os anos da ditadura, e ainda assim só por causa da violência e da
repressão) de 130 anos de República?
Como
é que vão demolindo tudo, dia sim e o outro também, e ninguém move uma palha
para impedir?
Olha
só, Lula, olha só: achei que estava sereno e que escreveria sem indignação. E
não consegui.
Melhor
parar por aqui, mas não sem antes reforçar minha amizade e meu carinho por
você, pela sua gente.
Pensei
em sair do Brasil por um tempo, Lula.
A
razão? Conto: em 1977 conheci, no exilio em Madri, um grande escritor argentino
chamado Hector Tizón. Ficamos amigos fraternos.
Certo
dia de extrema melancolia, perguntei a ele por que havia saído da Argentina.
Não estava em nenhuma organização de esquerda, não tinha vínculos com nenhum
movimento, não tinha sido ameaçado.
E
ele me respondeu: ‘Saí por asco’. Asco pelo que faziam no país dele, Lula. E
por essa razão – asco, nojo – pensei em sair do Brasil por um tempo.
Mas
não vou. De novo, não.
Vou
ficar e resistir com a única arma que tenho, a palavra.
E
assim espero que a justiça seja feita e você volte para casa, e a gente possa
enfim se encontrar de novo e pôr a conversa em dia.
Há
muito o que conversar, Lula, muito. E ando precisando.
Deixo
aqui, como sempre, meu melhor abraço

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